Rede de Mentiras
tem desenvoltura técnica e um elenco
impecável. Mas não vence o desafio de transformar
a guerra contra o terror em matéria para o cinema
Divulgação
UM DILEMA MORALCrowe e DiCaprio, como o
mentor e o pupilo relutante: qual a melhor tática,
a emoção ou a falta dela?
Em uma proposição
que não deixa de ser instigante, Rede de Mentiras(Body of Lies, Estados Unidos, 2008), que estréia
nesta sexta-feira no país, argumenta que a guerra ao
terror estaria fadada ao fracasso em razão da desigualdade
entre os adversários: quanto mais os serviços
ocidentais de inteligência se amparam na tecnologia,
mais o inimigo recua em seus métodos. Em vez de celulares
e computadores, recorre a papel, lápis e trocas pessoais
de informação todos invisíveis
aos satélites e às escutas. A única alternativa
(e aquela em que a inteligência americana é sabidamente
falha) seria a infiltração. Eis então
a razão de ser do agente de campo Roger Ferris (Leonardo
DiCaprio), que no filme do diretor inglês Ridley Scott
anda pelos Emirados Árabes e pela Jordânia à
cata do líder de uma organização terrorista
que já deixou dezenas de mortos em atentados em Manchester
e em Amsterdã, e promete muitos outros ainda. Ferris
não só arrisca a própria pele, como é
um ser moral. São inúmeros, portanto, os seus
pontos de atrito com Ed Hoffman (Russell Crowe), o agente
que o teleguia a partir da sede da CIA ou da porta
da escola dos filhos, ou da cozinha confortável em
que prepara o café-da-manhã. Balofo, grisalho
e doméstico, Hoffman é no entanto um homem implacável,
que sacrifica inocentes sem emoção. Entre ele
e Ferris, não resta dúvida de qual é
o homem mais perigoso. A mensagem desse contraponto é
também muito clara: a insensibilidade com que essa
guerra é dirigida faz inimigos, nos territórios
muçulmanos, muito mais rapidamente do que os elimina.
Em entrevista a VEJA, Ridley Scott
afirmou ser fã dos romances de espionagem de John Le
Carré. Nem precisaria tê-lo admitido: o trânsito
angustiante entre aliados que podem ser adversários e
adversários que podem virar aliados a rotina de
um espião atrás de linhas inimigas, que Le Carré
descreve tão bem é um dos fortes de Rede
de Mentiras (aliás, adaptado de um livro do jornalista
americano David Ignatius). Os outros ficam por conta da desenvoltura
técnica e visual do diretor e do seu elenco. Além
de Crowe e DiCaprio, ambos ótimos, ele inclui o fenomenal
ator inglês Mark Strong como o sedoso chefe da inteligência
jordaniana e vários intérpretes recrutados no
cinema de língua árabe. Já seu defeito
é o mesmo que, exceção feita a Syriana,
atinge todas as outras produções americanas até
aqui sobre o tema: de um lado, simplificam-se até o seu
mínimo as infinitas complexidades da tensão entre
Ocidente e Oriente Médio; de outro lado, elabora-se ao
máximo a ação. O que resulta dessa tática
é, no caso de Rede de Mentiras, uma história
que se torna a cada passo mais inverossímil, e por isso
menos envolvente. Desde o início, o cinema domou com
maestria os enredos proporcionados pela Guerra Fria. Já
a guerra ao terror parece ser um desafio que também ele
é incapaz de vencer.