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Edição 2088

26 de novembro de 2008
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J.R. Guzzo
Depois do sal

"O pré-sal teve os seus quinze minutos de fama;
já estamos de volta ao pós-sal, onde a vida é mais
simples e as realidades contam mais que os desejos"

Uma das vantagens da queda no preço do petróleo é que foi parando, pouco a pouco, a conversa do pré-sal. Com o barril na casa dos 50 dólares, e sem dar sinais de que volte logo aos 150, onde estava até outro dia, ficou difícil encontrar muita gente interessada em debater o que será feito com esse petróleo enterrado a 7 000 metros de profundidade, no fundo do Oceano Atlântico. Quem estaria realmente disposto a brigar, hoje, por algo que só pode existir na prática, como mercadoria, num futuro que de repente se tornou muito mais remoto e incerto? Já não seria simples nem rápido, com o preço do barril na faixa dos 150 dólares, trazer à tona a riqueza toda que está ali, diante da charada técnica para chegar a ela e da montanha de dinheiro indispensável para pagar a conta da operação. Hoje, com o preço do petróleo reduzido a um terço, o prazo para transformar num produto real o que por enquanto só aparece nas telas de computador dos geólogos fica ainda mais distante – o valor do óleo obtido não vai compensar as somas a ser gastas com a exploração dos novos campos. É preciso, simplesmente, esperar mais um tempo. Quanto mais? Ninguém sabe dizer. O petróleo continua onde estava, claro, mas quem está no governo ou pretende chegar lá no curto prazo já viu que não vai tirar proveito disso – não o proveito que imaginava, nem no momento que queria. Resultado: a conversa perdeu a graça.

O pré-sal teve os seus quinze minutos de fama; já estamos de volta ao pós-sal, onde a vida é mais simples e as realidades contam mais que os desejos. A Petrobras, discretamente, anunciou há pouco que a fase exploratória do pré-sal na Bacia de Santos está encerrada; vai se concentrar, agora, em extrair petróleo de poços onde o retorno é mais rápido e garantido. Fica encerrada, também, a fase do palavrório. Até algum tempo atrás, muito pouca gente fora da Petrobras, ou até dentro dela, tinha ouvido falar em "pré-sal"; de uma hora para outra, todo mundo passou a dar aulas sobre o assunto, sobretudo quando se tratava de definir quem ficaria com as glórias da descoberta e os dividendos da sua exploração. O Brasil iria entrar na Opep. Os "projetos sociais" do governo passariam a ter todos os recursos de que precisam. As empresas internacionais que trabalham na área teriam de aceitar novas condições de contrato. A Petrobras, mesmo sendo estatal, não deveria ficar com essa nova mina de ouro; tem muitos sócios privados e, pior que isso, estrangeiros. Só uma "estatal pura", dizia-se, seria aceitável. Estados e prefeituras já calculavam as cotas que iriam exigir sobre o petróleo a ser extraído. A ministra Dilma Rousseff, que já era "mãe do PAC", foi promovida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a "madrinha do pré-sal". O próprio Lula, a certa altura da festa, chegou a dizer que era "um iluminado".

O presidente pode ser um homem iluminado, mas isso não faz o petróleo sair do lugar onde está, nem altera o preço do barril. É em cima de realidades, geológicas, de mercado e de investimento, que esse jogo vai ser jogado. Enquanto ele não se define, fica parada, felizmente, a discussão sobre quem iria receber os benefícios do pré-sal – ela não prometia nada de bom. O que mais se ouviu foi a indignação do governo com o fato de que acionistas privados da Petrobras iriam receber parte dos resultados. A empresa não deu uma única ação a eles, mesmo porque a lei não prevê que faça doações; vendeu, e encaixou o dinheiro recebido. Que culpa teriam, agora, se os ativos da Petrobras aumentam? Os cidadãos brasileiros ouvem dizer há mais de cinqüenta anos que a companhia pertence ao povo. Os que, além de ouvir, botaram a mão no bolso e compraram ações fizeram isso porque foi o único jeito de ganharem alguma coisa, realmente, com um patrimônio que é seu; se contassem com o governo para receber a parte a que fariam jus, na condição de donos da Petrobras, estariam esperando até hoje.

O governo tem nome, endereço e CPF de todos os brasileiros – nos registros do INSS, do FGTS, da Justiça Eleitoral e por aí afora. Sabe perfeitamente, portanto, quem são, e se nunca deu a ninguém um tostão dos lucros da Petrobras é porque não quis. Acha que o dinheiro tem de ir todo para o seu caixa, de onde, então, é distribuído para o povo na forma de serviços públicos cuja qualidade é tão conhecida. O presidente, no auge da euforia, disse que não era "possível" que os ganhos do petróleo ficassem "sempre com os mesmos". É exatamente onde continuariam, pela visão do seu governo, se tivesse havido algum ganho com o pré-sal.



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