BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
Publicidade
REVISTAS
VEJA
Edição 2088

26 de novembro de 2008
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
SEÇÕES
Carta ao Leitor
Entrevista
Lya Luft
Leitor
Millôr
Blogosfera
PANORAMA
Imagem da Semana
Holofote
SobeDesce
Conversa
Números
Datas
Radar
Veja Essa
 

Cinema
RAZÕES E DESRAZÕES

Terra Vermelha, dirigido pelo ítalo-chileno Marco Bechis,
traz uma visão lúcida e original da questão indígena no Brasil


Isabela Boscov

Divulgação
JOGO DE CENA
Caiovás junto à cerca do que foi um dia sua terra: atores e também protagonistas reais do enredo

VEJA TAMBÉM
Exclusivo on-line
Trailer

O fazendeiro pega um punhado de terra e diz que desde o tempo de seu avô ela é cultivada para alimentar os outros, e que isso é uma coisa bela; sem dizer palavra, o índio pega outro punhado da mesma terra e a mastiga deliberadamente – como um gesto de desdém e também como uma explicação, de que ele é a terra da qual veio. Terra Vermelha (BirdWatchers, Brasil/Itália, 2008), que entra em cartaz no país nesta sexta-feira, foi a atração mais comentada do último Festival de Veneza, e por bom motivo: dirigido pelo ítalo-chileno Marco Bechis, este é um filme que angustia, assombra e, acima de tudo, surpreende. Desde a primeira cena, que por breves instantes parece anunciá-lo como, vá lá, um programa de índio, ele trata de reverter as expectativas da platéia de maneira incisiva. Rodado na região de Dourados, em Mato Grosso do Sul, onde Bechis preparou seu enredo durante quatro anos com a colaboração do roteirista brasileiro Luiz Bolognesi e dos índios que atuam no filme, Terra Vermelha é um pouco faroeste, pela paisagem e pelo tema clássico da disputa de território; um pouco aparentado do cinema que fazem hoje israelenses e palestinos, pelas razões e desrazões que ambos os lados da disputa apresentam; e, de resto, completamente original – pela lucidez com que olha uma questão que, da política fundiária à produção acadêmica, costuma ser tratada com um paternalismo que frustra qualquer pretensão à sua solução.

Na trama, colhida entre episódios verídicos, o cacique de um grupo de guaranis-caiovás decide retornar à sua terra ancestral para conter a onda de suicídios entre seus jovens (fato muito noticiado, os caiovás são afligidos por uma taxa de suicídio quarenta vezes superior à média brasileira, em especial entre os adolescentes). O que era sua velha aldeia, entretanto, é já há gerações uma fazenda. Os índios se instalam numa faixa estreita entre a cerca e a estrada. Todos os dias, atravessam a propriedade para pegar água no rio. O acampamento – uma tristíssima favela – não pára de crescer, assim como a tensão entre os índios e o fazendeiro (Leonardo Medeiros). Um dos méritos de Terra Vermelha é reconhecer que quem nasceu num lugar, ainda que este tenha antes pertencido a outros, se sente parte legítima dele. Outro é mostrar que essa convivência mal resolvida entre brancos e índios nutre relacionamentos utilitários e degradantes de parte a parte. Merece crédito, também, a forma como a produção foi realizada, com 80% do orçamento de 3 milhões de euros levantado na Itália e trazido para a locação, e apenas 20% dele captado no Brasil, pelos irmãos Caio e Fabiano Gullane – que vão assim se firmando como os produtores nacionais de mais visão no momento. Mas a maior virtude de Terra Vermelha talvez seja a de limitar-se a observar, sem propor. Embora Bechis se irmane com uma população que, no caso específico de Dourados, é de fato o lado em desvantagem, ele deixa em seu filme amplo espaço para que o espectador formule seus próprios sentimentos. Que provavelmente não serão poucos.

Trailer

Video



Publicidade
 
Publicidade

 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |