Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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Livros
Megera com causa

Historiadora carioca reabilita
a figura de Carlota Joaquina


Marcelo Marthe


gação
Fotos Rede Globo/divulgação
A princesa e suas representações na TV (no alto, à dir.) e no cinema: muito além de devassa

Trechos do livro

Mulher de dom João VI, o rei português que aportou com a família real no Rio de Janeiro em 1808, a princesa Carlota Joaquina (1775-1830) tornou-se um personagem histórico popular nos últimos anos, graças ao cinema e à televisão. O filme que leva seu nome, dirigido por Carla Camurati em 1995, e a série O Quinto dos Infernos, exibida em 2002 pela Rede Globo, a retratam de maneira semelhante: ela é irascível, grosseira, ninfomaníaca e sedenta de poder. Ambas as produções se apóiam em informações cristalizadas na historiografia e em literatura. Mas será que Carlota Joaquina tinha só essa faceta – a de megera? Segundo a historiadora carioca Francisca Nogueira de Azevedo, a resposta é negativa. Seu livro recém-lançado, Carlota Joaquina na Corte do Brasil (Civilização Brasileira; 398 páginas; 40 reais), é o estudo mais amplo sobre a personagem desde os anos 50. Na contramão da noção popular, a Carlota Joaquina que emerge da obra é culta e emancipada para os padrões da época. "A historiografia tem sido preconceituosa com a princesa", diz a pesquisadora.

Segundo Francisca Nogueira, Carlota Joaquina é vítima daquilo que os historiadores chamam de "lenda negra". Sua imagem negativa teria sido construída por historiadores liberais do fim do século XIX, que a viam como um símbolo do atraso absolutista. E não é só isso. "Carlota também incomodava porque se moveu com desenvoltura numa seara exclusiva dos homens: a política", diz a historiadora. Para mapear a atuação da princesa nos bastidores da corte, a autora investigou 1.453 cartas do período. Extraiu daí um tratado sobre as intrigas políticas da época. Filha do rei espanhol Carlos IV, a princesa foi uma ferrenha defensora do regime absolutista de seu país natal. Por isso, seus objetivos chocavam-se com os de todos à sua volta: as cortes portuguesa e inglesa, os liberais espanhóis e os que lutavam pela independência das colônias. Em 1806, tentou um golpe contra o marido, alegando sua insanidade – sua primeira demonstração de "apetite pelo poder". Conforme sugere a correspondência da época, dom João VI padecia de fato de depressão. "O príncipe está cada vez pior da cabeça", reclama Carlota em carta ao pai. Empenhada em limpar a reputação de Carlota, Francisca Nogueira não estende a mesma cortesia a dom João VI: sua pesquisa sugere que adjetivos como "indeciso", "manipulável" e "despreparado" se aplicavam mesmo a ele.

A correspondência não traz à tona grandes revelações de foro íntimo. É impossível saber, por exemplo, se ela traía dom João VI tanto quanto fazem crer autores como Luiz Edmundo, que assim a descreveu nos anos 30: "Tudo lhe servia, desde que tivesse a forma aproximada de um homem. Lembrava uma gata eternamente no cio, a latejar luxúria". Uma coisa é certa: seu caráter explosivo fazia jus à sua fama de megera. Num de seus arroubos, ela mandou açoitar o representante diplomático americano no Rio de Janeiro, simplesmente porque não a reverenciou na rua.

De acordo com a autora, a idéia muito difundida de que Carlota almejava criar um reino só seu na região do Rio da Prata é errônea. As cartas comprovam a tese de que, na verdade, como sua família fora deposta pelas tropas do francês Napoleão Bonaparte, o objetivo de Carlota seria comandar, a partir de Buenos Aires, a resistência do império espanhol. Ela chegou a doar suas jóias para financiar uma campanha militar contra o avanço dos adeptos da independência em Montevidéu. O "carlotismo" teve numerosos partidários na região. Apesar de sua desenvoltura, Carlota amargou quase que só frustrações políticas. Sua única conquista verdadeira veio no fim da vida: ela conseguiu colocar no trono de Portugal o seu filho dom Miguel, plenamente identificado com seus ideais políticos, e morreu feliz.

 
Carlota, a incompreendida


"Em uma retrospectiva de sua vida, Carlota Joaquina poderia chegar à conclusão de que seu temperamento independente, sua personalidade autoritária e a negação à submissão foram seus maiores obstáculos para vencer no mundo dos homens. Ela é tão segura de suas opiniões que se torna interlocutora brilhante, capaz de impressionar os varões numa discussão. Por esse motivo, tem muitos inimigos, mas também bajuladores. A respeito de todos esses homens, é difícil imaginar em que condições poderiam envolver-se com ela numa situação amorosa. Decifrar o enigma da personalidade de Carlota é algo impossível para seus contemporâneos, daí o repúdio que recebe dos membros da sociedade que desprezam a inquietude e a curiosidade das mulheres."

 

Trecho de Carlota Joaquina na Corte do Brasil

 

 
 
 
 
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