Documentos mostram
a luta de Santos Dumont contra uma doença que durou 22 anos e o levou
ao suicídio
Marcelo
Bortoloti
Fotos
acervo doado pela família de Alberto Santos Dumont ao Centro de Documentação e
Histórico da Aeronáutica
Crepúsculo
do gênio: à esquerda, Santos Dumont no fim da década de 20,
quando sua doença piorou. À direita, com seu sobrinho Jorge e o
amigo João Fonseca, um mês antes do suicídio, em 1932
Alberto
Santos Dumont foi um dos brasileiros de maior projeção de todos
os tempos. Inventor rico e genial, foi notícia no mundo inteiro no início
do século passado, com seu 14 Bis e, mais tarde, com o Demoiselle.
Nos últimos cinqüenta anos, ganhou mais de uma dezena de biografias.
Até hoje, no entanto, pouco se sabe sobre as razões que de fato
o levaram a se matar com 59 anos, num banheiro de hotel no litoral paulista. A
versão mais aceita, que o suicídio foi motivado pela angústia
de ver o uso militar do avião, não resiste a uma análise
atenta. Santos Dumont padeceu de uma doença psíquica mal conhecida
pela medicina de então e, portanto, sem registro confiável de suas
causas. Os biógrafos do brasileiro não concordam inteiramente sobre
o diagnóstico. Alguns dizem tratar-se de neurastenia, outros de esclerose
múltipla ou de depressão profunda. VEJA teve acesso a documentos
relativos à doença de Santos Dumont e os submeteu a seis médicos
da Academia Nacional de Medicina, da Federação Brasileira de Psicanálise
e da Associação Brasileira de Psiquiatria. São recibos de
farmácia, comprovantes de consulta médica, cartas suas e de seus
amigos. O conjunto de informações que emerge dali lança uma
luz nova sobre o tema. Para os especialistas consultados, o que levou o inventor
à morte foi o transtorno bipolar, hoje diagnosticável e tratável
com medicamentos.
Os documentos mostram
sua longa batalha para manter-se lúcido. Uma luta que acabou perdendo.
Entre 1910 e 1932, Santos Dumont in-ternou-se em clínicas de repouso européias,
procurou os principais psiquiatras do Brasil, tomou calmantes, apelou para mas-sagens
terapêuticas e até banhos medicinais. "Ele tinha uma personalidade
dupla. Alternava momentos de depressão com outros de euforia, o que caracteriza
o transtorno bipolar", diz o psiquiatra José Candido Bastos, membro
da Federação Brasileira de Psicanálise. Seu quadro depressivo
foi repetidamente descrito nas biografias. Mas não os momentos de mania.
Os documentos, que estão no acervo da Aeronáutica, ajudam a montar
o quebra-cabeça. "Podemos excluir doenças neurológicas
como a esclerose múltipla. O diagnóstico atual seria transtorno
bipolar do humor", concorda o psiquiatra Miguel Chalub, da Associação
Brasileira de Psiquiatria.
Recibo
do psiquiatra Juliano Moreira, então um dos mais respeitados: luta incansável
pela cura
Os especialistas ouvidos
basearam sua avaliação em três pontos: a documentação
médica disponível, as cartas e o histórico de comportamento
de Santos Dumont. Em 1910, depois de um acidente aéreo, ele abandonou a
aviação por conselho médico. Tinha apenas 37 anos. Passou
a sofrer crises de depressão esporádicas até 1925, quando
se internou na clínica de repouso Valmont, na Suíça. Dois
anos depois, ainda na clínica, já tinha um aspecto envelhecido.
Não queria ir embora, contrariando os conselhos dos médicos. Mas
tinha picos de euforia. Em um desses momentos, tentou voar pela janela com um
rústico par de asas amarrado às costas. Foi impedido pela enfermeira.
Não foi a única vez em que a mania foi canalizada para invenções
pouco funcionais. Em 1928, Santos Dumont criou o Conversor Marciano, uma espécie
de hélice que, colocada nas costas de esquiadores, deveria ajudá-los
a subir montanhas com menor esforço.
Naquele ano, outra tragédia o abalaria. Um grupo de amigos decidiu saudá-lo
com um sobrevôo do navio que o trazia da Europa. O avião caiu e todos
morreram. A partir daí, as crises se agravaram. Sua correspondência
mostra uma depressão profunda. Em 1931, escreveu: "É a primeira
carta que escrevo depois de ficar dois meses de cama. Talvez amanhã vista
roupa e botinas". Nos recibos de farmácia datados daquele ano, há
medicamentos à base de brometo, então um calmante universalmente
prescrito. Ele tentou se matar três vezes. A primeira foi na Clínica
de Saúde Préville, na França, onde ficou internado. A segunda,
a bordo de um navio. Na ocasião, redigiu o bilhete: "Hoje de manhã
eu quis me suicidar e foi Jorge que me salvou. Se numa próxima vez isso
acontecer, a culpa é toda minha". Dias depois, quando o navio atracou,
seu quadro emocional já era o oposto. Os jornalistas foram encontrá-lo
falante, andando de um lado para o outro e exibindo sua nova invenção,
um estranho aparelho voador individual.
Santos
Dumont foi um inventor prodigioso e viveu momentos de glória depois de
voar pela primeira vez, em 1906, em Paris, com um "mais pesado do que o ar",
justamente quando a cidade ainda vivia os ares triunfalistas da plenitude do engenho
humano por ter sediado a Feira Mundial na virada do século. A personalidade
excêntrica do aristocrata brasileiro era vista como um produto da sua genialidade.
Poucos associaram sua emoção pendular a uma doença. Mesmo
se houvesse a chance de um diagnóstico correto, seriam quase nulas as alternativas
de cura. O inventor se agarrou a todas, mas sua fortuna não impediu o avanço
do quadro. No Brasil, ele se consultou com Juliano Moreira, um dos maiores nomes
da psiquiatria nacional. Também procurou o psiquiatra Henrique Roxo, muito
requisitado por suas receitas à base de plantas medicinais. Nada funcionou.
"Ele buscou tratamento em diversas ocasiões, o que não é
comum em pessoas depressivas, que tendem a justificar os sintomas como produto
de causas externas", diz um dos seus principais biógrafos, Henrique
Lins de Barros.
A vida de Santos Dumont
foi sempre marcada por eventos traumáticos. A mãe, Francisca, matou-se
em 1902, quando ele estava no auge da carreira. Nos anos 20, enquanto sua fama
de pioneiro continuava intacta, suas habilidades como construtor de aviões
mais modernos se esboroaram rapidamente. Os aviões fabricados em série
para uso comercial e militar se pareciam muito pouco com o 14 Bis e com
outros objetos voadores projetados por Santos Dumont.
Ele continuou tentando se superar. Em vão. A doença, somada a essas
frustrações, se mostraria fatal. A tese simplista do suicídio
provocado pela angústia de ver os aviões usados na guerra ajudou
a reforçar o mito do herói. Mas prejudicou a pesquisa sobre a verdadeira
história do grande brasileiro.