Ameaçados de
perder as pistas de esqui devido
ao aquecimento global, os Alpes agora oferecem
resorts e muitas piscinas
Duda Teixeira
Fotos divulgação
Parque aquático
do Aqua Dome, na Áustria (à esquerda),
e o spa Tschuggen Bergoase (à direita),
na Suíça: arquitetura extravagante e programas
alternativos para atrair turistas em qualquer estação
O
aquecimento global é uma dor de cabeça para
o futuro do turismo nos Alpes. Nos últimos trinta anos,
a temperatura da região aumentou três vezes mais
do que a média do planeta. Hoje, 609 das 666 pistas
médias e grandes dos Alpes atingem um nível
adequado de neve para permitir a prática do esqui e
do snowboard por pelo menos 100 dias do ano. Em 2025, serão
500 e em 2050 apenas 400, de acordo com a Organização
para Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE). A previsão está longe de ser uma sentença
fatal para o mais charmoso entre os destinos turísticos
de inverno, que atrai 80 milhões de visitantes todo
ano. Para se prepararem para um futuro com menos neve e sem
esqui, grandes cadeias de hotéis estão em busca
de novos atrativos para a região: edifícios
com arquitetura extravagante, spas colossais, salas de convenções
e parques aquáticos. Nos últimos dois anos,
uma dúzia de resorts de alto padrão foi inaugurada
na Alemanha, na Suíça e na Áustria seguindo
essa receita. Eles podem ser desfrutados tanto no inverno
quanto no verão.
O Aqua Dome, na
Áustria, dispõe de um parque aquático
digno de hotéis tropicais. Três piscinas no formato
de tigelas gigantes permitem uma vista privilegiada para as
montanhas. Duas delas são equipadas com jatos de massagem,
enquanto uma terceira tem música subaquática
e água salgada, para dar uma "sensação
de leveza", segundo a administração do
resort. O frio a 3.250 metros de altitude é amenizado
com água a 40 graus, retirada de uma fonte termal.
Nos folhetos do hotel, quase não há menção
aos esportes de neve, embora o complexo esteja em um vale
com 150 quilômetros de pistas de esqui. A propaganda
afirma que as crianças podem se divertir com jogos
eletrônicos e um paredão de escaladas. Adultos
escolhem entre aulas de tai chi chuan, ioga e jazz. Um spa
oferece banhos relaxantes, terapia com pedras quentes e massagens.
A arquitetura dos
novos resorts alpinos oscila entre o extravagante e o elegante.
No Aqua Dome, uma estrutura semelhante a um cone de sorvete
envidraçado dá acesso às três piscinas-tigela.
Em geral, o traço é assinado por arquitetos
e designers requisitados. Inaugurado há um ano, o Tschuggen
Bergoase, na Suíça, foi criado pelo arquiteto
suíço Mario Botta, que cuidou da restauração
do Teatro alla Scala de Milão. O edifício feito
para abrigar um spa é um anexo do Tschuggen Grand Hotel.
Para levar luz natural aos quatro andares do spa, foram construídas
no telhado nove estruturas de vidro parecidas com gomos de
laranja, as chamadas "árvores luminosas".
Em seu interior, piscinas, sauna e sala de meditação.
Botta também criou uma caverna em que o visitante,
após passar por uma cortina de água, pode experimentar
diversas sensações térmicas, como uma
chuva de verão, uma tempestade de inverno ou neblina.
Nada de neve. No próximo ano, o hotel ficará
aberto mais tempo, por dez meses. "Queremos atrair mais
turistas fora da temporada de inverno", disse a VEJA
a diretora de relações públicas do hotel,
a alemã Ina Bauspiess, que conta com passeios de bicicleta
e escaladas para chamar a atenção dos visitantes.
"Daqui para a frente, vamos promover o verão e
o outono intensamente."
O efeito do aquecimento
global nas estações de esqui é principalmente
a redução da temporada com neve suficiente para
a prática dos esportes de inverno. Nas pistas situadas
em baixas altitudes, o risco de uma temporada inteira sem
nenhuma neve já existe. A maior parte dos novos projetos,
no entanto, está em altitudes mais elevadas, justamente
para poder vender uma gama mais variada de atrações:
esqui na temporada com neve e outras diversões nos
períodos mais quentes. Na Suíça, está
sendo construída uma torre com trinta andares no topo
da montanha Matterhorn, a mais alta, que pode ser alcançada
por teleférico. O edifício, em forma de pirâmide,
terá restaurantes, salas de conferência, piscinas
e um restaurante panorâmico. A altitude, 4.000 metros
acima do nível do mar, obrigará o complexo a
ter salas de descompressão. Lá, pelo menos,
a previsão é de temporadas com neve por mais
tempo. A diversão está garantida, ainda que
com modificações.