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26 de dezembro de 2007
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Cinema
Só fantasia, sem heresia

O inglês Philip Pullman escreveu A Bússola de Ouro
como um ataque ao obscurantismo religioso. Já o filme
não tem nada de iconoclástico: ele só quer saber de visual


Isabela Boscov

Fotos divulgação
A heroína Lyra (a estreante Dakota Blue Richards) no reino dos ursos-polares: as imagens são lindas, mas não fazem muito sentido

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Trailer do filme

Ex-professor de 1º grau, o inglês Philip Pullman se tornou um autor de imenso sucesso seguindo uma trilha aberta por seus compatriotas J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis: a das sagas fantásticas, que se valem da revisão de mitos para tratar de questões espirituais e civilizatórias. A trilogia escrita por Pullman, que abrange A Bússola de Ouro, A Faca Sutil e A Luneta Âmbar, já foi traduzida para mais de quarenta idiomas (aqui, foi lançada pela Editora Objetiva) e vendeu algo como 15 milhões de exemplares. A diferença está na crença que move o escritor: enquanto Tolkien e Lewis eram cristãos fervorosos que em maior ou menor medida imprimiram essa convicção a seus textos, Pullman é um iconoclasta. A força totalitária e perversa que domina a vida de seus personagens tem o nome de "Igreja". Ele também inverte o mito do Gênese: provar do fruto da árvore do conhecimento não leva a humanidade a perder o paraíso, e sim a conquistá-lo. Por causa disso, a notícia de que um filme infantil seria calcado em seus livros deixou grupos cristãos americanos em polvorosa. Mas insistir nesse assunto diante de A Bússola de Ouro (The Golden Compass, Estados Unidos/Inglaterra, 2007), que estréia no dia 25 no Brasil, é querer fabricar uma polêmica. Os produtores do filme fugiram da iconoclastia de Pullman como o diabo foge da cruz. A "Igreja" virou "Magistério". A provocação com o Gênese sumiu de vista. Da maneira como chegou à tela, Bússola é uma fantasia um tanto confusa. E só.

Nicole: o botox é uma blasfêmia

A tentativa de comprimir todo o entrecho do livro num filme de duração aceitável, que não fizesse as crianças se revirar nas cadeiras do cinema, resultou em vários cortes – não de tramas, mas de elementos de ligação. Há tanta coisa que não se explica que se torna difícil até oferecer uma sinopse coerente. A história gira em torno de Lyra (Dakota Blue Richards), uma órfã muito despachada de 12 anos que foi colocada pelo tio, Lorde Asriel (Daniel Craig), numa instituição acadêmica, para sua proteção: ela é o único ser humano que ainda sabe ler a bússola de ouro, que sempre assinala a verdade. O Magistério quer pôr as mãos em Lyra, e o faz por intermédio da Sra. Coulter (Nicole Kidman), que seduz a menina com promessas de aventura e então passa a tiranizá-la. De alguma maneira, a habilidade de Lyra está ligada ao Pó (não, ele não é branco, mas também é proibido, seja lá o que for). E, de maneiras ainda mais obscuras, tudo isso se junta a um reino de ursos-polares, a ciganos que viajam em barcos e a um plano para separar as crianças de seus "dimons". Os dimons (do inglês daemons, aliteração de demons, ou "demônios") são das mais belas e intrigantes invenções de Pullman. Animais que acompanham cada ser humano, eles guardam a parte mais instintiva e criativa de sua alma, e também a menos domesticável. Os bichinhos, muito fotogênicos, foram preservados pelo filme – mas não escaparam de ter sua essência suavizada.

Visualmente, Bússola avança vários passos sobre As Crônicas de Nárnia. Em todo o resto, compara-se à adaptação de C.S. Lewis no que tem de inane e desnaturado. Não que isso deva afetar seu desempenho. Nárnia rendeu tremendos 745 milhões de dólares. Em duas semanas, Bússola já está em 133 milhões. Ótimo para quem lucra com isso – e uma pena para quem gostaria de ver as concepções dos autores defendidas com algum brio, como o que o neozelandês Peter Jackson demonstrou à frente de O Senhor dos Anéis. Em Bússola, a única coisa ainda capaz de provocar indignação é a fisionomia paralisada de Nicole Kidman, que blasfema contra a própria beleza com doses excessivas de botox e colágeno.




 

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