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26 de dezembro de 2007
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Livros
A santa vasilha

No começo, o Graal não era um cálice.
Mas essa não foi a única metamorfose
da lenda em oito séculos de história


Jerônimo Teixeira

Bibliotheque Nationele, Paris
O Santo Graal no centro da Távola Redonda, em iluminura do século XV: originalmente associada aos valores da cavalaria, a lenda do Santo Graal ganhou versões paródicas e amalucadas no século XX

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Trecho do livro

Nenhum cálice aparece na mesa à qual estão reunidos Jesus e os apóstolos na Última Ceia de Leonardo da Vinci. O professor Robert Langdon insiste nessa circunstância ao expor suas teorias conspiratórias no best-seller O Código Da Vinci – seria a prova de que o Santo Graal não é um utensílio, mas uma pessoa. Só por causa dessa bobagem, o herói acadêmico inventado por Dan Brown mereceria ser sumariamente demitido da Universidade Harvard. Pois um historiador da arte deveria saber que o graal, em suas primeiras aparições na literatura medieval, é uma vasilha ou um simples prato (como aquele que aparece na frente de Jesus na pintura de Da Vinci). Também já foi descrito como uma espécie de pedra mágica. O leitor interessado em conhecer as várias configurações da lenda que há 800 anos vem atiçando a imaginação ocidental encontrará um exce-lente guia em O Santo Graal (tradução de Maria Beatriz de Medina; Record; 576 páginas; 55 reais), do medievalista inglês Richard Barber.

A lenda do Graal surge associada ao ciclo de aventuras de Arthur, mítico rei da Inglaterra. Mas seu criador foi um francês: Chrétien de Troyes, autor de A História do Graal, narrativa em que o cavaleiro Percival vislumbra a elusiva vasilha quando visita o misterioso castelo do Rei Pescador. Chrétien morreu no fim do século XII, deixando a obra inacabada. Nas cinco décadas que se seguem a sua morte, serão escritas várias continuações, prólogos, revisões do Graal, incorporando cada vez mais elementos cristãos. Consolidou-se a idéia de que o Graal foi o cálice usado por Jesus na Santa Ceia – e que mais tarde seria utilizado por José de Arimatéia para recolher o sangue do Cristo crucificado. Com essas histórias de uma busca ao mesmo tempo secular e religiosa, aventuresca e espiritual, Chrétien e os demais autores de romanças – gênero em verso ou prosa que seria o antepassado remoto do moderno romance – compuseram uma imagem literária idealizada da cavalaria, então uma classe afluente. A busca de relíquias na Terra Santa era parte importante das justificações ideológicas das Cruzadas, e o Graal competia com a Vera Cruz – a cruz onde Jesus morreu – como a relíquia mais importante. A busca do Graal foi aos poucos ocupando o centro da imaginação cavaleiresca.

A última grande versão medieval da lenda – e talvez a versão definitiva da história do rei Arthur e seus cavaleiros da Távola Redonda – foi Le Morte d’Arthur, concluída em 1470 pelo inglês Thomas Malory. No século XVI, as histórias do Graal caíram de moda. A Reforma via com desconfiança essas lendas populares cristãs – o culto às relíquias seria uma forma de idolatria. Mas a lenda seria recuperada pelo romantismo, no fim do século XVIII e início do XIX. Na Inglaterra, o movimento dos pré-rafaelitas – poetas e artistas que valorizavam a estética medieval, anterior à Renascença – redescobriu a obra de Malory, na qual eles buscaram inspiração para novos poemas e quadros. Parsifal, a última ópera do alemão Richard Wagner, também revisitou a lenda.

Ao longo do século XX, o Graal ganharia configurações distantes do cristianismo original. As "filosofias" místicas da Nova Era tentariam dar uma roupagem pagã e feminista à lenda – foi assim em As Brumas de Avalon, da americana Marion Zimmer Bradley, best-seller nos anos 80. As aventuras de Arthur, Lancelot e Galahad também seriam violentamente parodiadas no filme Monty Python e o Cálice Sagrado, de 1975. Mas o Graal sobrevive, na forma de prato, cálice, pedra – ou até de uma mulher, de acordo com a versão doidivanas de Dan Brown. Seu fascínio talvez não esteja ligado à coisa em si, mas à sua eterna busca.




 

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