No começo, o Graal
não era um cálice. Mas essa não foi a única metamorfose
da lenda em oito séculos de história
Jerônimo
Teixeira
Bibliotheque
Nationele, Paris
O
Santo Graal no centro da Távola Redonda, em iluminura do século
XV: originalmente associada aos valores da cavalaria, a lenda do Santo Graal ganhou
versões paródicas e amalucadas no século XX
Nenhum cálice aparece
na mesa à qual estão reunidos Jesus e os apóstolos
na Última Ceia de Leonardo da Vinci. O professor
Robert Langdon insiste nessa circunstância ao expor
suas teorias conspiratórias no best-seller O Código
Da Vinci seria a prova de que o Santo Graal não
é um utensílio, mas uma pessoa. Só por
causa dessa bobagem, o herói acadêmico inventado
por Dan Brown mereceria ser sumariamente demitido da Universidade
Harvard. Pois um historiador da arte deveria saber que o graal,
em suas primeiras aparições na literatura medieval,
é uma vasilha ou um simples prato (como aquele que
aparece na frente de Jesus na pintura de Da Vinci). Também
já foi descrito como uma espécie de pedra mágica.
O leitor interessado em conhecer as várias configurações
da lenda que há 800 anos vem atiçando a imaginação
ocidental encontrará um exce-lente guia em O
Santo Graal (tradução de Maria Beatriz
de Medina; Record; 576 páginas; 55 reais), do medievalista
inglês Richard Barber.
A
lenda do Graal surge associada ao ciclo de aventuras de Arthur, mítico
rei da Inglaterra. Mas seu criador foi um francês: Chrétien de Troyes,
autor de A História do Graal, narrativa em que o cavaleiro Percival
vislumbra a elusiva vasilha quando visita o misterioso castelo do Rei Pescador.
Chrétien morreu no fim do século XII, deixando a obra inacabada.
Nas cinco décadas que se seguem a sua morte, serão escritas várias
continuações, prólogos, revisões do Graal, incorporando
cada vez mais elementos cristãos. Consolidou-se a idéia de que o
Graal foi o cálice usado por Jesus na Santa Ceia e que mais tarde
seria utilizado por José de Arimatéia para recolher o sangue do
Cristo crucificado. Com essas histórias de uma busca ao mesmo tempo secular
e religiosa, aventuresca e espiritual, Chrétien e os demais autores de
romanças gênero em verso ou prosa que seria o antepassado
remoto do moderno romance compuseram uma imagem literária idealizada
da cavalaria, então uma classe afluente. A busca de relíquias na
Terra Santa era parte importante das justificações ideológicas
das Cruzadas, e o Graal competia com a Vera Cruz a cruz onde Jesus morreu
como a relíquia mais importante. A busca do Graal foi aos poucos
ocupando o centro da imaginação cavaleiresca.
A última grande versão medieval da lenda e talvez a versão
definitiva da história do rei Arthur e seus cavaleiros da Távola
Redonda foi Le Morte dArthur, concluída em 1470 pelo
inglês Thomas Malory. No século XVI, as histórias do Graal
caíram de moda. A Reforma via com desconfiança essas lendas populares
cristãs o culto às relíquias seria uma forma de idolatria.
Mas a lenda seria recuperada pelo romantismo, no fim do século XVIII e
início do XIX. Na Inglaterra, o movimento dos pré-rafaelitas
poetas e artistas que valorizavam a estética medieval, anterior à
Renascença redescobriu a obra de Malory, na qual eles buscaram inspiração
para novos poemas e quadros. Parsifal, a última ópera do
alemão Richard Wagner, também revisitou a lenda.
Ao longo do século XX, o Graal ganharia configurações distantes
do cristianismo original. As "filosofias" místicas da Nova Era
tentariam dar uma roupagem pagã e feminista à lenda foi assim
em As Brumas de Avalon, da americana Marion Zimmer Bradley, best-seller
nos anos 80. As aventuras de Arthur, Lancelot e Galahad também seriam violentamente
parodiadas no filme Monty Python e o Cálice Sagrado, de 1975. Mas
o Graal sobrevive, na forma de prato, cálice, pedra ou até
de uma mulher, de acordo com a versão doidivanas de Dan Brown. Seu fascínio
talvez não esteja ligado à coisa em si, mas à sua eterna
busca.