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| Foto: Jader Rocha |
Nesta semana levanta ferros na pequena enseada de Porto Belo, em Santa Catarina, o barco Aysso (perfeito, em tupi), sob o comando de Vilfredo Schürmann e sua família. A nova meta dos Schürmann é repetir a rota de Fernão de Magalhães e completá-la nos 500 anos da descoberta do Brasil, em 22 de abril de 2000. Dentro de um ano e meio será a vez de Amyr Klink dar início a uma volta ao mundo contornando os pólos Norte e Sul a bordo de seu novo barco, o Paratii II. Mais do que o roteiro da aventura, o que impressiona nos dois barcos é a parafernália tecnológica de última geração. De comum, mesmo, entre Magalhães e os tecnonavegadores só a coragem e o amor ao desafio dos mares.
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| Foto: Egberto Nogueira |
No barco de Klink,
os avanços tecnológicos começam pelo casco
feito de alumínio especial
e
vão até o mastro de fibra de carbono, material usado
para fabricar os foguetes da Nasa, a agência espacial
americana. O novo barco, ainda em construção, terá
portentosos 93 pés de comprimento (cerca de 28 metros).
Planejado para enfrentar as condições mais adversas,
poderá estocar alimento e fornecer água potável (por
meio de dessanilizadores) para dez tripulantes durante
até quatro anos, sem aportar uma única vez em terra
firme. Se faltar combustível, o Paratii II terá
dois geradores eólicos para produzir energia. Seu custo
de fabricação deixaria os reis de Espanha e Portugal,
principais financiadores das grandes expedições do
século XV, de cabelos arrepiados: 6 milhões de reais.
Rede de
satélites
No caso dos Schürmann, o veterano
barco que a família usou para dar a volta ao mundo
durante dez anos
numa viagem concluída em
1994
teve tudo trocado, com exceção da
estrutura, um projeto francês com casco de ferro e
comprimento de 55 pés (16,7 metros). O veleiro ganhou
uma vestimenta tecnológica que consumiu 600.000 reais,
em números redondos. Não só para navegar com mais
precisão e segurança, como para transformar a viagem
numa aventura virtual da qual participarão estudantes e
"marinheiros" de poltrona, em todo o mundo,
através da Internet. O barco é equipado com dois
computadores de mesa e outros dois portáteis, ligados a
um sistema de transmissão de alta potência e
versatilidade. Outra vedete a bordo é o Gap
um sistema de voz e imagem para teleconferências. Tudo
isso vai permitir que, durante os dois anos e meio de
circunavegação, informações atualizadas sobre a
viagem sejam distribuídas diariamente pela Internet.
Quem não se
recorda da Guerra do Golfo, há quase sete anos, na qual
o jornalista Peter Arnett, da CNN, se celebrizou por ser
o único com equipamento capaz de transmitir notícias de
uma Bagdá em chamas? Arnet usava um telefone do tamanho
de uma mala de viagem, pesando 20 quilos, e uma antena
com o diâmetro de um guarda-sol. O barco dos Schürmann
tem essa maravilha tecnológica, com uma diferença:
hoje, ela pesa menos de 1 quilo e tem o tamanho de um CD
player portátil. De fabricação norueguesa, o telefone
pode ficar exposto às intempéries e manter a qualidade
de sua transmissão mesmo em meio a um temporal
seja de voz, fax ou imagens digitalizadas. A tampa
substitui o enorme guarda-sol que Arnett usava como
antena. Basta ao usuário digitar um comando e uma senha
para o aparelho procurar o satélite mais próximo e
iniciar a transmissão. Seu custo: 34.800 dólares.
O barco encontra-se também conectado à rede internacional de emergência Trimble: um aperto no botão vermelho é suficiente para uma rede de satélites espalhar entre barcos e navios o pedido de socorro urgente. Vários desses objetos, até há pouco privativos das Forças Armadas americanas, não podiam sequer ser cogitados para uso em veleiros em virtude de seu excessivo peso. Uma simples antena pesava 135 quilos. Os fabricantes esmeraram-se para possibilitar o convívio dessas máquinas maravilhosas e altamente sensíveis com a salinidade do meio ambiente, conseguindo tornar a maioria à prova d'água.
Mar bravio
e gelo
Amyr Klink foi buscar o alumínio especial para seu Paratii
II na França, depois de dedicada pesquisa. Afinal, o
barco enfrentará frio intenso, mares bravios e muito
gelo pela proa. Seu projeto é circunavegar no sentido
longitudinal, contornando os pólos. Era preciso
compatibilizar resistência com leveza. "Escolhi o
alumínio estrudado, obtido com moderna tecnologia, cujo
processo de fabricação é semelhante ao da máquina de
fazer macarrão", simplifica Klink. Mas a grande
novidade do novo barco é mesmo o mastro de fibra de
carbono, que fica em pé sem o auxílio de estaiamento.
Um mastro comum é ligado a uma série de cabos de aço,
que distribui a força do vento pelas velas e o mantém
em pé. Para ter uma idéia, o Paratii I, usado
por Klink na viagem à Antártida, tem dezessete cabos de
aço e em cada um desses cabos há dois terminais com
quatro pinos cada um. Se um único pino desses cair, o
mastro desaba. O novo mastro, com tecnologia inglesa
chamada de aerorig, parece um T invertido, gira 360 graus
e não é ligado a nenhum cabo de aço. "Isso
representa uma brutal facilidade para o navegador
solitário", diz Klink. "Um barco com esse
mastro pode fazer manobras radicais a poucos metros de
distância da costa. Não é preciso nem ligar o motor.
Pode-se usar as velas até o último momento."
A data da partida de Klink ainda não está definida (provavelmente no começo de 1999), mas o barco sairá, como sempre, de Parati, na costa do Rio de Janeiro. Dali, o navegador segue para o Pólo Norte num percurso que poderá durar de um a dois anos. Completada a empreitada, o próximo desafio é o grande canal da China, onde pretende passar oito meses. Em seguida, a Antártida, que hospedará o Paratii II por oito meses, antes do retorno ao Brasil. No total, a viagem deve durar cerca de quatro anos. Ao contrário das vezes anteriores, Klink terá companhia nessa viagem. "Vou levar sete cientistas comigo para realizar pesquisas e produzir documentários", explica.
Com reportagem de Virginie Leite
Copyright © 1997, Abril
S.A. |