Sete Pecadosé
a primeira novela a mostrar o drama dos jovens que já nasceram com
HIV
Marcelo
Marthe
Divulgação
Gina
(Carla Diaz) conta seu segredo ao paquera: amor e preconceito
As
novelas da Rede Globo já haviam abordado o drama de soropositivos contaminados
por meio de relações sexuais sem camisinha, transfusões de
sangue e uso de drogas injetáveis. Na terça-feira passada, a novela
Sete Pecados mostrou pela primeira vez uma faceta menos conhecida da aids:
a "transmissão vertical" de mãe para filho. Desde o início
da epidemia no Brasil, nos anos 80, mais de 13.000 crianças foram infectadas
durante o parto. A cada ano, cerca de 700 novos casos se somam a tal estatística.
Esses portadores não enfrentam apenas o problema de saúde. Ao chegarem
à adolescência, têm de lidar com a discriminação
e as dificuldades de quem está iniciando a vida afetiva exatamente
como a personagem de Sete Pecados. Na cena que foi ao ar na terça-feira,
Gina (Carla Diaz) contou seu segredo ao colega e pretendente Sandro (Darlan Cunha),
na biblioteca de uma escola pública de periferia. "Eu nasci com aids",
revelou a garota, confidenciando ainda que o pai tinha morrido em decorrência
do HIV e que sua mãe também estava doente.
O noveleiro Walcyr Carrasco dá sinais de que não pretende dourar
a pílula. Gina, que apareceu na trama há cerca de dois meses, era
discriminada no colégio em que estudava anteriormente e por isso decidiu
esconder sua condição do paquera. Quando a notícia de que
tem aids se espalhar, ela passará a ser tratada como pária. Um grupo
de alunos tentará vetar sua entrada no prédio. Numa lição
de matemática, eles a isolarão na sala de aula. Gina também
será impedida de fazer exercícios de educação física,
pois os colegas terão medo de se contaminar caso ela sofra ferimentos.
Assim como já vem fazendo ao expor os problemas da escola pública,
Carrasco pretende tirar daí lições contra o preconceito.
Seria interessante também se chamasse atenção para outro
dado. A transmissão vertical é uma tragédia para a qual há
prevenção: com certos cuidados no parto e durante a gestação,
está provado que se pode reduzir a taxa de infecção de 20%
para menos de 1%. Mas a falta de conscientização e o desleixo têm
impedido o Brasil de minimizar essa tragédia. "A aids hoje é
controlável. Mas o preconceito, não", diz Marinella Della Negra,
infectologista do Hospital Emílio Ribas.