Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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Justiça
A história de um anjo decaído

Michael Jackson é acusado – outra vez!
– de
abusar de um menino


AP
Uma carreira em declínio
Estação VEJA: a vida do astro


Michael Jackson é o rei do pop, o cantor que vendeu 210 milhões de discos e faturou 1 bilhão de dólares em três décadas de carreira, mais que qualquer outro artista em atividade. Esses títulos só fazem sentido quando se olha para o passado. Michael Jackson, que era um bailarino esplêndido, um astro que marcou uma época, tornou-se um anjo decaído. Na tarde de quinta-feira passada, conduzido a uma delegacia de polícia com as mãos algemadas às costas, Michael, aos 45 anos, era apenas uma figura melancólica, contra a qual pesam acusações revoltantes de pedofilia. É triste a constatação, mas de muitas formas não há surpresa nesse destino. Na longa lista de fatos bizarros em torno do cantor – que inclui sua transformação, por força de múltiplas cirurgias plásticas, em um ser de aparência não prevista pela natureza –, seu relacionamento com as crianças sempre representou o canto mais sombrio. Dez anos atrás esteve igualmente encrencado com acusações de ter molestado sexualmente um menor. Naquela época, Michael pagou 20 milhões de dólares para que a família do menino, de 13 anos, retirasse a acusação. Safou-se assim de maiores aborrecimentos judiciais, pois, até então, pelas leis da Califórnia, o Estado americano em que vive, ninguém podia ser processado por abuso de menores se a vítima não concordasse em testemunhar.

Desta vez, não está tão fácil escapar. Depois do escândalo de 1993, a lei mudou na Califórnia. Agora a Justiça pode obrigar as vítimas a testemunhar. Apesar de o nome da vítima não ter sido divulgado, tudo indica que se trata de Gavin Arvizo, um garoto atualmente com 13 anos que conheceu o cantor depois que descobriu sofrer de câncer, em 2000, e de quem recebeu ajuda financeira para o tratamento médico. Durante dois anos, Gavin freqüentou a casa na fazenda de 1.000 hectares transformada num parque de diversões, com carrossel de cavalinhos, trenzinhos, roda-gigante e um forte apache. Logo na entrada da casa principal, uma enorme pintura representa Michael como um santo, rodeado de criancinhas. Em um documentário sobre a intimidade do cantor, exibido na televisão em fevereiro, Gavin aparece de mãos dadas com Michael, que admite dormir com o garoto no mesmo quarto. "Já dormi com muitas crianças, como o ator Macaulay Culkin e também com o irmão dele. Qual o problema em compartilhar o amor? Não há nada de sexual nisso", diz Michael ao entrevistador.

O vídeo foi um desastre para a imagem de Michael. Não apenas pela espantosa confissão de que dormia – no mesmo quarto, vá lá – com seus amiguinhos. Mas também por demonstrar que nenhum aspecto da existência dele pode ser medido pelo padrão de normalidade. Depois de assistir ao documentário, o pai de Gavin, que é separado e não vive com os filhos, que também visitavam a casa do cantor, preocupou-se: "Michael tem sido muito generoso com meus filhos, mas não deveria ficar dividindo o quarto com eles". Recentemente, traumatizado com as gozações que os colegas faziam no colégio por sua amizade com o astro, o garoto foi ao psiquiatra. Contou que Michael lhe dava vinho e pílulas para dormir e o acariciava. Um terapeuta que toma conhecimento desse tipo de fato é obrigado por lei a avisar a polícia. Foi o que o psiquiatra fez. Os advogados do músico estão se preparando contra uma acusação desde que a mãe do rapaz brigou no início do ano com Michael, que a sustentava.

 
Divulgação

Michael com Gavin e entrando algemado na delegacia (à direita): o garoto, que quis conhecer Michael depois de ser diagnosticado com câncer, pode ser o pivô da nova acusação de abuso de menores contra a estrela do pop
Fotos AP

Finalmente, a tempestade explodiu na terça-feira. A polícia invadiu a Terra do Nunca, a fazenda do cantor, em busca de indícios de abuso sexual de crianças e exibiu o mandado de prisão. Michael, que estava viajando, entregou-se dois dias depois. Foi levado algemado para a delegacia, pagou fiança de 3 milhões de dólares e foi liberado em apenas uma hora. O difícil é acreditar que a mãe do menino não era conivente com o que acontecia na mansão, emprestando seus filhos para dormir com o cantor. Quando surgiu a primeira suspeita de abuso, dez anos atrás, a polícia descobriu que Michael tinha montado um esquema de aliciamento de menores em sua mansão, onde recebia regularmente a visita de crianças, que ele chama de seus "amigos especiais". Em seu quarto havia um alarme para avisá-lo quando alguém se aproximasse da porta. Isso garantia privacidade quando dormia com crianças, na mesma cama.

A relação patológica com crianças é a pior mas não a única aberração no comportamento de Michael Jackson. Sua aparência atual é de botar medo em fã de filme de terror. Calcula-se que ele tenha feito cinqüenta cirurgias plásticas no rosto. Comparando: para recuperar a pior deformação facial, nunca é necessário mais do que uma dezena de intervenções cirúrgicas. Não havia nada de errado com a aparência original do cantor, exceto o fato de que ele não gostava dela. Michael Jackson parece sofrer de uma doença psicológica chamada dismorfia corporal: a pessoa se olha no espelho e se acha sempre deformada. Hoje, mais do que nunca, Michael tem motivos para pensar assim. "O excesso de cirurgias plásticas, como obviamente é o caso dele, pode levar à morte dos tecidos do rosto", diz o cirurgião plástico Nivaldo Alonso, professor da Universidade de São Paulo. Numa bem fundamentada reportagem publicada em fevereiro, a revista americana Vanity Fair garante que o popstar já não tem nariz. De tanto os médicos quebrarem e retirarem cartilagens para afilá-lo, não sobrou alternativa a não ser colocar no lugar uma prótese de plástico. Jackson também é o único caso conhecido de negro que virou branco. Ele tem uma doença chamada vitiligo, que provoca manchas brancas no corpo e é causada pela falta de pigmento em partes da pele. Em vez de tentar um tratamento que recupera a pigmentação, Michael faz o contrário: toma doses cavalares de um remédio chamado hidroquinona, que tem o efeito de clarear a pele. Isso aumenta a sensibilidade ao sol. Por isso, em qualquer passeio ao ar livre, o esquisitão usa sombrinha.

 
Viatura da polícia em Neverland, a fazenda do artista: lago artificial, zoológico e parque de diversões

A infância e a adolescência de Michael foram uma sucessão de traumas. Ele, na verdade, nunca teve infância. Começou a cantar aos 5 anos no grupo dos irmãos, o Jackson 5, que fez muito sucesso nos anos 70. O pai, Joseph, era um déspota que obrigava os filhos a ensaiar por horas depois do colégio. Com freqüência, aplicava-lhes violentas surras. Uma vez, o pequeno Michael encontrou a irmã La Toya sangrando no chão do banheiro. Apanhou do pai porque tirara notas baixas na escola. Mais tarde, já adulta, La Toya contou que o pai abusava sexualmente dela. Michael era o mais espancado, por ser, na época, o mais extrovertido e autoconfiante dos irmãos. Aos poucos, foi se tornando tímido e arredio. O pai o chamava de "narigão", por pura crueldade. Michael chorava. Aos 20 anos, ele tropeçou no palco, caiu de cara e quebrou o nariz. Foi a oportunidade que esperava para começar a mudar o rosto.

Outro momento traumático ocorreu aos 15 anos, quando os irmãos o trancaram com duas prostitutas em um quarto de hotel para que fosse iniciado à força no sexo. Terminou a noite lendo a Bíblia para as moças, sem que acontecesse nada além disso. Durante toda a vida, ele sempre fez tentativas patéticas de mostrar que era um homem normal no item sexualidade. Teve namoros de fachada com atrizes. Em 1994, logo após as primeiras denúncias de pedofilia, casou-se com Lisa Marie Presley, filha de Elvis Presley. A união durou um ano e meio. Depois esteve casado por três anos com a enfermeira Debbie Rowe, com quem nunca morou junto. Teve dois filhos com ela, acredita-se que por inseminação artificial: Prince Michael, hoje com 6 anos, e Paris Michael, de 5. Sempre que sai para passear com os filhos, Michael Jackson cobre-lhes o rosto com máscara e pano. Encomendou o terceiro filho, Prince Michael II, hoje com 2 anos, a uma mãe de aluguel, que nunca foi identificada. No fim do ano passado, causou escândalo ao ser filmado numa brincadeira perigosa: para se exibir aos fãs, balançou o bebê na sacada de um hotel de Berlim. Nos anos 80, as esquisitices de Michael funcionavam como estratégia de marketing, porque era a época em que fazia boas músicas. O disco Thriller vendeu 50 milhões de cópias, recorde ainda imbatível no mundo da música. Nos anos 90, no entanto, a criatividade artística acabou, e ficaram só as bizarrices, que deixaram de ser engraçadas quando surgiram as primeiras suspeitas de pedofilia.

 
 
 
 
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