Na manhã do sábado 15, o lutador de jiu-jítsu
e vale-tudo Ryan Gracie, de 33 anos, foi encontrado morto
na cela de uma delegacia de São Paulo. Os laudos preliminares
do Instituto Médico-Legal (IML) indicam que Ryan foi
vítima de um quadro de hipoxia. Nessa situação,
o nível de oxigenação do sangue cai drasticamente,
os brônquios se contraem e o cérebro passa a
receber menos oxigênio do que o necessário para
funcionar adequadamente. Essa cascata de eventos pode resultar
numa parada cardiorrespiratória. Ryan havia sido preso
na tarde anterior pelo roubo de um carro e pela tentativa
de roubo de uma motocicleta. Sob efeito de cocaína,
maconha e tranqüilizante, ao ser detido, ele estava muito
agitado, com delírios persecutórios. Para prestar-lhe
atendimento médico, a família chamou o psiquiatra
Sabino Ferreira de Farias Neto, dono de uma clínica
para dependentes químicos, a Maxwell, no interior paulista.
Por volta das 2 horas da madrugada, o doutor Sabino começou
a administrar a Ryan um coquetel composto de dois antipsicóticos,
um tranqüilizante, um anticonvulsivante e um antialérgico.
Três horas depois, como a pressão do lutador
continuava alta (17 por 10), o médico voltou à
carga: deu-lhe mais um comprimido de tranqüilizante e
outro de um anti-hipertensivo. "Meu objetivo não
era fazê-lo dormir. Eu queria apenas acalmá-lo",
diz o psiquiatra. Às 8 horas, Ryan estava morto.
Só com o
exame necroscópico do IML será possível
dizer o que levou o lutador à parada cardiorrespiratória.
Há duas hipóteses para a morte de Ryan. A primeira
é que ele tenha sofrido as conseqüências
tardias da intoxicação pelo abuso de drogas,
principalmente a cocaína .
substância que Ryan cheirou e injetou nas veias antes
de ser preso. Mas isso é raro acontecer. A segunda
possibilidade é que o lutador tenha sucumbido ao coquetel
do doutor Sabino. Cinco psiquiatras, um cardiologista e uma
farmacêutica especialista em interações
medicamentosas ouvidos por VEJA são unânimes
em afirmar que a combinação de remédios
prescrita a Ryan é bastante perigosa. Todos
os medicamentos, direta ou indiretamente, inibem o funcionamento
do sistema nervoso central. Administrados conjuntamente, potencializam
um a ação do outro. Além disso, o efeito
depressor no sistema nervoso central desses remédios
é reforçado pela presença de cocaína
e maconha no organismo do paciente (veja
o quadro). Tais medicamentos até podem ser
usados isoladamente, ou em duplas, para o controle de surtos
decorrentes do consumo de drogas, como era o caso de Ryan.
O que chama atenção na conduta de Sabino, no
entanto, é a associação de todos os medicamentos
num coquetel.
Leandro Moraes/Folha Imagem
O doutor Sabino: "A senhora
aceitaria um Dienpax?"
Outro dado intrigante é que Ryan deveria ter sido transferido
para um hospital. Chamado pela mulher do lutador, Andrea Correa,
o doutor Sabino apenas mencionou essa necessidade. Ele, contudo,
não tomou nenhuma atitude nesse sentido. "Remédios
como os que foram dados ao lutador só poderiam ter
sido ministrados num ambiente hospitalar, com o paciente sob
vigilância constante", diz o psiquiatra José
Alberto Del Porto. O doutor Sabino diz que devolverá
à família Gracie os 5 000 reais cobrados por
ele para atender o lutador.
Ryan e o doutor
Sabino se conheceram há cerca de um ano. A família
do lutador procurou o médico na tentativa de convencer
Ryan a se internar. Isso porque o seu consumo de drogas estava
cada vez mais pesado e ele começara a ter delírios
e alucinações. Mas Ryan recusou o tratamento.
O psiquiatra só voltaria a encontrá-lo na delegacia.
Neto de Carlos Gracie, um dos patriarcas do clã de
lutadores de jiu-jítsu e vale-tudo, Ryan era conhecido
como o "Demônio Gracie", não só
por suas habilidades dentro dos ringues como também
por sua facilidade de se envolver em brigas de rua. Aos 26
anos, Ryan foi acusado de esfaquear um rapaz durante uma discussão
numa boate carioca. Só em São Paulo ele respondeu
a oito processos criminais, a maioria por lesão corporal.
O doutor Sabino
estava visivelmente transtornado quando recebeu a reportagem
de VEJA. Para provar que os remédios prescritos não
poderiam ter matado Ryan, ofereceu um deles, um tranqüilizante,
à jornalista Adriana Dias Lopes: "A senhora aceitaria
um Dienpax para ver o grande efeito que ele faz?"
Diante da recusa, deu um comprimido à sua secretária
particular, Adiene Mello. Ela o ingeriu. Um detalhe: durante
a entrevista, o relógio de pulso do doutor Sabino estava
sete horas atrasado e ele não se havia dado conta disso.