"Os índios
caetés, que devoraram o bispo Sardinha em 1556, são
os antepassados culturais dos seis policiais que mataram o
garoto de 15 anos depois de torturá-lo com choques
elétricos"
A primeira morte
de Carlos Rodrigues Junior, adolescente de 15 anos, aconteceu
na madrugada de sábado 15, em Bauru, no interior de
São Paulo. Seis policiais entraram na casa do garoto,
em plena madrugada, foram até seu quarto e lá
ficaram por uma hora e onze minutos. O rapaz foi torturado
com choques elétricos, enquanto sua mãe e sua
irmã ficavam na sala, impedidas de entrar no quarto,
escutando seus gritos e gemidos. Carlos era suspeito de roubar
uma moto. Não tinha ficha policial. O laudo do Instituto
Médico-Legal encontrou em seu corpo trinta marcas de
choques elétricos, duas no coração, além
de escoriações no rosto e no tórax. Na
viatura dos policiais, havia um fio elétrico.
A segunda morte
de Carlos deu-se nos dias subseqüentes. A notícia
saiu aqui e ali, mas tratada quase com a leveza da rotina.
O presidente Lula estava ocupado demais para tratar de um
assunto que não lhe rende votos e, afinal de contas,
ocorreu no estado de seu amigo imaginário, o governador
José Serra. O próprio governador disse que o
caso mostrava uma "brutalidade inaceitável",
e mais não fez nem disse. Enviar condolências
à família? Não se teve notícia
disso. Participar do enterro, ir ao velório? Também
não se soube disso. Mostrar de algum modo, com a presença
física, que o inadmissível aconteceu? Nem pensar.
Serra preferiu seguir um modelito mais ou menos parecido com
o implantado pela governadora Ana Júlia Carepa, do
Pará, quando da descoberta da menina enjaulada com
um bando de marmanjos. Só não culpou o passado
e os antecessores porque não dá.
Os índios
caetés, que devoraram o bispo Sardinha em 1556, são
os antepassados culturais dos seis policiais. Pois hoje, na
terra dos ex-selvagens e na entrada do terceiro milênio,
o recado é o seguinte: o brasileiro Jean Charles de
Menezes, assassinado com oito tiros pela polícia inglesa
ao ser confundido com um terrorista, é um absurdo.
Não pode. Mas os ingleses precisam entender que nós
mesmos podemos fazer esse trabalho com os nossos. A prisão
de Abu Ghraib, cadeia que se tornou símbolo das atrocidades
de Saddam Hussein, que também virou símbolo
da tortura e da humilhação infligidas pelos
soldados americanos aos presos iraquianos, é um escândalo.
Mas, no Brasil, nós mesmos nos encarregamos de fazer
isso com os próprios brasileiros.
No velório
de Carlos Rodrigues Junior, sua mãe, Elenice Rodrigues,
percebeu que o filho estava com os dedos quebrados. O advogado
de um dos policiais também compareceu ao velório,
só que acompanhado do cidadão que teve sua moto
roubada. O motivo da visita era reconhecer o assaltante. O
ladrão, disse a vítima, era mesmo o garoto Carlos
Rodrigues. Pronto. Como era aparentemente culpado, eis o que
basta para que muitos entendam que a tortura, afinal de contas,
foi merecida. É exatamente assim que se constrói
a barbárie.
À família
de Carlos Rodrigues Junior, ainda que isso não sirva
nem como consolo tardio, vai aqui, neste texto, pelo menos
a lembrança de uma injustiça impressa no papel.
Um papel que, se quisermos, podemos usar para forrar a gaiola
do passarinho, enrolar o peixe de amanhã ou simplesmente
rasgar.