Ponto
de vista: Stephen Kanitz
Viver
de aluguéis
"Quem
fizer os cálculos vai descobrir
que no fim das contas sobra bem menos
dinheiro do que se imaginava dos
rendimentos de um imóvel alugado"
O sonho
de muitos brasileiros é construir duas ou três casinhas
e viver de aluguel na velhice. Nos últimos cinqüenta
anos a população brasileira cresceu de 50 para 176
milhões de habitantes, gerando enorme valorização
dos preços de imóveis e terrenos para a construção.
Por isso, os imóveis eram sempre nossa primeira opção
de investimentos.
Ilustração Ale Setti
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Só que nos próximos cinqüenta anos nossa população
não vai mais crescer 300%, mas somente 30%. E ainda bem.
Isso significa que a necessidade primária de novos imóveis
ficará em menos que 0,5% ao ano. Será que os imóveis
se valorizarão como no passado?
Dez
anos atrás vendi um apartamento de um dormitório que
me rendia um aluguel e coloquei os 60.000
reais em ações de seis empresas, cotadas em bolsa.
Minha primeira alegria foi descobrir que a corretagem em ações
não chegava a 0,5% por transação, enquanto
em imóveis o valor da corretagem chega a 6%, mais Imposto
sobre Aquisição de Imóveis (Sisa), mais CPMF,
mais o custo do cartório e do advogado independente, que
hoje é imprescindível, o que pode elevar a brincadeira
toda para 8%.
A
segunda alegria foi perceber que, enquanto meu inquilino me considerava
seu algoz, as empresas me chamavam de sócio e de parceiro.
Meu inquilino considerava meu aluguel uma despesa a ser reduzida
de tempos a tempos, já que o prédio envelhecia ano
após ano. Por outro lado, as ações valorizavam-se
com o tempo.
Enquanto
meu apartamento ficava de três a quatro meses vazio entre
um inquilino e outro, nas empresas meu dinheiro não ficava
parado um minuto. Enquanto meu apartamento se desvalorizava 1% ao
ano por obsolescência e depreciação, as ações
se valorizavam no mínimo 4% ao ano, porque boa parte dos
lucros é reinvestida na empresa, o que muita gente não
percebe. Normalmente, só 25% a 50% dos lucros são
distribuídos em dividendos.
Hoje,
tenho pessoas como Maurício Botelho, da Embraer, eleito um
dos 25 melhores executivos do mundo, trabalhando para mim. Ao contrário
de meu ex-inquilino, que vivia desempregado e atrasando o pagamento.
Por
isso, metade das famílias americanas possui ações
em vez de imóveis de aluguel, enquanto no Brasil menos que
3% investem em ações de forma significativa. Lá,
os trabalhadores podem comprar seu imóvel, porque todos investem
em ações que geram duplamente empregos, nas empresas
e no setor de construção. Aqui, porque preferimos
investir em imóveis sem risco, em vez de ações
que rendem mais por terem maiores riscos, só geramos empregos
no setor de construção, mantendo os salários
baixos e condenando o trabalhador brasileiro a alugar um imóvel
para sempre.
A
precaução que recomendo é nunca comprar ações
justamente no meio de uma alta, como agora, e sempre escolher com
cuidado a ação a comprar, os mesmos cuidados que deve
seguir quem compra um imóvel.
Culturalmente
o brasileiro acredita em imóveis por causa do medo da inflação,
além do fato de que "imóvel ninguém rouba".
Mas empresas em bolsa são também imóveis, e
elas se protegem muito bem da inflação, e também
ninguém as rouba. As ações ficam custodiadas
na própria bolsa.
Do
rendimento anual do aluguel você precisa descontar o custo
do corretor do imóvel, do cartório, do administrador
imobiliário, do corretor do inquilino, do pintor, do advogado
independente, dos atrasos, da inadimplência, dos aborrecimentos,
da depreciação do imóvel, da manutenção
obrigatória, do aumento do IPTU. Quem fizer os cálculos
vai descobrir que no fim sobra bem menos do que se imaginava.
Há
inúmeras ações que dão 5% a 9% só
de dividendos, além da valorização. Óbvio
que existem algumas que perdem 50% do valor, mas tem imóvel
que também vale a metade depois de descontar a inflação
ou a valorização do dólar quinze anos depois.
Mas o risco de seis ações caírem pela metade
é muito menor, por isso nunca coloque todos os seu ovos em
um único imóvel, com exceção do seu.
Ter o próprio imóvel é uma paz de espírito
que recomendo a todos.
Tente
vencer essa nossa barreira cultural começando ao poucos,
aplicando 5.000 reais numa ação
que dê bons dividendos, apenas para se acostumar com a bolsa
e com a idéia de que não só de aluguel vive
um aposentado.
Stephen
Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
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