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Auto-retrato
Joe Navarro
Como
agente do FBI, o americano Joe Navarro, 58 anos,
teve papel fundamental na consolidação dos estudos
sobre
a mentira. Nos últimos trinta anos, ele rastreou mais
de 100
sinais típicos de um mentiroso, uma base de dados usada
em dezenas de países. Atualmente, Navarro é
um dos responsáveis pela formação de
novos quadros no FBI.
Ele deu a seguinte entrevista ao repórter Marcos Todeschini.
Seth Wenig/AP
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O senhor consegue flagrar qualquer pessoa na mentira? Infelizmente,
não. Depois de trinta anos dedicado à tarefa
de rastrear mentirosos, sou forçado a reconhecer um
fato frustrante: 10% deles são capazes de enganar um
agente experiente e passam incólumes pelos melhores
detectores de mentira. Essas pessoas se distinguem das demais
pela rara habilidade em camuflar os sinais típicos
da mentira. Eles são mais de uma centena, devidamente
catalogados por meio de estudos científicos.
Quais são
os sinais físicos mais comuns num mentiroso? As estatísticas
estão no livro do FBI: quase todo mentiroso treme,
sua, engole em seco, leva as mãos ao pescoço,
tem os batimentos cardíacos acelerados e as pupilas
dilatadas. São, basicamente, manifestações
físicas de medo. Um mentiroso sempre sabe que está
em situação de perigo. A construção
da mentira é, afinal, um processo extremamente racional,
engendrado na região da mente ligada à razão
e não às emoções. A reação
das pessoas à própria mentira, por sua vez,
chama atenção justamente pelo contrário:
ela é instintiva.
Como algumas pessoas
conseguem controlar reações dessa natureza?
Não existe um talento especial para a dissimulação,
mas, sim, um aprimoramento da habilidade de mentir por meio
da repetição. Em suma: quem mente mais mente
melhor. Fiz um estudo sobre diferentes profissionais e concluí
que os advogados e os políticos são, de longe,
os cam-peões no disfarce da mentira. Eles certamente
praticaram muito para ter chegado lá.
E o senhor, é
tão habilidoso quando mente? Em geral, sim. Como agente
do FBI, aprender a mentir é pré-requisito básico
para enfrentar situações das mais diversas,
como uma troca de identidade ou a simulação
de reações diante de um investigado. Quando
a mentira é arriscada demais, no entanto, às
vezes minha atitude é igual à de alguém
que jamais ouviu falar de toda essa teoria.
O senhor mapeou
as principais motivações para a mentira? Sim,
e elas não são exatamente um reflexo das sociedades
modernas. Os registros históricos sobre as comunidades
mais primitivas reforçam a idéia de que a espécie
humana sempre mentiu por duas razões. Primeiro, por
uma questão de boa convivência social. Seria
intolerável viver num lugar onde as pessoas só
falassem a verdade, sem nenhum tipo de filtro. A segunda grande
motivação para a mentira diz respeito a um lado
menos nobre da espécie. Esse é um recurso tradicionalmente
usado para as pessoas tirarem vantagem umas das outras.
Há um tipo
de sociedade em que a mentira é mais rara do que em
outras? Não. Sempre me perguntam por que as pessoas
costumam mentir menos em cidades menores, longe das selvas
metropolitanas. Esse é um fenômeno mensurado
por meio de pesquisas. Só há uma explicação
possível para ele e não tem relação
nenhuma com a visão idílica segundo a qual essas
pessoas são mais honestas. Elas mentem menos apenas
porque, em cidades menores, têm mais medo de ser desmascaradas.
O que o senhor descobriu
depois de pesquisar a mentira em quarenta países? Os
povos mais habilidosos na mentira são os daqueles países
onde as pessoas são incentivadas a esconder os sentimentos
desde cedo. Naturalmente, elas têm mais facilidade em
dissimular sem emitir os sinais típicos da mentira.
Os brasileiros mentem
bem? As pessoas no Brasil abusam de gestos e expressões
faciais para expressar seus sentimentos e mentem muito
mal.
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