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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
O
general e o circo (II)
Atrações
do dia: nazismo à brasileira,
o pioneirismo caboclo na Guerra Fria
e um belo golpe de prestidigitação
O general Álcio Souto, figura de destaque do Exército
brasileiro nos anos 1930-1940, era nazista. No começo da
II Guerra Mundial, época em que comandava a Escola Militar
do Realengo, costumava levar seus cadetes a um cinema do subúrbio
carioca, onde o cônsul da Alemanha exibia filmes enaltecendo
as proezas militares de Hitler. Quando os nazistas tomaram Paris,
deu uma festa em sua casa. Outro oficial, Affonso Henrique de Miranda
Corrêa, que, como segundo de Filinto Müller, o chefe
de polícia da ditadura de Getúlio Vargas, se notabilizara
na repressão aos envolvidos na chamada Intentona Comunista,
em 1935, foi mandado à Alemanha, dentro de um programa de
colaboração entre os dois países. Cumpriu estágio
de um ano na Gestapo, a polícia política do regime,
e acabou condecorado por Heinrich Himmler, condestável das
polícias hitleristas e criador do sistema de campos de concentração.
A
Ditadura Derrotada, o novo livro do jornalista Elio Gaspari,
já abordado nesta página na semana passada, traz de
volta, entre seus temas secundários, mas nem por isso menos
interessantes, dois lados algo desprezados da história brasileira
do século XX. Um é o sucesso que, antes e mesmo durante
a guerra, fazia o nazismo entre influentes integrantes das Forças
Armadas. Outro é a rapidez com que, no pós-guerra,
o Brasil entrou na Guerra Fria, lançando-se à política
de hostilidade à União Soviética e de caça
aos comunistas antes até dos Estados Unidos. Sobre o sucesso
do nazismo, nem se precisaria, a rigor, trazer de volta as figuras
esquecidas de Álcio Souto e Miranda Corrêa. É
bem conhecida a queda que tinham pelo regime dois pesos-pesados
do Exército, os generais Góis Monteiro e Eurico Dutra,
respectivamente chefe do Estado-Maior e ministro da Guerra de Vargas.
Góis Monteiro, conta o livro, estava na iminência de
embarcar para a Alemanha, na chefia de uma comitiva de oficiais
escalada para conhecer aquilo que ele qualificava de "obra gigantesca,
de reconstrução nacional", quando Hitler invadiu a
Polônia. Começava a guerra. A viagem foi abortada.
Gaspari revisita o período para mostrar o ambiente em que
se desenvolveram a vida e a carreira dos dois principais personagens
do livro, os generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva.
O jovem Geisel circulava próximo dos meios pró-nazistas
do Exército. Ele era um dos oficiais que viajariam à
Alemanha na companhia de Góis Monteiro. Ao mesmo tempo, tinha
no general Álcio Souto uma figura que admirava e um protetor.
Até que os ventos e que ventos! obrigassem
o Brasil a aliar-se aos Estados Unidos e entrar na guerra ao lado
das democracias ocidentais, a facção simpática
ao nazismo continuou obtendo vitórias. O filme O Grande
Ditador, de Charles Chaplin, que ridicularizava Hitler, foi
proibido pela Censura. Também não podiam ser vistos
os jornais cinematográficos que mostravam o primeiro-ministro
inglês Winston Churchill em visita a Moscou nem, quando os
alemães começaram a apanhar dos russos, aqueles que
exibiam o desfile de prisioneiros alemães diante do ministro
soviético da Defesa. Tão dolorosa quanto a débâcle
alemã, aos olhos da Censura, era a aliança ocidental
com os soviéticos.
Terminada a guerra, pano rápido, e entra em cena a política
anticomunista que distinguiu o Brasil com a palma do pioneirismo
na Guerra Fria. Quando Getúlio foi deposto, em 1945, aproveitou-se
para prender os comunistas. O embaixador americano, Adolf Berle,
para quem isso era um "mau negócio", abalou-se a fazer gestões
em favor de sua libertação. Sim, é isso mesmo
o que conta o livro: o embaixador americano pôs-se a campo
para libertar os comunistas! No comando do novo regime, liberal
e constitucional, apinhava-se a nata da turma pró-nazista.
O presidente era o general Dutra. Álcio Souto, seu chefe
da Casa Militar. Góis Monteiro elegeu-se senador. O passado
nazista não condenou ninguém. A culpa pela ditadura,
escreve Gaspari, foi varrida "para debaixo da biografia de Getúlio
Vargas", e os mesmos oficiais que tinham sido o sustentáculo
do Estado Novo passaram à qualidade de endossantes do regime
constitucional. Seu liberalismo encontrava um limite na intolerância
ao comunismo. Em 1947, o Brasil foi o primeiro país do mundo
ocidental a romper com a União Soviética.
E se o menino Ernesto Geisel tivesse seguido atrás do circo
que um dia passou por Bento Gonçalves?, indagava-se neste
espaço, na semana passada. A alusão era ao trecho
de A Ditadura Derrotada em que o pequeno Ernesto, fascinado
pelos saltimbancos e pelo elefante, aparece tomado pela fantasia
de acompanhar o circo. Se tivesse seguido tal impulso, Geisel teria
conhecido muitas maravilhas na vida, não há dúvida,
mas nenhum golpe de prestidigitação como o de generais
capazes de fazer sumir o passado nazista, empurrar a ditadura para
debaixo da biografia do comandante do regime e surgir do outro lado
da história novos e lépidos, para continuar como se
nada tivesse acontecido.
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