Há pouco mais de um ano,
um grupo de petistas se envolveu numa trama para montar um
falso dossiê com acusações contra o então
candidato ao governo de São Paulo José Serra.
A turma arrecadou quase 2 milhões de reais de origem
até hoje ignorada e usou o dinheiro para comprar um
conjunto de documentos fajutos de um conhecido estelionatário.
A operação foi comandada pelos mais íntimos
colaboradores do coordenador do comitê de reeleição
do presidente Lula, o deputado Ricardo Berzoini. Na semana
passada, Berzoini foi reeleito presidente do PT. Vai comandar
o partido até o fim de 2009 e pilotar a máquina
que cuidará da sucessão do presidente Lula.
Uma máquina que nos últimos anos mostrou imensa
destreza em associar política, corrupção
e táticas de evasão. Candidato de Lula, Berzoini
representa a continuidade no poder do ex-ministro José
Dirceu que comanda o partido há duas décadas
e é o grande timoneiro dos mensaleiros, a organização
criminosa que saqueava os cofres públicos para sustentar
financeiramente aliados e subornar deputados de outros partidos.
É esse perfil que despreza a ética em nome do
apreço pelo poder que vai comandar as ações
do principal partido político do país.
"Temos
de ter um retrovisor para olhar bem o passado, mas também olhar para a
frente, senão desgovernamos o carro", disse o deputado Ricardo Berzoini,
logo depois de confirmada a reeleição. A atual direção
do PT, coman-dada por ele, não puniu nenhum dos cinco militantes flagrados
produzindo o falso dossiê contra adversários. Não puniu nenhum
dos quatro deputados mensaleiros, apesar de todos eles estarem respondendo a processo
na Justiça. Entende-se das palavras do líder petista que a existência
dos aloprados como ficaram conhecidos os responsáveis pelo dossiê,
inclusive o próprio Berzoini e dos mensaleiros é coisa que
pertence ao passado. Melhor, portanto, seria esquecê-los e deixar o "carro"
seguir seu caminho. Na semana passada, a pedido do ministro Joaquim Barbosa, do
Supremo Tribunal Federal, começaram a depor os principais envolvidos no
escândalo do mensalão. Na condição de réus e
acusados de um variado cardápio de crimes, como peculato, corrupção
ativa e passiva, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, foram
ouvidos os deputados José Genoíno, João Paulo Cunha e Paulo
Rocha ilustres passageiros do bonde da corrupção petista.
Todos negam envolvimento no caso e culpam Delúbio Soares, ex-tesoureiro
do PT, escalado para o papel de bode expiatório recebendo a certeza da
impunidade em troca do silêncio sobre as atividades dos comparsas.
Sergio
Dutti/AE, Pablo Valadares/AE e Andre Dusek/AE
Os
mensaleiros: os deputados Paulo Rocha, João Paulo Cunha e José Genoíno
são réus em processo que apura crimes de peculato, corrupção
ativa e passiva, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Eles
se dizem inocentes e põem a culpa no tesoureiro
O
retrovisor mostra que os deputados participaram do esquema clandestino, mas, ao
que parece, olhar para trás, como ressaltou Berzoini, realmente não
agrada aos petistas. Beneficiário de 920 000 reais do esquema de arrecadação
e distribuição clandestina de dinheiro, o deputado Paulo Rocha achou
estranho ser tratado como réu. "Sou deputado e não gosto de
ser chamado de réu", disse ele, dedo em riste, ao ser indagado pelo
procurador sobre as relações do partido com o empresário
que repassou o dinheiro ao PT. A juíza Maria de Fátima de Paula
Costa interveio: "O senhor não está na Câmara dos Deputados.
Aqui o senhor é réu". E completou: "O senhor chegou aqui
com uma carinha de coitadinho, de humildezinho que veio do Pará ou não
sei lá de onde. Mas aqui o senhor não manda. Fique quieto e responda
às perguntas". Paulo Rocha disse que desconhecia a origem do dinheiro.
Depois do depoimento, Rocha foi com amigos a um bar de Brasília. Bem mais
relaxado, o grupo pediu ao garçom uma garrafa de "Joaquim Barbosa".
"Um black", explicou um dos assessores do deputado, esclarecendo que,
na verdade, falava da marca de um uísque. Era uma humildezinha piada racista
feita pela turma de coitadinhos do réu. O ministro Barbosa, o responsável
pelo processo dos mensaleiros, é o primeiro ministro negro da história
do STF e também um dos intelectualmente mais preparados que já vestiram
aquela toga.
Olhando para a frente,
como deseja o presidente petista reeleito, a principal preocupação
do partido de Berzoini e companhia é encontrar um candidato capaz de disputar
a sucessão de Lula com chance de vitória. Nos últimos tempos,
os principais nomes do PT caíram em desgraça. O mensalão
inviabilizou as pretensões do ex-ministro José Dirceu. A quebra
ilegal do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa fulminou o ex-ministro
Antonio Palocci. A ministra do Turismo, Marta Suplicy, caiu em desgraça
ao aconselhar os brasileiros a "relaxar e gozar" nas longas filas dos
aeroportos durante o caos aéreo. Outra dificuldade do partido é
que Lula tem se mostrado muito maior que o PT. Em todas as eleições
que disputou, o presidente sempre teve mais votos que todos os seus correligionários
somados. Com Lula fora da disputa, o PT acabou se tornando refém de sua
própria história. "O PT é um partido de um líder
só. Foi fundado pelo Lula, presidido pelo Lula e liderado pelo Lula. A
força dele nunca permitiu o surgimento de outra liderança nacional",
diz o cientista político Octaciano Nogueira, da Universidade de Brasília
(UnB). É exatamente a incerteza sobre a capacidade partidária de
fazer o sucessor de Lula que tem levado dirigentes petistas a alimentar a delirante
idéia de um terceiro mandato. O PT, sob o comando de Berzoini, pode até
ter um retrovisor, mas as imagens que aparecem nele são desanimadoras e
melancólicas.