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Saúde
A
tristeza do macho
Os
homens sofrem tanto de depressão
quanto as mulheres, mas para eles é
mais difícil admitir a angústia

Rosana Zakabi
Carol Quintanilha
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O
paulista Waldemar Calil Filho, de 56 anos, começou a sentir
os primeiros sintomas de depressão oito anos atrás. Distanciou-se
dos amigos, isolou-se da família e já não via graça em administrar
seu salão de bingo na Grande São Paulo. O auge da crise foi
há dois anos. "Cheguei a achar que não havia mais motivo para
ficar vivo", diz. Por insistência da família, Calil procurou
ajuda médica e hoje está recuperado. "Eu não acreditava em terapia,
achava que era perda de tempo e que ninguém poderia me ajudar",
conta ele. |
O paulista
Waldemar Calil Filho sentiu que algo não ia bem com seu humor
há oito anos, após se submeter a uma cirurgia cardíaca.
Aos 48 anos, tarefas que antes lhe davam prazer, como administrar
seu salão de bingo em Mogi das Cruzes, na Grande São
Paulo, pareciam cada vez mais árduas. Aos poucos, ele começou
a se distanciar dos amigos e deixou de conversar com a família.
Sua vida foi tomada por tristeza e angústia permanentes.
No fim de 2001, isolado numa casa de praia, pensou pela primeira
vez que não havia motivo para continuar vivo. Foi nessa época
que, por pressão da família, Calil procurou a ajuda
de um psiquiatra, que diagnosticou uma crise depressiva. "Eu sabia
que havia algo errado, mas nunca imaginei que fosse depressão",
diz Calil. Nesse sentido, seu comportamento foi tipicamente masculino.
Os médicos estimam que quase 10 milhões de brasileiros
sofram desse mal. A maioria deles é capaz de admitir que
a vida perdeu a graça, mas só uma minoria ousa reconhecer
que há algo errado com suas emoções. Isso seria
visto como sinal de fraqueza, "coisa de mulher".
De
fato, as estatísticas mostram que para cada homem há
duas mulheres com depressão. A explicação estaria
no fato de elas serem mais sujeitas a variações hormonais
menarca, parto, tensão pré-menstrual e menopausa.
Os cientistas estão cada vez mais convencidos de que esses
números não são confiáveis. Nesse caso,
o que separa homens e mulheres não é a vulnerabilidade
à depressão, mas a capacidade de admiti-la. Enquanto
as mulheres vão ao médico nos primeiros sintomas da
doença, os homens só procuram tratamento quando a
depressão já está em estágio avançado.
"Geralmente o homem chega ao consultório após a segunda
ou a terceira crise", diz o neuropsiquiatra Rubens Pitliuk, de São
Paulo. É quase natural que seja assim. Masculinidade, seja
lá onde se viva, é entendida como uma manifestação
de força, independência, eficiência e autocontrole.
Essa é uma atitude de alto risco. De acordo com estimativas
internacionais, os homens tentam o suicídio quatro vezes
mais que as mulheres e com maior possibilidade de sucesso.
Enquanto as mulheres tomam de preferência uma dose alta de
comprimidos e, em teoria, têm maiores chances de sobreviver,
os homens adotam recursos radicais, como um tiro na cabeça.
| O
ator Perry Salles, de 64 anos, experimentou uma crise de depressão
em 1988, após se separar da atriz Vera Fischer. Passou a beber
até cair na sarjeta. "Percebi que a coisa era grave quando comecei
a medir a distância da minha janela, no 10º andar do prédio,
até a rua", conta. Ainda assim, não julgou necessário procurar
ajuda médica. Perry passou mais de dez anos entre altos e baixos
e hoje se considera recuperado. "Tive de largar tudo e mudar
de vida para encontrar o equilíbrio de que precisava", diz ele. |
Fernando Martinho
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"Eu
sentia vontade de acabar com minha vida, mas pensava no futuro de
minha família", conta Antônio, 68 anos, empresário
mineiro que prefere não ser identificado. "Ficava imaginando
uma forma de morrer de acidente de carro para minha mulher e meus
filhos ficarem com o seguro de vida." Antônio teve a primeira
crise de depressão há sete anos, depois que sua empresa
de importação e exportação faliu e ele
perdeu tudo que tinha. "No início, achava que estava apenas
triste", diz ele. Passou a tomar calmantes sem prescrição
médica, e o quadro piorou. Só procurou o psiquiatra
um ano depois, por insistência de amigos. Antônio conseguiu
manter a rotina do dia-a-dia enquanto sofria em silêncio.
Nem sempre isso acontece. Muitos deprimidos buscam alívio
no álcool ou nas drogas, o que só agrava o problema.
Não é fora do comum que a infelicidade se traduza
em irritação e violência. As diferenças
de comportamento decorrem do fato de que, a exemplo da maioria dos
distúrbios psicológicos, os quadros de depressão
se manifestam de forma leve, moderada ou severa. Por isso, nem sempre
a falta de reconhecimento da doença é uma decisão
consciente.
Muitos
homens vivem em estado de desânimo crônico e
se acostumam de tal forma com esse sentimento que acreditam que
se trata apenas de uma característica de personalidade. O
sentimento de culpa e a melancolia são constantes, mas os
sintomas de depressão podem ser mascarados por curtos períodos
de animação motivados por um namoro novo ou pela vitória
do time favorito. Em pouco tempo, o entusiasmo é substituído
pelo sentimento de decepção e frustração
consigo e com os outros. No trabalho, não importa que seja
considerado pelos colegas competente e diligente, o deprimido tende
a se ver como alguém à beira de ser desmascarado como
uma fraude.
A
depressão tem forte componente hereditário, mas ninguém
está livre de ser atingido. A crise pode ser detonada por
um acontecimento objetivo, como a perda de um ente querido ou dificuldades
profissionais. Nessas circunstâncias, só se torna preocupante
quando se prolonga em demasia. O advogado paulista Carlos Alberto
Brolio, de 55 anos, teve a primeira crise de depressão em
1980, acompanhada de síndrome do pânico, um surto de
medo descontrolado. "Estava acabando de chegar do interior para
trabalhar na capital, era muito perfeccionista e não admitia
falhar", diz ele. Naquela época, a depressão masculina
era tabu. "Ninguém tocava no assunto, nem os próprios
médicos faziam um diagnóstico preciso", conta. Na
ocasião, Brolio conseguiu superar o problema sozinho, sem
tratamento. Dez anos depois, teve nova crise. Foi provocada por
problemas profissionais. Dessa vez, procurou um psiquiatra e, depois
de duas semanas de medicação, já estava bem
melhor.
Acredita-se
que a depressão seja causada por um desequilíbrio
na química cerebral. Decorre de uma queda nos níveis
de serotonina e noradrenalina, os neurotransmissores responsáveis
pelas sensações de prazer e bem-estar. O desarranjo
prejudica a memória e a concentração e provoca
fortes alterações de humor. Os remédios são
a primeira opção de tratamento em casos de depressão,
pois têm a função de reequilibrar a química
cerebral. Os mais antigos, como o Tofranil e o Anafranil, agem diretamente
na serotonina e na noradrenalina. São aqueles com os maiores
efeitos colaterais: boca seca, tremores, tontura, perda de libido,
taquicardia e aumento de apetite, principalmente para doces. Os
medicamentos mais modernos, lançados no fim da década
de 80, agem apenas na serotonina, com menos efeitos colaterais.
Os mais conhecidos são Prozac e Zoloft. A experiência
de consultório mostra outra diferença entre os sexos.
"Os homens reagem melhor com os medicamentos mais antigos, que são
mais potentes nas depressões graves; as mulheres se dão
melhor com os mais recentes", diz o psiquiatra Ricardo Moreno, coordenador
do Grupo de Doenças Afetivas do Instituto de Psiquiatria
do Hospital das Clínicas de São Paulo. Em geral, os
remédios demoram entre três e seis semanas para fazer
efeito.
Sessões
com psicólogos ou psicanalistas funcionam bem como tratamento
coadjuvante. Em casos leves, apenas a terapia é suficiente.
Os homens sempre foram mais reticentes a ela, apesar de estudos
comprovarem que o apoio psicológico pode ajudá-los
a se recuperar mais rapidamente da doença. Quando procuram
ajuda, muitos deles relutam em expor seus sentimentos, a ponto de
o médico ser incapaz de diagnosticar a depressão.
Nos últimos cinco anos surgiram vários grupos de auto-ajuda
para depressivos formados só por homens. São organizados
nos moldes dos alcoólatras anônimos e dão bons
resultados. Hoje, recuperado, o empresário Waldemar Calil
Filho vê o tratamento com outros olhos. "Se eu soubesse que
os resultados eram tão bons, teria procurado ajuda antes",
diz ele.
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O
QUE PODE DETONAR A CRISE
Os
fatores que mais levam à depressão são
predisposição genética, personalidade
perfeccionista e experiências traumáticas,
como assalto, seqüestro, acidente ou perda de um
ente querido. Mas há diferenças entre
homens e mulheres
Eles
Perda do emprego ou da posição social,
aposentadoria, derrame ou infarto
Elas
Gravidez, pós-parto, menopausa, dificuldade
de conciliar trabalho, casamento e filhos
TRATAMENTO
Medicamentos
são a primeira opção. Os homens
reagem melhor aos remédios mais antigos, como
Tofranil e Anafranil, com maiores efeitos colaterais.
As mulheres se dão melhor com medicamentos modernos,
como Prozac e Zoloft. Sessões de psicoterapia
funcionam bem como tratamento coadjuvante para ambos
os sexos. Há grupos de auto-ajuda só para
homens em todo o Brasil
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