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26 de dezembro de 2007
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Televisão
Perua, sim, mas com classe

A dondoca Gioconda anima Duas Caras. E revigora
a carreira da atriz Marília Pêra na televisão


Marcelo Marthe

Divulgação
Marília, como Gioconda (nos balões, frases da personagem): farpas e ginástica facial

 

"Lenir, pára de bancar
a Simone de Beauvoir"

 

"Lenin hoje em dia não passa de uma múmia jogada nos porões do Kremlin"

 

"Meu Deus do céu, onde é que essa família vai parar? No Congo Belga? Num desses lugares sórdidos nos quais os pagãos se entregavam a todo tipo de orgia?"

Em 42 anos de televisão, Marília Pêra nunca tinha atuado numa novela das 8 da Globo. Ao conquistar seu papel em Duas Caras, ela pediu um presente ao autor Aguinaldo Silva: que sua personagem não repetisse as peruas que ela interpretou em folhetins das 7. A encomenda veio só pela metade. Silva lhe deu Gioconda, que é perua novamente – mas de um gênero fidalgo. Nascida em família tradicional carioca, a personagem vive acossada pela realidade. Quando invadem sua redoma, recorre a uma caixinha de pílulas para acalmar os nervos ou então solta a matraca em discursos de linguagem rebuscada, nos quais o esnobismo se mistura a um forte senso de decoro. Nem sempre ela é movida pelas melhores razões. O racismo do marido a deixa chocada, não exatamente por ser racismo, mas pela grosseria exacerbada. Ao flagrar o filho perseguindo a empregada, o que a aflige é a vulgaridade: "Meu Deus do céu, onde é que essa família vai parar? No Congo Belga?". Por outro lado, Gioconda não se deixa patrulhar. Por que ela não dispensa os vestidos suntuosos no Rio de Janeiro do popozão de fora? "Não é porque vivo na Assíria que vou usar uma barba de cachinhos." E está sempre pronta a zombar dos esquerdistas que acham que até o feijão queimado "é culpa do neoliberalismo". O resultado é uma personagem ambígua e divertida, que já desperta simpatia e deve crescer na novela. "Em breve, Gioconda vai largar as pílulas e cair na realidade", diz Aguinaldo Silva.

Marília Pêra tem um quê da personagem. Compartilha com ela, por exemplo, a devoção às medalhinhas miraculosas de Nossa Senhora citadas na novela. "A que uso em cena é minha mesmo. Comprei na igrejinha da Rue du Bac, em Paris", diz. O próprio Aguinaldo Silva afirma que a fala teatral da atriz desde o começo está associada a Gioconda em sua cabeça. "É como se ela ditasse suas falas." O noveleiro diz ter certeza de que as tiradas antiesquerdistas da personagem são ditas com prazer pela atriz. O que significa que, como Gioconda, Marília oscila entre a lucidez e as mancadas em questões políticas: em 1989, ela deu apoio à aventura de Fernando Collor de Mello na Presidência do Brasil.

Marília atua em novelas desde 1965. "Eu inaugurei a Globo", diz. Mas sempre deu prioridade a suas atividades como atriz, produtora e diretora teatral. Ao lado de Fernanda Montenegro e Renata Sorrah, ela engrossa aquela casta de artistas que gozam de status diferenciado na televisão em razão de sua trajetória nos palcos. No ano passado, depois de ser assediada pela Record, a atriz fechou contrato de longo prazo com a Globo (antes, negociava seus trabalhos de forma avulsa). Essa também foi a senha para a emissora brindá-la com uma personagem de maior destaque. Marília está adorando atuar com colegas de geração, como Suzana Vieira e Beth Faria. "Elas são só alguns meses mais velhas que eu", afirma. Às portas dos 65 anos, também se orgulha de manter a mesma silhueta de 51 quilos da juventude. No rosto, jura que as intervenções foram mínimas. "Plástica não farei mais. As sessões de ginástica facial me bastam", diz. Marília se sente rejuvenescida, por fim, por trabalhar com novatos como Marjorie Estiano. "Eu me sinto no jardim-de-infância, com todos aqueles bebezinhos para tomarmos conta", afirma Gioconda. Quer dizer, Marília.




 

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