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Edição 2088

26 de novembro de 2008
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Cinema
Conflito sem solução

Rede de Mentiras tem desenvoltura técnica e um elenco
impecável. Mas não vence o desafio de transformar
a guerra contra o terror em matéria para o cinema

Divulgação
UM DILEMA MORAL Crowe e DiCaprio, como o mentor e o pupilo relutante: qual a melhor tática, a emoção ou a falta dela?

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Em uma proposição que não deixa de ser instigante, Rede de Mentiras (Body of Lies, Estados Unidos, 2008), que estréia nesta sexta-feira no país, argumenta que a guerra ao terror estaria fadada ao fracasso em razão da desigualdade entre os adversários: quanto mais os serviços ocidentais de inteligência se amparam na tecnologia, mais o inimigo recua em seus métodos. Em vez de celulares e computadores, recorre a papel, lápis e trocas pessoais de informação – todos invisíveis aos satélites e às escutas. A única alternativa (e aquela em que a inteligência americana é sabidamente falha) seria a infiltração. Eis então a razão de ser do agente de campo Roger Ferris (Leonardo DiCaprio), que no filme do diretor inglês Ridley Scott anda pelos Emirados Árabes e pela Jordânia à cata do líder de uma organização terrorista que já deixou dezenas de mortos em atentados em Manchester e em Amsterdã, e promete muitos outros ainda. Ferris não só arrisca a própria pele, como é um ser moral. São inúmeros, portanto, os seus pontos de atrito com Ed Hoffman (Russell Crowe), o agente que o teleguia a partir da sede da CIA – ou da porta da escola dos filhos, ou da cozinha confortável em que prepara o café-da-manhã. Balofo, grisalho e doméstico, Hoffman é no entanto um homem implacável, que sacrifica inocentes sem emoção. Entre ele e Ferris, não resta dúvida de qual é o homem mais perigoso. A mensagem desse contraponto é também muito clara: a insensibilidade com que essa guerra é dirigida faz inimigos, nos territórios muçulmanos, muito mais rapidamente do que os elimina.

Em entrevista a VEJA, Ridley Scott afirmou ser fã dos romances de espionagem de John Le Carré. Nem precisaria tê-lo admitido: o trânsito angustiante entre aliados que podem ser adversários e adversários que podem virar aliados – a rotina de um espião atrás de linhas inimigas, que Le Carré descreve tão bem – é um dos fortes de Rede de Mentiras (aliás, adaptado de um livro do jornalista americano David Ignatius). Os outros ficam por conta da desenvoltura técnica e visual do diretor e do seu elenco. Além de Crowe e DiCaprio, ambos ótimos, ele inclui o fenomenal ator inglês Mark Strong como o sedoso chefe da inteligência jordaniana e vários intérpretes recrutados no cinema de língua árabe. Já seu defeito é o mesmo que, exceção feita a Syriana, atinge todas as outras produções americanas até aqui sobre o tema: de um lado, simplificam-se até o seu mínimo as infinitas complexidades da tensão entre Ocidente e Oriente Médio; de outro lado, elabora-se ao máximo a ação. O que resulta dessa tática é, no caso de Rede de Mentiras, uma história que se torna a cada passo mais inverossímil, e por isso menos envolvente. Desde o início, o cinema domou com maestria os enredos proporcionados pela Guerra Fria. Já a guerra ao terror parece ser um desafio que também ele é incapaz de vencer.

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Isabela Boscov, com reportagem de Sérgio Martins



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