|
|
Crime
Alguns
ossos e uma
terrível suspeita
Desaparecidos
podem ter sido devorados
por animais de zoológico no norte da Argentina
Fotos Diário El Liberal
 |
eral
 |
| Leyla
e Patrícia: o assassinato de uma levou à morte da outra |
Santiago
del Estero é uma província pobre do noroeste argentino
conhecida pelo calor sufocante no verão e pela dependência
de seus 860.000 habitantes dos favores do Estado de cada
dez trabalhadores, seis são funcionários públicos.
Há meio século impera ali um sistema político
semifeudal liderado pelo cacique peronista Carlos Juárez.
Aos 85 anos, o mais antigo caudilho do interior da Argentina manda
por meio de sua mulher, a governadora Marina de Juárez, e
de uma rede de apadrinhados. Esse arranjo político ameaça
agora desabar na esteira das investigações do assassinato
de duas mulheres no começo do ano. Até a semana passada,
26 pessoas foram presas, acusadas de envolvimento na morte das moças
entre elas um juiz, um deputado provincial, o chefe de polícia
e o temido comissário Antonio Musa Azar, que comandou o serviço
de informações do governo local por quatro décadas.
Azar foi indiciado como mandante de um dos crimes e cúmplice
no outro.
Diário El Liberal
 |
| Escavações
no zôo: ossos de várias pessoas |
O caso é tenebroso. O corpo de Leyla Bashier Nazar, de 22
anos, e o de Patricia Villalba, de 26, foram encontrados em fevereiro
na periferia da capital da província. Leyla tinha sido cortada
em pedaços e partes do corpo sumiram, incluindo mãos
e pés. O de Patrícia estava intacto, mas apresentava
marcas de tortura. As duas não se conheciam. Leyla foi vista
pela última vez numa festa regada a bebida, música
e cocaína que teve a participação de figurões
da elite local, incluindo o filho de Azar. Soube-se depois que ela
morreu de overdose e os participantes da festa foram pedir a Azar
para sumir com o corpo. As investigações só
começaram para valer em setembro, quando uma nova juíza
assumiu o caso. Após seguir algumas pistas, ela chegou a
três policiais que confessaram ter seqüestrado Patrícia
e a levado para o zoológico particular de Azar. Ali, ela
foi torturada e morta. O motivo: soubera por um amigo policial da
circunstância da morte de Leyla, e Azar achou melhor matá-la
antes que falasse demais.
Ao
determinar uma busca no zoológico de Azar, duas semanas atrás,
veio a surpresa maior peritos encontraram vários fragmentos
de ossos humanos (incluindo três falanges de uma mão
e um osso de pé) próximo à jaula de uma águia.
A suspeita inicial era que pertenciam a Leyla, mas um exame em laboratório
mostrou que os ossos vieram de pessoas diferentes. Foi a senha para
o governo federal intervir no caso. A suspeita é que o zoológico
particular abrigue um cemitério clandestino da época
do regime militar. Ou que tenha ocorrido ali algo ainda mais assombroso:
o comissário teria alimentando seus animais com o corpo dos
desaparecidos? Azar já havia sido acusado pelo desaparecimento
de 23 presos políticos, mas foi beneficiado pela anistia
de 1985. Não existem provas da participação
do caudilho Juárez na morte das moças. Mas ninguém
duvida que, após o escândalo, seu reinado em Santiago
del Estero tenha chegado ao fim.
|