A dondoca Gioconda
anima Duas Caras. E revigora a carreira da atriz Marília Pêra
na televisão
Marcelo
Marthe
Divulgação
Marília,
como Gioconda (nos balões, frases da personagem): farpas e ginástica
facial
"Lenir, pára
de bancar a Simone de Beauvoir"
"Lenin
hoje em dia não passa de uma múmia jogada nos porões do Kremlin"
"Meu
Deus do céu, onde é que essa família vai parar? No Congo
Belga? Num desses lugares sórdidos nos quais os pagãos se entregavam
a todo tipo de orgia?"
Em 42 anos de televisão,
Marília Pêra nunca tinha atuado numa novela das
8 da Globo. Ao conquistar seu papel em Duas Caras,
ela pediu um presente ao autor Aguinaldo Silva: que sua personagem
não repetisse as peruas que ela interpretou em folhetins
das 7. A encomenda veio só pela metade. Silva lhe deu
Gioconda, que é perua novamente mas de um gênero
fidalgo. Nascida em família tradicional carioca, a
personagem vive acossada pela realidade. Quando invadem sua
redoma, recorre a uma caixinha de pílulas para acalmar
os nervos ou então solta a matraca em discursos de
linguagem rebuscada, nos quais o esnobismo se mistura a um
forte senso de decoro. Nem sempre ela é movida pelas
melhores razões. O racismo do marido a deixa chocada,
não exatamente por ser racismo, mas pela grosseria
exacerbada. Ao flagrar o filho perseguindo a empregada, o
que a aflige é a vulgaridade: "Meu Deus do céu,
onde é que essa família vai parar? No Congo
Belga?". Por outro lado, Gioconda não se deixa
patrulhar. Por que ela não dispensa os vestidos suntuosos
no Rio de Janeiro do popozão de fora? "Não
é porque vivo na Assíria que vou usar uma barba
de cachinhos." E está sempre pronta a zombar dos
esquerdistas que acham que até o feijão queimado
"é culpa do neoliberalismo". O resultado
é uma personagem ambígua e divertida, que já
desperta simpatia e deve crescer na novela. "Em breve,
Gioconda vai largar as pílulas e cair na realidade",
diz Aguinaldo Silva.
Marília
Pêra tem um quê da personagem. Compartilha com ela, por exemplo, a
devoção às medalhinhas miraculosas de Nossa Senhora citadas
na novela. "A que uso em cena é minha mesmo. Comprei na igrejinha
da Rue du Bac, em Paris", diz. O próprio Aguinaldo Silva afirma que
a fala teatral da atriz desde o começo está associada a Gioconda
em sua cabeça. "É como se ela ditasse suas falas." O noveleiro
diz ter certeza de que as tiradas antiesquerdistas da personagem são ditas
com prazer pela atriz. O que significa que, como Gioconda, Marília oscila
entre a lucidez e as mancadas em questões políticas: em 1989, ela
deu apoio à aventura de Fernando Collor de Mello na Presidência do
Brasil.
Marília atua em novelas
desde 1965. "Eu inaugurei a Globo", diz. Mas sempre deu prioridade a
suas atividades como atriz, produtora e diretora teatral. Ao lado de Fernanda
Montenegro e Renata Sorrah, ela engrossa aquela casta de artistas que gozam de
status diferenciado na televisão em razão de sua trajetória
nos palcos. No ano passado, depois de ser assediada pela Record, a atriz fechou
contrato de longo prazo com a Globo (antes, negociava seus trabalhos de forma
avulsa). Essa também foi a senha para a emissora brindá-la com uma
personagem de maior destaque. Marília está adorando atuar com colegas
de geração, como Suzana Vieira e Beth Faria. "Elas são
só alguns meses mais velhas que eu", afirma. Às portas dos
65 anos, também se orgulha de manter a mesma silhueta de 51 quilos da juventude.
No rosto, jura que as intervenções foram mínimas. "Plástica
não farei mais. As sessões de ginástica facial me bastam",
diz. Marília se sente rejuvenescida, por fim, por trabalhar com novatos
como Marjorie Estiano. "Eu me sinto no jardim-de-infância, com todos
aqueles bebezinhos para tomarmos conta", afirma Gioconda. Quer dizer, Marília.