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DVD
A
fé segundo Pasolini
Ou
como coube a um comunista fazer
o filme mais fiel sobre a vida de Jesus

Isabela Boscov
É
geralmente tido como ironia que um dos filmes mais fiéis
já feitos sobre a vida de Jesus Cristo senão
o mais fiel seja obra de um comunista, o italiano Pier Paolo
Pasolini. O Evangelho Segundo São Mateus (Il
Vangelo Secondo Matteo, Itália, 1964), que sai agora
em DVD em cópia restaurada, é dedicado pelo diretor
ao papa João XXIII e não tem nem uma única
fala que não seja tirada tal e qual do texto do evangelista
Mateus. Ao contrário dos filmes bíblicos que proliferavam
nos anos 50 e 60, em Evangelho não há contextualização
para facilitar a vida do espectador e, afora os figurinos, a rigor
também não há reconstituição
histórica todas as cenas foram rodadas em locação,
nas colinas áridas e então pobres da região
italiana da Basilicata. O elenco é todo de não-atores
entre eles a mãe de Pasolini, como Maria, e o caminhoneiro
espanhol Enrique Irazoqui, que faz Jesus e é um dos mais
bem-sucedidos exemplos do dom do diretor para captar no rosto de
seus intérpretes uma essência que fosse alheia à
atuação. A sensação, proposital, é
a de que se assiste a um documentário sobre Jesus. E, como
os grandes documentários, Evangelho adquire por meio
do real um caráter simbólico, que é reforçado
pela fotografia em preto-e-branco, quase impressionista, de Tonino
Delli Colli, e pela montagem do excepcional Nino Baragli. Por isso,
apesar de um certo incômodo inicial causado pelo fato de as
vestes dos sacerdotes judeus que condenam Cristo lembrarem muito
os paramentos dos papas católicos e também
a despeito de Pasolini ter sido preso dois anos antes, em 1962,
por desrespeito à Igreja , o filme não demorou
a ganhar a chancela do Vaticano. O que seria um tanto embaraçoso
para um comunista, não fosse Pasolini o comunista em questão.
Famoso
como poeta, romancista e ensaísta antes de se tornar cineasta,
Pasolini (1922-1975) passou à história como a contradição
personificada: um comunista ateu que era também católico
e homossexual além de um esquerdista que irritava
não só a direita, o que seria de esperar, como agravava
a esquerda com suas tomadas de posição corrosivas.
É natural, portanto, que se procurem na sua obra as formas
como ele conciliou esses opostos. Uma das razões pelas quais
Evangelho preserva sua força e beleza é que
Pasolini demonstra nele o quanto esses aparentes paradoxos muitas
vezes não passam de questão de nomenclatura. Não
se trata apenas de identificar em Cristo uma espécie de precursor
do socialismo e um provocador. A idéia que Pasolini desenha
aqui é, de certa forma, ainda mais subversiva: para ele,
o ato de acreditar sempre traz em si algo de místico, seja
acreditar numa religião ou num ideal de justiça social.
Ou, trocando em miúdos, a ideologia não deixa de ser
uma forma de religião algo que não causava
ao diretor nenhum desconforto, mas hoje, como então, ainda
mexe com os brios de muitos.
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