O inglês Philip
Pullman escreveu A Bússola de Ouro como um ataque ao obscurantismo
religioso. Já o filme não tem nada de iconoclástico:
ele só quer saber de visual
Isabela
Boscov
Fotos
divulgação
A
heroína Lyra (a estreante Dakota Blue Richards) no reino dos ursos-polares:
as imagens são lindas, mas não fazem muito sentido
Ex-professor
de 1º grau, o inglês Philip Pullman se tornou um
autor de imenso sucesso seguindo uma trilha aberta por seus
compatriotas J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis: a das sagas fantásticas,
que se valem da revisão de mitos para tratar de questões
espirituais e civilizatórias. A trilogia escrita por
Pullman, que abrange A Bússola de Ouro, A
Faca Sutil e A Luneta Âmbar, já foi
traduzida para mais de quarenta idiomas (aqui, foi lançada
pela Editora Objetiva) e vendeu algo como 15 milhões
de exemplares. A diferença está na crença
que move o escritor: enquanto Tolkien e Lewis eram cristãos
fervorosos que em maior ou menor medida imprimiram essa convicção
a seus textos, Pullman é um iconoclasta. A força
totalitária e perversa que domina a vida de seus personagens
tem o nome de "Igreja". Ele também inverte
o mito do Gênese: provar do fruto da árvore
do conhecimento não leva a humanidade a perder o paraíso,
e sim a conquistá-lo. Por causa disso, a notícia
de que um filme infantil seria calcado em seus livros deixou
grupos cristãos americanos em polvorosa. Mas insistir
nesse assunto diante de A Bússola de Ouro(The Golden Compass, Estados Unidos/Inglaterra, 2007),
que estréia no dia 25 no Brasil, é querer fabricar
uma polêmica. Os produtores do filme fugiram da iconoclastia
de Pullman como o diabo foge da cruz. A "Igreja"
virou "Magistério". A provocação
com o Gênese sumiu de vista. Da maneira como
chegou à tela, Bússola é uma fantasia
um tanto confusa. E só.
Nicole:
o botox é uma blasfêmia
A tentativa de comprimir todo o entrecho do livro num filme de duração
aceitável, que não fizesse as crianças se revirar nas cadeiras
do cinema, resultou em vários cortes não de tramas, mas de
elementos de ligação. Há tanta coisa que não se explica
que se torna difícil até oferecer uma sinopse coerente. A história
gira em torno de Lyra (Dakota Blue Richards), uma órfã muito despachada
de 12 anos que foi colocada pelo tio, Lorde Asriel (Daniel Craig), numa instituição
acadêmica, para sua proteção: ela é o único
ser humano que ainda sabe ler a bússola de ouro, que sempre assinala a
verdade. O Magistério quer pôr as mãos em Lyra, e o faz por
intermédio da Sra. Coulter (Nicole Kidman), que seduz a menina com promessas
de aventura e então passa a tiranizá-la. De alguma maneira, a habilidade
de Lyra está ligada ao Pó (não, ele não é branco,
mas também é proibido, seja lá o que for). E, de maneiras
ainda mais obscuras, tudo isso se junta a um reino de ursos-polares, a ciganos
que viajam em barcos e a um plano para separar as crianças de seus "dimons".
Os dimons (do inglês daemons, aliteração de demons,
ou "demônios") são das mais belas e intrigantes invenções
de Pullman. Animais que acompanham cada ser humano, eles guardam a parte mais
instintiva e criativa de sua alma, e também a menos domesticável.
Os bichinhos, muito fotogênicos, foram preservados pelo filme mas
não escaparam de ter sua essência suavizada.
Visualmente, Bússola avança vários passos sobre As
Crônicas de Nárnia. Em todo o resto, compara-se à adaptação
de C.S. Lewis no que tem de inane e desnaturado. Não que isso deva afetar
seu desempenho. Nárnia rendeu tremendos 745 milhões de dólares.
Em duas semanas, Bússola já está em 133 milhões.
Ótimo para quem lucra com isso e uma pena para quem gostaria de
ver as concepções dos autores defendidas com algum brio, como o
que o neozelandês Peter Jackson demonstrou à frente de O Senhor
dos Anéis. Em Bússola, a única coisa ainda capaz
de provocar indignação é a fisionomia paralisada de Nicole
Kidman, que blasfema contra a própria beleza com doses excessivas de botox
e colágeno.