Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O general e o circo (II)

Atrações do dia: nazismo à brasileira,
o pioneirismo caboclo na Guerra Fria
– e um belo golpe de prestidigitação

O general Álcio Souto, figura de destaque do Exército brasileiro nos anos 1930-1940, era nazista. No começo da II Guerra Mundial, época em que comandava a Escola Militar do Realengo, costumava levar seus cadetes a um cinema do subúrbio carioca, onde o cônsul da Alemanha exibia filmes enaltecendo as proezas militares de Hitler. Quando os nazistas tomaram Paris, deu uma festa em sua casa. Outro oficial, Affonso Henrique de Miranda Corrêa, que, como segundo de Filinto Müller, o chefe de polícia da ditadura de Getúlio Vargas, se notabilizara na repressão aos envolvidos na chamada Intentona Comunista, em 1935, foi mandado à Alemanha, dentro de um programa de colaboração entre os dois países. Cumpriu estágio de um ano na Gestapo, a polícia política do regime, e acabou condecorado por Heinrich Himmler, condestável das polícias hitleristas e criador do sistema de campos de concentração.

A Ditadura Derrotada, o novo livro do jornalista Elio Gaspari, já abordado nesta página na semana passada, traz de volta, entre seus temas secundários, mas nem por isso menos interessantes, dois lados algo desprezados da história brasileira do século XX. Um é o sucesso que, antes e mesmo durante a guerra, fazia o nazismo entre influentes integrantes das Forças Armadas. Outro é a rapidez com que, no pós-guerra, o Brasil entrou na Guerra Fria, lançando-se à política de hostilidade à União Soviética e de caça aos comunistas antes até dos Estados Unidos. Sobre o sucesso do nazismo, nem se precisaria, a rigor, trazer de volta as figuras esquecidas de Álcio Souto e Miranda Corrêa. É bem conhecida a queda que tinham pelo regime dois pesos-pesados do Exército, os generais Góis Monteiro e Eurico Dutra, respectivamente chefe do Estado-Maior e ministro da Guerra de Vargas. Góis Monteiro, conta o livro, estava na iminência de embarcar para a Alemanha, na chefia de uma comitiva de oficiais escalada para conhecer aquilo que ele qualificava de "obra gigantesca, de reconstrução nacional", quando Hitler invadiu a Polônia. Começava a guerra. A viagem foi abortada.

Gaspari revisita o período para mostrar o ambiente em que se desenvolveram a vida e a carreira dos dois principais personagens do livro, os generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva. O jovem Geisel circulava próximo dos meios pró-nazistas do Exército. Ele era um dos oficiais que viajariam à Alemanha na companhia de Góis Monteiro. Ao mesmo tempo, tinha no general Álcio Souto uma figura que admirava e um protetor.

Até que os ventos – e que ventos! – obrigassem o Brasil a aliar-se aos Estados Unidos e entrar na guerra ao lado das democracias ocidentais, a facção simpática ao nazismo continuou obtendo vitórias. O filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin, que ridicularizava Hitler, foi proibido pela Censura. Também não podiam ser vistos os jornais cinematográficos que mostravam o primeiro-ministro inglês Winston Churchill em visita a Moscou nem, quando os alemães começaram a apanhar dos russos, aqueles que exibiam o desfile de prisioneiros alemães diante do ministro soviético da Defesa. Tão dolorosa quanto a débâcle alemã, aos olhos da Censura, era a aliança ocidental com os soviéticos.

Terminada a guerra, pano rápido, e entra em cena a política anticomunista que distinguiu o Brasil com a palma do pioneirismo na Guerra Fria. Quando Getúlio foi deposto, em 1945, aproveitou-se para prender os comunistas. O embaixador americano, Adolf Berle, para quem isso era um "mau negócio", abalou-se a fazer gestões em favor de sua libertação. Sim, é isso mesmo o que conta o livro: o embaixador americano pôs-se a campo para libertar os comunistas! No comando do novo regime, liberal e constitucional, apinhava-se a nata da turma pró-nazista. O presidente era o general Dutra. Álcio Souto, seu chefe da Casa Militar. Góis Monteiro elegeu-se senador. O passado nazista não condenou ninguém. A culpa pela ditadura, escreve Gaspari, foi varrida "para debaixo da biografia de Getúlio Vargas", e os mesmos oficiais que tinham sido o sustentáculo do Estado Novo passaram à qualidade de endossantes do regime constitucional. Seu liberalismo encontrava um limite na intolerância ao comunismo. Em 1947, o Brasil foi o primeiro país do mundo ocidental a romper com a União Soviética.

E se o menino Ernesto Geisel tivesse seguido atrás do circo que um dia passou por Bento Gonçalves?, indagava-se neste espaço, na semana passada. A alusão era ao trecho de A Ditadura Derrotada em que o pequeno Ernesto, fascinado pelos saltimbancos e pelo elefante, aparece tomado pela fantasia de acompanhar o circo. Se tivesse seguido tal impulso, Geisel teria conhecido muitas maravilhas na vida, não há dúvida, mas nenhum golpe de prestidigitação como o de generais capazes de fazer sumir o passado nazista, empurrar a ditadura para debaixo da biografia do comandante do regime e surgir do outro lado da história novos e lépidos, para continuar como se nada tivesse acontecido.

 
 
 
 
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