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Thomas Mann, com a filha Erika, a esposa, Katia, e o filho Klaus: parentes viram personagens nas mãos dos escritores da família |
É possível que
uma boa novela das 8 use os mesmos ingredientes de uma
péssima novela das 8. Depende, obviamente, da densidade
psicológica da trama, que na televisão não costuma
ultrapassar alguns milímetros. A alta densidade
psicológica constitui o encanto maior de Na Rede
dos Magos
Uma Outra História
da Família Mann (tradução de Erlon José
Paschoal; Nova Fronteira; 512 páginas; 29 reais), amplo
estudo da socióloga e psicanalista alemã Marianne
Krüll. O livro esmiúça detalhes
picantes
em torno da vida dos escritores Thomas, Heinrich e Klaus
Mann e pode ser lido como um fascinante romance sobre uma
família destroçada pela fama, recheado de ingredientes
de novela das 8: adultérios, disputas por ciúme e
inveja, torturas psicológicas, drogas, incestos
consumados ou não, suspeitas de homicídio, suicídios
reais e homossexualidade masculina e feminina.
Mesmo que certas conclusões possam ser acusadas de beirar a bisbilhotice, trata-se de uma obra ao mesmo tempo saborosa, séria e bem construída, que tomou nove anos de pesquisa. Usando documentação farta e muitas vezes inédita (a autora teve acesso a arquivos até então inacessíveis e a cartas recém-descobertas em antiquários), Marianne Krüll se vale de romances, diários, anotações, bilhetes e entrevistas para nos dar um panorama assustador, que começou, na verdade, em Parati, onde nasceu e morou até os 7 anos de idade a pequena "Dodô", apelido de Julia da Silva Bruhns Mann, futura mãe de cinco filhos, dentre os quais Heinrich e Thomas Mann, considerados dois dos maiores escritores do século XX. Levada pelo pai, um alemão, para a cidade de Lübeck, Julia, de temperamento fogoso e inquieto, integrou-se com dificuldade à vida na Alemanha e nunca mais voltou ao Brasil. Segundo Marianne Krüll, a irremediável desadaptação psicológica de Julia, a partir do seu exílio do "paraíso" brasileiro, pode estar na origem de todos os desajustes familiares dos Mann. É o caso da filha Carla (irmã mais nova de Thomas), que realizou o desejo frustrado da mãe de ser atriz, inclusive com uma vida sensual e quase desregrada, mas acabou cometendo suicídio, aos 28 anos de idade. Seu neto, o também escritor Klaus Mann, filho de Thomas, homossexual assumido, igualmente se mataria, aos 43 anos.
Parentes
pilhados
A análise de cartas e diários de
Klaus em que há referência ao desejo de morrer é
arrepiante, considerando-se que ele os utilizou na
composição dos seus personagens desesperados. Essa
inspiração na história pessoal ou familiar é outra
das características assustadoras dos escritores Mann,
que não tiveram nenhum pudor em pilhar a vida de
parentes para construir suas obras. O resultado é uma
fascinante combinação entre a vida e a literatura,
atividade que deu aos Mann fama, dinheiro e poder. Os
Buddenbrooks, o mais famoso romance de Thomas Mann,
tem tal semelhança com a decadência de sua própria
família que alguns modelos reais se transformaram em
personagens
como sua tia Elizabeth,
inspiradora da irmã problemática do romance, Toni.
Heinrich não duvidou em tomar o suicídio de sua irmã
Carla (por quem era apaixonado) como tema para uma peça,
encenada menos de um ano após o trágico evento e
recebida com constrangimento pelo público de Munique,
que conhecia a história real. Em seu romance Mephisto
(transformado em filme por István Szabó, nos anos 80),
Klaus Mann usou deslavadamente o ator Gustaf Gründgens,
seu cunhado (e possível amante), como modelo para o
personagem principal, a tal ponto que os descendentes de
Gründgens conseguiram que o romance ficasse por longo
tempo proibido na Alemanha.
Num autêntico duelo de vaidades, os escritores Mann não só disputavam entre si os personagens da família como usavam uns aos outros em sua ficção, revelando mais do que a realidade permitiria. Foi assim entre o pai Thomas e o filho Klaus: este está presente como personagem problemático de várias obras do pai, por sua vez personificado e ironizado em várias obras do filho. Julia está presente na obra de todos eles, nem sempre como personagem edificante. Heinrich chegou a usar trechos inteiros da autobiografia da mãe. Em Doutor Fausto, de Thomas Mann, ela é apresentada como uma viúva que disputa os namorados das duas filhas. Mas Julia deixou sua marca sobretudo nessa oscilação entre a racionalidade do norte e a sensualidade do sul, tão característica da obra dos filhos.
Thomas Mann nunca conheceu suas perturbadoras origens no sul moreno, o Brasil de sua mãe. Em seu último romance, que ficou inacabado, o personagem acaba chegando apenas a Portugal. Curiosamente, a vida invadiu de novo a ficção: recentemente, Frido Mann (o neto predileto de Thomas) veio ao Brasil para fundar um centro de intercâmbio cultural na antiga casa de Parati onde Júlia viveu. Ao mesmo tempo, e sem ter conhecimento da decisão de Frido, o neto mais jovem de Heinrich, Ludvik Mann (de origem checa), comprou uma ilha na foz do Amazonas, onde está instalando uma comunidade e um centro de estudos tântricos, cumprindo assim a visão utópica de seu avô, que num de seus romances criou uma ilha para viver o amor sem amarras.
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João Silvério Trevisan é autor do romance Ana em
Veneza,
que tem a família Mann como personagem
Copyright © 1997, Abril
S.A. |