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Edição 2088

26 de novembro de 2008
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Internacional
SARDINHA DE AMERICANO

Enquanto o G-20 tratava da crise na cúpula de Washington,
americanos mais humildes já barateavam sua dieta e faziam
explodir a venda de Spam. Spam? Não, nada tecnológico.
É a presuntada da foto abaixo, que alimentou os pobres nos
anos 30 e soldados na II Guerra


André Petry, de Washington

Fotos Toby Talbot/AP e National Archives
UM SÍMBOLO RENASCE COM A RECESSÃO
As gôndolas com Spams, emblema da culinária de crise, e um militar comendo na II Guerra: a fábrica, hoje, não dá conta da demanda

Em 1937, o empresário Jay Hormel enlatou o Spam, uma presuntada de carne de porco com muito tempero que se tornou um símbolo das horas brutais de recessão e guerra para os americanos. O Spam foi o prato principal das famílias pobres na Grande Depressão dos anos 30 e alimentou as tropas americanas na II Guerra Mundial. Ele era e continua sendo nos EUA a forma mais barata de obter proteína – uma lata de 340 gramas custa 2,40 dólares. O equivalente brasileiro mais próximo é a lata de sardinha, que alimentou muitos serventes de pedreiro antes que o Plano Real, nos anos 90, aumentasse o poder de compra dos brasileiros mais pobres e a derrota da inflação colocasse nas prateleiras o frango de 1 real o quilo. Em seu rótulo antigo, o Spam trazia o seguinte aviso, escrito em branco sobre fundo azul-escuro: "Para os períodos de emergência". Com a prosperidade sem igual das últimas décadas, o Spam sumiu da vida da classe média. Agora, as velhas latas estão de volta com um rótulo modernizado e o antigo aviso foi substituído pelo crazy tasty (algo como "doido de gostoso"). Para muitos americanos, o Spam voltou a ser atraente não pelo sabor, mas pelo preço. As latinhas famosas reapareceram nas gôndolas dos supermercados. Os donos não dizem quanto aumentou a venda, mas desde julho a principal fábrica do produto, a Hormel, em Austin, no estado de Minnesota, trabalha de domingo a domingo. Sem folga. Abate 19 000 porcos por dia. Na mesa dos mais pobres, o Spam voltou a servir como substituto da carne.

As famílias americanas que faziam lanches no McDonald’s agora compram Spams, e as que comiam em restaurantes agora fazem lanches no McDonald’s, numa cascata em que a escassez de dinheiro vai sepultando a preocupação com nutrição saudável. As vendas de Big Mac, cuja queda chegou a ser cantada em prosa e verso devido à valorização do dólar, acabaram disparando, favorecidas pelo preço e pelo conforto que proporcionam a quem não quer cozinhar em casa. No mês passado, as vendas do McDonald’s subiram nos Estados Unidos (5,3%), na Europa (9,8%) e no cômputo global (5,5%). Na camada mais humilde da população, crescem as filas nos postos que distribuem comida, a maior parte abastecida com doações de grandes redes de supermercado e empresas do setor de alimentos. É a emblemática fila da sopa.

Foi com o intuito de tentar espantar o fantasma do Spam e das filas de comida que na manhã do dia 15 de novembro os vinte líderes dos países mais ricos e dos principais emergentes se reuniram em Washington. Cada um era acompanhado por três auxiliares: o ministro da Fazenda, um assessor econômico e o embaixador. Instalados no Great Hall do Museu da Construção, estavam num ambiente grandioso. A vigiá-los, havia imensas colunas coríntias, devidamente remarmorizadas, que figuram entre as mais altas do mundo. A reunião começou, e o primeiro a falar deveria ser o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, já que o Brasil ocupa a presidência do G-20. Mas quem falou antes foi o rei saudita Abdullah bin Abdul Aziz Al Saud, 84 anos, quatro esposas, 22 filhos. Queria sair logo do encontro porque tinha uma consulta médica. Antes de deixar a reunião, disse que a Arábia Saudita se comprometia a fazer o que estivesse a seu alcance para equilibrar o mercado de petróleo. Dono de uma fortuna de uns 20 bilhões de dólares, o rei deixou seus assessores na reunião e entendeu que já dera sua contribuição à superação da crise. Levantou-se e foi embora.

Ao final do encontro do G-20, Bush chamou os líderes para almoçar. Entrada de salmão, vinho branco. Discutiram a Rodada de Doha. Só quatro deles foram convidados a falar, escolhidos a dedo por ser favoráveis à conclusão de Doha: o presidente Lula, a chanceler alemã Angela Merkel, o primeiro-ministro sul-coreano Han Seung-soo e o presidente mexicano Felipe Calderón. Encerrado o almoço, divulgou-se o documento final. Prevê a conclusão de Doha até dezembro, prazo que os franceses batalharam para não incluir. E informa que a crise não teve origem nos países emergentes, adendo que os chineses insistiram em colocar. "Diante do tempo que tiveram, menos de quinze minutos para cada líder falar, o resultado até que foi respeitável", disse a VEJA Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, editor de um livro eletrônico com textos sobre a cúpula escritos por vinte economistas. Ele explica: "Funcionou mais para fortalecer as instituições financeiras já existentes do que para enfrentar a crise imediata". Quem vive na base da pirâmide social deve continuar ainda com seu menu variando entre o Spam, o Big Mac e a sopa da caridade.



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