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Negócios Da Paraíba
ao Paraná, o país inteiro se veste
Sacoleiras esbaforidas arrastando fardos de roupas mal concebidas e ainda mais mal executadas, fabricadas na China, compradas em depósitos sombrios e revendidas por preço dez vezes maior? Tudo errado. O centro produtor que abastece as boas lojas do Brasil, em especial as butiques do interior, é organizado, antenado e dotado de confortos que vão de espumante gelado a cadeiras reclináveis para descanso enquanto as mercadorias são embaladas. Ah, sim, e nem pense em usar o termo sacoleiras. A expressão certa é revendedoras de moda. A "China" nacional atende por Brás, Bom Retiro e Itaim, os três bairros de São Paulo de onde sai boa parte das roupas que o país inteiro usa. Numa área de 10 quilômetros quadrados, 7 400 comerciantes faturam mais de 10 bilhões de reais por ano abastecendo butiques de todo o país. As compradoras a presença feminina é majoritária em geral são as proprietárias das lojas, que chegam de avião ou ônibus fretados. Como exige seu ramo de trabalho, gostam de se vestir com roupas da moda e andam perfumadas, como o ar de muitos atacadistas que freqüentam.
A bagagem já foi maior. Provavelmente boa parte do tempo que as bem produzidas lojistas gastam fazendo escova progressiva é consumida pensando na crise econômica mundial. Ela ainda não bateu nas confecções, mas a simples perspectiva já provoca efeitos. "O cliente leva pouco, vende e volta para buscar mais", resume o grego Stéfanos Anastassiadis, dono da Controvento, confecção do Bom Retiro que vende 10.000 peças de vestuário por mês, de boa qualidade e com alto investimento em pesquisa e apresentação. "Nossa estilista viaja três vezes por ano para Estados Unidos e Europa. Eu não faço blusinha de 9,99. E só vendo mercadoria passada e no cabide", orgulha-se Anastassiadis. É pela Controvento que Sandra Miyuki, uma das 1.500 clientes da marca, inicia sua maratona das terças-feiras. Dona de butique em Atibaia, a 70 quilômetros de São Paulo, no dia de compras Sandra costuma visitar dez atacadistas no circuito Bom RetiroItaim. Gasta em média 40.000 reais em mercadorias e volta para casa no mesmo dia, com seu carro importado lotado. "Passo no máximo quarenta minutos em cada loja", ensina. Nas etiquetas da sua loja, o preço de cada peça carrega o acréscimo-padrão no ramo, 100%. Às vezes um pouco mais, como no caso do vestido de festa que comprou por 260 reais na Controvento, vendido por 590 reais na sua loja.
A China de verdade e seus produtos baratos concorrem, previsivelmente, com as confecções de São Paulo, mas estas se beneficiam do aumento do poder aquisitivo e do nível de exigência do mercado. "A ampliação do número de consumidores tem sido mais expressiva que a entrada de produtos asiáticos", compara o engenheiro têxtil Flavio Bruno, coordenador de prospecção do Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil, do Senai. Além disso, as confecções paulistas se beneficiam da disseminação do fast-fashion. O fenômeno da produção rápida, a preços baixos, de roupas afinadas com os últimos modismos é visível em todas as vitrines do Bom Retiro, do Brás e do Itaim os dois primeiros conhecidos há décadas pela oferta de produtos baratos, que agora convivem com os de melhor qualidade, e o último uma adição recente (e mais cara) ao mundo das confecções atacadistas. Por causa da sofisticação da oferta, a dona de butique que fazia compras nos Estados Unidos agora se abastece em São Paulo, com boa qualidade e muito mais facilidade. "Estamos sempre em busca de informações. Pesquisamos lá fora e no Brasil também, da Daslu à Riachuelo. Por isso, tem muita loja de bairro mais atualizada que as dos shoppings", diz a coreana Susana Yoo, dona de confecção que vende 40.000 peças de roupa por mês no Bom Retiro. "Há dez anos, eu viajava seis vezes por ano para comprar roupa em Nova York. Hoje, viajo para ver o que está acontecendo lá fora, mas deixo para comprar no Brasil. Tudo o que sai lá sai aqui", concorda Maria Inês Artigas, dona de butique de Curitiba. O retrato mais exato da venda de roupas no atacado em São Paulo está no Mega Polo Moda (com esta grafia), no Brás, inaugurado em 2005. Para quem não conhece, parece um shopping center comum, com praça de alimentação, bancos, serviços e até heliponto. Mas as 400 lojas do local só abrem de segunda a sexta e só vendem para lojistas têm um cadastro de 35.000 clientes. Faturam, em mé-dia, 500 milhões de reais por ano. Por seus amplos corredores, 2.500 compradores empurram todo dia carrinhos de supermercado cheios de novidades para suas butiques. Nas vitrines, uma infalível ferramenta de venda: etiquetas amarelas com os dizeres "peça de novela" apontam os modelos que foram selecionados pela equipe de figurinistas da Rede Globo para vestir personagens. "A gente compra a roupa antes que apareça na novela. As clientes acham na loja o que viram na televisão na noite anterior e eu vendo tudo", conta Caroline da Mata, dona de duas butiques em São Carlos e uma em Araraquara, no interior de São Paulo. Às segundas-feiras, Caroline acorda de madrugada e, em três horas, desembarca dentro da garagem para 33 ônibus do Mega Polo. Passa dois dias hospedada no hotel do próprio shopping atacadista, que tem 136 apartamentos, e volta carregada. Os clientes maiores, como Antonio Nunes, proprietário de dez lojas em Dourados, em Mato Grosso do Sul, têm regalias. "Compro tanto por semana que não pago nem viagem nem hotel. Fica por conta do Mega Polo", diz Nunes. A consumidora do varejo que acha que se acaba nos shoppings comuns não imagina o que é a vida dos profissionais. "Perco quase 2 quilos quando venho a São Paulo", descreve Jaber do Amaral, dono de uma loja de roupas masculinas em São José, vizinha a Florianópolis. Antes das compras, Jaber pesquisa tendências na internet. Depois, desfruta comodidades como as cadeiras massageadoras para compradores exaustos. No Mega Polo também há cabines-camas para os motoristas de ônibus que viraram a noite e até água quente para o chimarrão dos clientes gaúchos.
Para evitar que as donas de butiques passem pelo vexame de ter clientes usando o mesmo vestido na mesma festa, foi desenvolvido até um intrincado esquema envolvendo todas as partes. "Eu trabalho com duas confecções de roupas e uma de acessórios. Temos um acordo informal: elas não vendem para nenhuma loja perto da minha e eu só compro delas. Sorocaba tem 560 000 habitantes, mas a socieda--de é pequena", diz a dona de butique Patrícia Brenga. Em cidades com até 100 000 habitantes, cada atacadista se compromete a abastecer uma única butique. Nas cidades maiores, vendem para até quatro lojas, mas em bairros diferentes. "Em junho, parei de comprar numa grife que vendeu o mesmo vestido para a minha loja e para a de uma concorrente", informa Maria Iriana Pordeus, 36, de Sousa, município de 60 000 habitantes na Paraíba. "Minha cliente pagou 600 reais pelo vestido, chegou a uma festa e encontrou outra com o mesmo modelo. É o tipo de coisa que não pode acontecer, porque meu público é exigente e quer exclusividade", queixa-se, ainda aborrecida. A mineira Carmen Grama, 35, de Curvelo, a 170 quilômetros de Belo Horizonte, exemplifica a preocupação na forma do pesadelo de toda dona da melhor butique da cidade: "Visto quatro primeiras-damas, a de Curvelo e a de três municípios vizinhos. Já pensou se elas aparecem em alguma ocasião social com vestido idêntico?"
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