O fazendeiro pega
um punhado de terra e diz que desde o tempo de seu avô
ela é cultivada para alimentar os outros, e que isso
é uma coisa bela; sem dizer palavra, o índio
pega outro punhado da mesma terra e a mastiga deliberadamente
como um gesto de desdém e também como
uma explicação, de que ele é a
terra da qual veio. Terra Vermelha(BirdWatchers,
Brasil/Itália, 2008), que entra em cartaz no país
nesta sexta-feira, foi a atração mais comentada
do último Festival de Veneza, e por bom motivo: dirigido
pelo ítalo-chileno Marco Bechis, este é um filme
que angustia, assombra e, acima de tudo, surpreende. Desde
a primeira cena, que por breves instantes parece anunciá-lo
como, vá lá, um programa de índio, ele
trata de reverter as expectativas da platéia de maneira
incisiva. Rodado na região de Dourados, em Mato Grosso
do Sul, onde Bechis preparou seu enredo durante quatro anos
com a colaboração do roteirista brasileiro Luiz
Bolognesi e dos índios que atuam no filme, Terra
Vermelha é um pouco faroeste, pela paisagem e pelo
tema clássico da disputa de território; um pouco
aparentado do cinema que fazem hoje israelenses e palestinos,
pelas razões e desrazões que ambos os lados
da disputa apresentam; e, de resto, completamente original
pela lucidez com que olha uma questão que, da
política fundiária à produção
acadêmica, costuma ser tratada com um paternalismo que
frustra qualquer pretensão à sua solução.
Na trama, colhida entre episódios
verídicos, o cacique de um grupo de guaranis-caiovás
decide retornar à sua terra ancestral para conter a onda
de suicídios entre seus jovens (fato muito noticiado,
os caiovás são afligidos por uma taxa de suicídio
quarenta vezes superior à média brasileira, em
especial entre os adolescentes). O que era sua velha aldeia,
entretanto, é já há gerações
uma fazenda. Os índios se instalam numa faixa estreita
entre a cerca e a estrada. Todos os dias, atravessam a propriedade
para pegar água no rio. O acampamento uma tristíssima
favela não pára de crescer, assim como
a tensão entre os índios e o fazendeiro (Leonardo
Medeiros). Um dos méritos de Terra Vermelha é
reconhecer que quem nasceu num lugar, ainda que este tenha antes
pertencido a outros, se sente parte legítima dele. Outro
é mostrar que essa convivência mal resolvida entre
brancos e índios nutre relacionamentos utilitários
e degradantes de parte a parte. Merece crédito, também,
a forma como a produção foi realizada, com 80%
do orçamento de 3 milhões de euros levantado na
Itália e trazido para a locação, e apenas
20% dele captado no Brasil, pelos irmãos Caio e Fabiano
Gullane que vão assim se firmando como os produtores
nacionais de mais visão no momento. Mas a maior virtude
de Terra Vermelha talvez seja a de limitar-se a observar,
sem propor. Embora Bechis se irmane com uma população
que, no caso específico de Dourados, é de fato
o lado em desvantagem, ele deixa em seu filme amplo espaço
para que o espectador formule seus próprios sentimentos.
Que provavelmente não serão poucos.