Bandidos roubam do museu telas
de Picasso e Portinari estimadas em 110 milhões de reais
Marcelo
Marthe
Retrato
de Suzanne Bloch (à esq.) e O Lavrador de Café: a falta
de segurança ajudou os bandidos
Na
quinta-feira passada, o Museu de Arte de São Paulo, o Masp, foi palco de
um crime. Em três minutos, entre 5h09 e 5h12 da madrugada, um grupo de ao
menos três bandidos invadiu o museu e furtou duas telas de destaque de seu
acervo: o Retrato de Suzanne Bloch, do espanhol Pablo Picasso, e O Lavrador
de Café, do brasileiro Candido Portinari. Chama atenção
a facilidade com que as obras foram surrupiadas. Os bandidos passaram pelas divisórias
de vidro em torno da escadaria de concreto do museu em pleno vão
livre do Masp, localizado no coração da Avenida Paulista. Com o
auxílio de um macaco hidráulico, abriram a porta de metal que dá
acesso ao interior. Subiram a escada para o 2º andar e, com um pé-de-cabra,
arrombaram a porta de vidro da sala principal de exposição. A tela
de Picasso, de pequenas dimensões, foi retirada de um ponto central da
galeria. A de Portinari estava exposta em frente ao elevador. Até onde
se sabia na quinta-feira passada, nenhum dos quatro vigias presentes viu ou ouviu
coisa alguma. Durante a ação dos ladrões, eles faziam a troca
de turno. "Não descartamos que gente de dentro do Masp esteja envolvida",
diz o delegado Marcos Gomes de Moura, responsável pelo caso.
Pintado em 1904 e pertencente à chamada fase azul, uma das mais valorizadas
de Picasso, o Retrato de Suzanne Bloch é avaliado em 100 milhões
de reais, segundo o marchand Jones Bergamin. A tela de Portinari, emblemática
de seu interesse por tipos brasileiros, é estimada em mais de 10 milhões
de reais. Esses valores fariam do roubo ao Masp o maior do gênero já
ocorrido no Brasil. No ano passado, bandidos levaram do Museu da Chácara
do Céu, no Rio de Janeiro, quatro quadros de Matisse, Monet, Picasso e
Salvador Dalí um conjunto estimado em 49 milhões de reais.
Mais recentemente, ladrões furtaram 900 peças do Museu do Ipiranga,
em São Paulo. O roubo de obras de arte é hoje a terceira maior atividade
criminosa do mundo, atrás apenas do tráfico de drogas e do contrabando
de armas.
Os crimes
recentes mostram que o Brasil se tornou um paraíso para esses bandidos.
O desleixo com que acervos preciosos são tratados é um convite à
gatunagem. O Masp vive há tempos uma situação lastimável.
Em 2006, passou pelo vexame de um corte de luz por falta de pagamento. O museu
não dispõe de sistema de alarme nem de sensores que disparam quando
alguém se aproxima das obras como ocorre no Louvre, por exemplo.
Além dos depoimentos dos vigias, a principal peça da investigação
são as gravações do circuito interno do museu. Só
que as câmeras não mostram muita coisa. Sem infra-vermelho, captam
apenas vultos no escuro.