Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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Crime
Alguns ossos e uma
terrível suspeita

Desaparecidos podem ter sido devorados
por animais de zoológico no norte da Argentina


Fotos Diário El Liberal
eral
Leyla e Patrícia: o assassinato de uma levou à morte da outra

Santiago del Estero é uma província pobre do noroeste argentino conhecida pelo calor sufocante no verão e pela dependência de seus 860.000 habitantes dos favores do Estado – de cada dez trabalhadores, seis são funcionários públicos. Há meio século impera ali um sistema político semifeudal liderado pelo cacique peronista Carlos Juárez. Aos 85 anos, o mais antigo caudilho do interior da Argentina manda por meio de sua mulher, a governadora Marina de Juárez, e de uma rede de apadrinhados. Esse arranjo político ameaça agora desabar na esteira das investigações do assassinato de duas mulheres no começo do ano. Até a semana passada, 26 pessoas foram presas, acusadas de envolvimento na morte das moças – entre elas um juiz, um deputado provincial, o chefe de polícia e o temido comissário Antonio Musa Azar, que comandou o serviço de informações do governo local por quatro décadas. Azar foi indiciado como mandante de um dos crimes e cúmplice no outro.


Diário El Liberal
Escavações no zôo: ossos de várias pessoas


O caso é tenebroso. O corpo de Leyla Bashier Nazar, de 22 anos, e o de Patricia Villalba, de 26, foram encontrados em fevereiro na periferia da capital da província. Leyla tinha sido cortada em pedaços e partes do corpo sumiram, incluindo mãos e pés. O de Patrícia estava intacto, mas apresentava marcas de tortura. As duas não se conheciam. Leyla foi vista pela última vez numa festa regada a bebida, música e cocaína que teve a participação de figurões da elite local, incluindo o filho de Azar. Soube-se depois que ela morreu de overdose e os participantes da festa foram pedir a Azar para sumir com o corpo. As investigações só começaram para valer em setembro, quando uma nova juíza assumiu o caso. Após seguir algumas pistas, ela chegou a três policiais que confessaram ter seqüestrado Patrícia e a levado para o zoológico particular de Azar. Ali, ela foi torturada e morta. O motivo: soubera por um amigo policial da circunstância da morte de Leyla, e Azar achou melhor matá-la antes que falasse demais.

Ao determinar uma busca no zoológico de Azar, duas semanas atrás, veio a surpresa maior – peritos encontraram vários fragmentos de ossos humanos (incluindo três falanges de uma mão e um osso de pé) próximo à jaula de uma águia. A suspeita inicial era que pertenciam a Leyla, mas um exame em laboratório mostrou que os ossos vieram de pessoas diferentes. Foi a senha para o governo federal intervir no caso. A suspeita é que o zoológico particular abrigue um cemitério clandestino da época do regime militar. Ou que tenha ocorrido ali algo ainda mais assombroso: o comissário teria alimentando seus animais com o corpo dos desaparecidos? Azar já havia sido acusado pelo desaparecimento de 23 presos políticos, mas foi beneficiado pela anistia de 1985. Não existem provas da participação do caudilho Juárez na morte das moças. Mas ninguém duvida que, após o escândalo, seu reinado em Santiago del Estero tenha chegado ao fim.

 
 
 
 
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