Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo De
Fidel Castro a Marilyn
E ainda: Thatcher,
Woody Allen, John Huston, Mailer: personagens do diário de um historiador
americano
Todo mundo devia escrever um diário.
Ou melhor: todo mundo que, como Arthur Schlesinger Jr., conheceu gente interessante,
viveu acontecimentos decisivos e tem sensibilidade para avaliar as pessoas, gosto
pelas boas frases e firme compromisso com a fofoca. Schlesinger é um historiador
americano que morreu em fevereiro deste ano, aos 89 anos. Ele escreveu livros
sobre Franklin Roosevelt e John Kennedy, militou na ala intelectual do Partido
Democrata desde o pós-guerra e, sobretudo, marcou presença como
integrante de primeira fila do Camelot, como era chamada a corte kennediana. Seus
filhos agora publicaram, nos Estados Unidos, o diário que manteve entre
1952 e 2000.
Em junho de 1985, ei-lo
em Havana, onde o esperava um daqueles caudalosos encontros com Fidel Castro.
O líder cubano lembrou-o Lyndon Johnson pelo gosto do "contato físico",
o impulso de tocar o interlocutor. "É um homem de alta inteligência,
ilimitada energia e um ardoroso showman", lançou no diário.
"É um líder muito grande para um país pequeno, e gostaria
de governar o mundo, ou pelo menos a América Latina." Em 1994, ei-lo
em Londres com Margaret Thatcher. "É a mais articulada e opiniática
das mulheres, desfiando sentenças claras e definitivas sem parar. Ao contrário
dos meus pressentimentos, surpreendi-me gostando dela." Thatcher lembrava-o...
Quem? Quem mesmo? Depois de um tempo de cisma, de repente lhe ocorre a resposta:
Fidel Castro! "Ambos são especialistas em performances caracterizadas
pela alta inteligência e considerável charme; ambos são grandes
conversadores; (...) ambos são imperiosos, dogmáticos e inflexíveis."
Festeiro
incorrigível, Schlesinger compareceu a todos os jantares e eventos do circuito
Nova YorkWashington. Além dos políticos, conviveu com escritores
como Norman Mailer, Lillian Hellman e William Styron, gente do cinema como John
Huston, Elizabeth Taylor e Jack Nicholson, e até um roqueiro, Mick Jagger.
Ele nos dá conta de que Woody Allen se apaixonou por Mariel Hemingway quando
filmavam Manhattan, e de que Norris Church, mulher de Norman Mailer, foi
namorada de Bill Clinton. Há histórias pungentes e outras patéticas.
Quando soube da morte de Marilyn Monroe, diz que não se surpreendeu. Lembrou-se
daquela noite de aniversário de John Kennedy, aquela em que ela cantou
Happy Birthday, Mr. President. O que reteve foi a imagem de uma garota
"deslumbrante, afiada nos truques de sedução e desesperada".
Ele e Bob Kennedy brincaram de cortejá-la, mas ela tinha atenções
mesmo era para o ex-sogro, o pai de Arthur Miller, um homem "taciturno",
a quem lançava "olhares maternais". No ramo do patético,
Bill Clinton contou a Schlesinger a história do ex-candidato presidencial
Jesse Jackson, filho ilegítimo de um homem que morava na casa vizinha com
a família legítima. O homem tinha um filho da mesma idade de Jackson,
e todo dia Jackson o via chegar em casa e brincar com esse outro filho como nunca
fizera nem iria fazer com ele.
John Huston
disse a Schlesinger que os três homens mais elegantes que encontrou na vida
eram todos escritores e alcoólatras: Dashiell Hammett, Eugene ONeill
e William Faulkner. Quando Schlesinger perguntou ao grande crítico literário
Edmund Wilson como estava, num almoço entre ambos, em 1970, Wilson respondeu:
"Fiquei velho". Tinha 75 anos, e acrescentou: "Trotsky costumava
dizer que as pessoas sempre se surpreendem ao se descobrirem velhas. Elas acham
que isso é coisa que só acontece com os outros. Acho difícil
acreditar que tenha acontecido comigo". Em 1996, Schlesinger estava na Espanha
e o embaixador americano em Madri lhe propôs assistir à Semana Santa
em Sevilha. Quando Schlesinger recusou, argumentando que não suportava
cerimônias religiosas, o mexicano Carlos Fuentes, também presente,
interveio: "Não seja tolo. A Semana Santa em Sevilha é um grande
festival pagão".
O romancista
James Baldwin, negro e homossexual, foi convidado, com outros escritores americanos,
para a cerimônia de posse de François Mitterrand na Presidência
da França, em 1981. Os escritores perguntaram se era para levar as mulheres
e a resposta foi não. Baldwin insistiu que só viajava acompanhado,
e os franceses lhe abriram uma exceção. Embarcou então com
seu amante do momento para Paris, no Concorde, de lá seguiu para a Côte
dAzur, passou o fim de semana na praia e voltou a Nova York, sem ter ido
à posse de Mitterrand. Já Ronald Reagan, "um chato sem remédio",
segundo John Huston, que o conheceu nos tempos de Hollywood, causaria estranheza
num almoço com altos funcionários da ONU pelo tique de a toda hora
se voltar para um vaso de flores à sua frente. Estaria com algum problema
no pescoço? O então secretário-geral da organização,
Perez de Cuellar, explicou: "Vocês não perceberam? Ele tinha
um cartão com a agenda do encontro disfarçado no vaso de flores".
Todos com a experiência e as antenas de Arthur Schlesinger deveriam escrever
diários. A vida pulsa, neles, como só a vida de mentira dos livros
de ficção.