Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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Empresas
O desafio de fazer 100 anos

Segredos e problemas das empresas que
conseguem viver mais que seus fundadores


Monica Weinberg

AP
Clay Ford, bisneto do patriarca Henry Ford: prejuízos e empresa ameaçada pela concorrência

A Ford festejou na semana passada a fabricação de seu veículo número 300 milhões. O carro construído para a celebração foi um Mustang vermelho conversível, um dos modelos de maior sucesso da empresa. A festa acontece num momento delicado na vida da companhia. A contabilidade registra dois anos consecutivos de prejuízos, há tempos a Ford não consegue criar produtos que encantem os consumidores e sua posição no ranking mundial das montadoras de veículos está seriamente ameaçada pela Toyota. A Ford ocupa hoje o segundo lugar entre as gigantes, atrás apenas da General Motors. Corre o risco de virar a terceira. Apesar do cenário adverso, há um desafio fantasmagórico nessa história. A Ford comemorou em junho um feito raro no mundo dos negócios. Ela chegou aos 100 anos de idade. Segundo levantamento feito por uma publicação especializada, 56% das organizações familiares nos Estados Unidos quebram, são vendidas ou acabam fatiadas entre os herdeiros bem antes de completar cinqüenta anos. Outras 30% passam por essa transformação por volta dos cinqüenta anos e 10% conseguem chegar intactas aos 75 anos. Apenas 4% das companhias completam um século de vida, como a Ford. O atual presidente da empresa, William Clay Ford, é bisneto do lendário Henry Ford, o industrial que criou o conceito da linha de montagem. A inovação baixou os preços e rapidamente tornou os carros acessíveis a quase todos os americanos. Foi um dos marcos do capitalismo.


AP
Os executivos Phil Marineau e Robert Haas, da Levi's: roupas para operários


Há várias etapas na vida de um empreendimento de sucesso. A primeira delas é a consolidação do negócio, quando a companhia conquista clientes, gera receitas e distribui lucros. Nessa fase inicial, a taxa de mortalidade é muito elevada, sejam as empresas grandes, sejam pequenas. No Brasil, os dados indicam que a cada ano nascem em média 500.000 empresas. Perto de 50% morrem no primeiro ano de vida. As empresas que superam a etapa de implantação do negócio enfrentam desafios variados que culminam com a sucessão no comando. Acertar o momento de rejuvenescer o comando das firmas é um dos segredos para que uma companhia possa envelhecer sem perder o vigor. Na maior parte dos casos, a energia vital da empresa está associada ao envolvimento direto do fundador. O chamado "olho do dono" muitas vezes funciona como a diferença entre uma companhia bem-sucedida e aquela que fracassa. Em alguns casos, no entanto, a permanência exagerada pode produzir efeitos colaterais nocivos à companhia. Acertar o instante de mudar é um desafio e tanto. Ainda mais porque, no momento em que o fundador decide por qualquer motivo procurar um substituto, são freqüentes as disputas entre os herdeiros. A família muitas vezes descuida do negócio e a companhia sucumbe. No caso das empresas centenárias, o stress ligado à sucessão ocorre seguidas vezes.

A Universidade Stanford realizou uma pesquisa para identificar fatores decisivos para a longevidade das empresas. O resultado está no livro Feitas para Durar – Práticas Bem-Sucedidas de Empresas Visionárias. Entraram no estudo empresas como a General Electric, a Boeing e a Johnson&Johnson, todas com mais de 100 anos. A conclusão é que essas empresas prosperaram porque sempre tiveram enorme capacidade de antecipar as necessidades dos consumidores e souberam adequar seus negócios às novas realidades. No passado, a Ford produzia suas próprias chapas de aço e até tentou extrair borracha da Amazônia para fabricar pneus. Hoje a empresa é exemplo de terceirização. Quase todos os seus esforços estão voltados para o design, marketing, financiamento e comercialização dos carros. A Levi's começou produzindo calças baratas e resistentes para operários e agora seu foco é o público jovem. Uma das companhias mais antigas do mundo, a fabricante italiana de armas Beretta foi fundada nos tempos em que Michelangelo estava no auge de sua produção artística e tinha pintado há poucos anos o teto da Capela Sistina no Vaticano. Vendia munição. Para sobreviver, a empresa precisou se reinventar várias vezes. Esses são considerados casos extraordinários de adaptação.

As empresas como as conhecemos hoje são uma criação do século XIX. Antes disso, quando uma companhia quebrava, carregava com ela todos os bens dos sócios, que muitas vezes podiam ser responsabilizados criminalmente pelos atos de seus gestores. Hoje, as pessoas podem ser apenas acionistas de uma firma. O risco embutido no negócio é perder o dinheiro investido. A responsabilidade civil e criminal se limita ao presidente e diretores da empresa. Também não havia leis para regular os processos de falência e concordata. Empresas quebravam, os donos desapareciam do mapa e os credores ficavam na mão. No passado, muitas disputas comerciais acabavam em crimes e até mesmo em guerras. A mudança nas leis deu proteção aos empreendimentos e aos investidores, estimulando assim a realização de novos negócios e impulsionando o capitalismo.


 

 
 
 
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