Depois de cinco anos
de governo, Lula vai dar
início a seu primeiro grande projeto de energia
Julia Duailibi
Oscar Cabral
Modelo que simula o funcionamento
de hidrelétrica do Madeira
O governo Lula termina
o ano de 2007 com um marco no setor energético. Foi
dada a largada para a construção do Complexo
Hidrelétrico do Rio Madeira, em Rondônia. Trata-se
de um conjunto de duas usinas que vão despejar mais
de 6 000 megawatts no sistema elétrico
brasileiro. Isso representa cerca de 6% de toda a capacidade
instalada no país. É energia suficiente para
atender 25 milhões de pessoas, mais que a região
metropolitana de São Paulo. A notícia merece
aplausos. É o primeiro grande projeto nessa área
desde que Lula assumiu o governo, em 2003. Fazia seis anos
que o Complexo do Madeira patinava na burocracia estatal e
no cipoal de órgãos ambientais. A primeira das
duas usinas a ser construídas será a de Santo
Antonio, orçada em cerca de 10 bilhões de reais.
Sua concessão foi a leilão no dia 10 de dezembro
e, quando pronta, agregará 3.150
megawatts à matriz energética brasileira. Se
tudo correr bem, as primeiras turbinas entrarão em
atividade em 2012. Em 2016, a usina alcançará
sua capacidade plena, com 44 turbinas em operação.
O consórcio vencedor, formado por Furnas e pela construtora
Odebrecht, fez uma proposta agressiva. Dispôs-se a vender
no mercado uma energia 35% mais barata que a tarifa máxima
estipulada pelo governo. Isso foi possível porque toda
a energia produzida antes de dezembro de 2012 poderá
ser vendida à indústria, no mercado livre, onde
os preços são bem mais altos do que aqueles
oferecidos no leilão.
A
segunda usina a ser licitada, a de Jirau, também no
Complexo do Rio Madeira, adicionará outros 3
300 megawatts à matriz energética. O
leilão está marcado para o começo de
2008. Santo Antonio e Jirau são duas das obras estrategicamente
mais importantes do Programa de Aceleração do
Crescimento (PAC), com o qual o governo espera colocar de
pé a combalida infra-estrutura do país. Visam
a reduzir o risco de racionamento que ronda o sistema elétrico
desde o apagão de 2001. A situação é
dramática. Só não houve um novo colapso
até agora porque as chuvas ajudaram a encher os reservatórios,
e o crescimento da economia vinha em ritmo de banho-maria.
O país precisa urgentemente de fontes novas de energia
porque o consumo per capita, que aumentou 1% ao ano entre
2000 e 2005, vai crescer a taxas três vezes mais altas
entre 2005 e 2010. A região amazônica, onde fica
o Complexo do Madeira, é a mais promissora fronteira
energética do país, pouco aproveitada por causa
de sua distância em relação aos grandes
centros consumidores. Alguns estudos indicam que a exploração
na região pode chegar a 43 000
megawatts nos próximos dez anos. Isso equivale a mais
de três usinas de Itaipu. Também na região,
o governo pretende levar a leilão a construção
da usina de Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará, entre
2009 e 2010. As três usinas juntas vão adicionar
17 450 megawatts ao potencial de produção
de energia um pouco menos que a capacidade instalada
do estado de São Paulo.
Será um
enorme avanço, mas talvez venha tarde demais. Estimativas
mostram que, se o país crescer a 5%, serão necessários
3.500 megawatts por ano, já em
2008, para que não haja falta de energia. O problema
é que Santo Antonio, a primeira das duas usinas do
Madeira, só começará a gerar energia
em 2012, inicialmente com apenas 450 megawatts. O sucesso
do leilão, no entanto, deixou claro o tamanho do apetite
dos investidores privados pelo setor de infra-estrutura. E
mostrou como o governo ganha, sempre que concede estímulos
corretos. Outros leilões de concessão ao longo
deste ano também tiveram êxito. Em outubro, o
governo abriu a disputa para a administração
privada de 2 600 quilômetros de
rodovias federais. Devido à concorrência, o valor
dos pedágios ficou até 65% mais baixo do que
o previsto. Na semana passada, foi a vez do leilão
de faixas de freqüências de 3G (que permitirão
conexão dos celulares com a internet com velocidade
de banda larga): o governo esperava angariar 2 bilhões
de reais; embolsará mais de 5 bilhões de reais.