Em casos de chantagem,
é esperado que chantagista e chantageado tenham alguma
idéia sobre o que está em discussão entre
eles. Mas, se não tiverem, isso não impede que
as conseqüências sejam igualmente péssimas,
ou até piores como em Queime Depois de
Ler(Burn After Reading, Estados Unidos/Inglaterra/
França, 2008), que estréia nesta sexta-feira
no país. De volta ao humor negro depois de uma incursão
pela tragédia em Onde os Fracos Não Têm
Vez, os irmãos Joel e Ethan Coen compõem
aqui um pequeno conto moral a respeito dos males da ignorância,
da arrogância e das ambições mal colocadas.
John Malkovich, comprazendo-se na repelência de seu
personagem, é Osbourne Cox, um analista da CIA que
perde o emprego por beber demais. Furioso, ele resolve escrever
uma daquelas memórias que entregam tudo. Sem que Cox
saiba, porém, sua mulher (Tilda Swinton) as grava num
disquete, como peça no processo de divórcio
que está movendo em segredo, para livrar-se do marido
desempregado e ficar com o amante o frívolo
e mulherengo funcionário do Tesouro Harry (George Clooney).
O problema é que, por caminhos tortuosos, o disquete
cai nas mãos de dois funcionários de uma academia
de ginástica: o paspalho Chad (Brad Pitt) e a desesperada
Linda (Frances McDormand), que deseja levantar algo como 50
000 dólares para se transformar por meio da cirurgia
plástica. A dupla acha que a devolução
do material pode valer uma recompensa gorda. A recepção
de Cox à sua oferta, contudo, não é o
que eles imaginavam, e eles partem para um obtuso plano alternativo:
vender o disquete aos russos (aparentemente, a notícia
do fim da Guerra Fria não chegou até eles).
Sem ter noção do que está fazendo, Harry
se junta à bagunça tão bagunçada,
aliás, que os Coen se valem até de um pequeno
coro grego para explicá-la, na forma de dois funcionários
da CIA que debatem os acontecimentos e a melhor forma de abafá-los.
Quando os Coen entram nesse seu
modo cáustico, fica quase que ao gosto do freguês
decidir o que os irmãos sentem de fato pelos personagens
que inventam se desprezo puro ou tingido por uma certa
compaixão. Seja qual for a resposta certa, muitos dos
protagonistas e coadjuvantes de Queime Depois de Ler
pagarão caro por suas fraquezas. Mais caro ainda, aliás,
se essas fraquezas tiverem origem em algum bom sentimento: a
vontade de ajudar um amigo, por exemplo, ou o desejo de ter
um amor correspondido. Os medíocres, os venais e os brutais
têm melhores chances, ou simplesmente saem ganhando. Mais
uma vez, o espectador é que decide se essa visão
é pessimista ou realista. Ou se, lamentavelmente, ambas
as alternativas estão corretas.