|
|
Livros
Megera
com causa
Historiadora
carioca reabilita
a figura de Carlota Joaquina

Marcelo Marthe
gação
 |
Fotos Rede Globo/divulgação
 |
 |
| A
princesa e suas representações na TV (no alto, à dir.)
e no cinema: muito além de devassa |
Mulher
de dom João VI, o rei português que aportou com a família
real no Rio de Janeiro em 1808, a princesa Carlota Joaquina (1775-1830)
tornou-se um personagem histórico popular nos últimos
anos, graças ao cinema e à televisão. O filme
que leva seu nome, dirigido por Carla Camurati em 1995, e a série
O Quinto dos Infernos, exibida em 2002 pela Rede Globo, a
retratam de maneira semelhante: ela é irascível, grosseira,
ninfomaníaca e sedenta de poder. Ambas as produções
se apóiam em informações cristalizadas na historiografia
e em literatura. Mas será que Carlota Joaquina tinha só
essa faceta a de megera? Segundo a historiadora carioca Francisca
Nogueira de Azevedo, a resposta é negativa. Seu livro recém-lançado,
Carlota Joaquina na Corte do Brasil (Civilização
Brasileira; 398 páginas; 40 reais), é o estudo mais
amplo sobre a personagem desde os anos 50. Na contramão da
noção popular, a Carlota Joaquina que emerge da obra
é culta e emancipada para os padrões da época.
"A historiografia tem sido preconceituosa com a princesa", diz a
pesquisadora.
Segundo
Francisca Nogueira, Carlota Joaquina é vítima daquilo
que os historiadores chamam de "lenda negra". Sua imagem negativa
teria sido construída por historiadores liberais do fim do
século XIX, que a viam como um símbolo do atraso absolutista.
E não é só isso. "Carlota também incomodava
porque se moveu com desenvoltura numa seara exclusiva dos homens:
a política", diz a historiadora. Para mapear a atuação
da princesa nos bastidores da corte, a autora investigou 1.453
cartas do período. Extraiu daí um tratado sobre as
intrigas políticas da época. Filha do rei espanhol
Carlos IV, a princesa foi uma ferrenha defensora do regime absolutista
de seu país natal. Por isso, seus objetivos chocavam-se com
os de todos à sua volta: as cortes portuguesa e inglesa,
os liberais espanhóis e os que lutavam pela independência
das colônias. Em 1806, tentou um golpe contra o marido, alegando
sua insanidade sua primeira demonstração de
"apetite pelo poder". Conforme sugere a correspondência da
época, dom João VI padecia de fato de depressão.
"O príncipe está cada vez pior da cabeça",
reclama Carlota em carta ao pai. Empenhada em limpar a reputação
de Carlota, Francisca Nogueira não estende a mesma cortesia
a dom João VI: sua pesquisa sugere que adjetivos como "indeciso",
"manipulável" e "despreparado" se aplicavam mesmo a ele.
A
correspondência não traz à tona grandes revelações
de foro íntimo. É impossível saber, por exemplo,
se ela traía dom João VI tanto quanto fazem crer autores
como Luiz Edmundo, que assim a descreveu nos anos 30: "Tudo lhe
servia, desde que tivesse a forma aproximada de um homem. Lembrava
uma gata eternamente no cio, a latejar luxúria". Uma coisa
é certa: seu caráter explosivo fazia jus à
sua fama de megera. Num de seus arroubos, ela mandou açoitar
o representante diplomático americano no Rio de Janeiro,
simplesmente porque não a reverenciou na rua.
De
acordo com a autora, a idéia muito difundida de que Carlota
almejava criar um reino só seu na região do Rio da
Prata é errônea. As cartas comprovam a tese de que,
na verdade, como sua família fora deposta pelas tropas do
francês Napoleão Bonaparte, o objetivo de Carlota seria
comandar, a partir de Buenos Aires, a resistência do império
espanhol. Ela chegou a doar suas jóias para financiar uma
campanha militar contra o avanço dos adeptos da independência
em Montevidéu. O "carlotismo" teve numerosos partidários
na região. Apesar de sua desenvoltura, Carlota amargou quase
que só frustrações políticas. Sua única
conquista verdadeira veio no fim da vida: ela conseguiu colocar
no trono de Portugal o seu filho dom Miguel, plenamente identificado
com seus ideais políticos, e morreu feliz.
| Carlota,
a incompreendida |
|
"Em
uma retrospectiva de sua vida, Carlota Joaquina poderia
chegar à conclusão de que seu temperamento
independente, sua personalidade autoritária e
a negação à submissão foram
seus maiores obstáculos para vencer no mundo
dos homens. Ela é tão segura de suas opiniões
que se torna interlocutora brilhante, capaz de impressionar
os varões numa discussão. Por esse motivo,
tem muitos inimigos, mas também bajuladores.
A respeito de todos esses homens, é difícil
imaginar em que condições poderiam envolver-se
com ela numa situação amorosa. Decifrar
o enigma da personalidade de Carlota é algo impossível
para seus contemporâneos, daí o repúdio
que recebe dos membros da sociedade que desprezam a
inquietude e a curiosidade das mulheres."
Trecho
de Carlota Joaquina na Corte do Brasil
|
|
|