Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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Cinema
A volta por cima

Bom e barato, o western Pacto de Justiça
pode reanimar a carreira de Kevin Costner


Isabela Boscov


Chris Large
Duvall, Annette e Costner: um homem tem de fazer aquilo que um homem tem de fazer

Trailer e fotos do filme

Seguindo com toda a força ao fundo desde Waterworld, de 1995, Kevin Costner não se tornou só um astro em declínio: virou uma espécie de praga, da qual estúdios e produtores relutam em se aproximar, por medo de que o fracasso seja contagioso. Num panorama como esse, Pacto de Justiça (Open Range, Estados Unidos, 2003), que ele estrela e dirige e que estréia nesta sexta-feira no país, não chega a ser uma ressurreição. Mas é pelo menos um indício de que ainda há vida na carreira de Costner, que aqui retorna ao nicho que o consagrou – o faroeste à moda antiga, adepto, como Dança com Lobos, da filosofia de que um homem tem de fazer aquilo que um homem tem de fazer.

Costner e Robert Duvall são remanescentes da velha-guarda: caubóis sem rancho, que levam seu gado para pastar em pradarias ainda sem dono. Como a marcha ao Oeste não pára, essas se tornam cada vez mais raras. E vaqueiros como os dois se tornam também cada vez mais malquistos pelos novos latifundiários, que desejam engolir tanta terra quanto possível, por meios nem sempre legais. Quando os jovens parceiros da dupla são mortalmente feridos a mando do dono de uma cidadezinha, Costner e Duvall saem de sua paz para fazer o que julgam decente: acertar as contas com o fazendeiro. De um em um, os caubóis vão ganhando a adesão dos moradores (e moradoras, como Annette Bening, para a qual Costner lança olhares compridos), que encontram nos recém-chegados o apoio necessário para se levantar contra a tirania.

Costner é um democrata, mas é antes, e acima de tudo, um patriota. O paralelo com a ação americana no Iraque, portanto, é inevitável, e não exatamente benéfico para Pacto de Justiça – da mesma forma que a defesa do recurso à justiça por conta própria, sempre que houver sinais de que a lei vai tardar, ou falhar, ou ambas as coisas. Feitas essas ressalvas, é preciso admitir que Costner tem a têmpera certa para o western. Sua escolha das locações, essenciais para a história, é das mais inspiradas. E aos poucos ele consegue tirar o filme daquele tom solene que sempre foi seu maior defeito, conduzindo-o para um clímax admirável: um tiroteio complexo e prolongado nas ruas poeirentas de uma cidade perdida no nada, que mal-e-mal merece esse nome. A outra boa notícia é que, embora tenha cara de superprodução, Pacto de Justiça custou comparativamente pouco – 26 milhões de dólares, já cobertos pela bilheteria. Mais um filme bom e barato como esse, e quem sabe Costner termine por se livrar de sua má reputação.

 
 
 
 
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