Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Saúde
A tristeza do macho

Os homens sofrem tanto de depressão
quanto as mulheres, mas para eles é
mais difícil admitir a angústia


Rosana Zakabi



Carol Quintanilha
O paulista Waldemar Calil Filho, de 56 anos, começou a sentir os primeiros sintomas de depressão oito anos atrás. Distanciou-se dos amigos, isolou-se da família e já não via graça em administrar seu salão de bingo na Grande São Paulo. O auge da crise foi há dois anos. "Cheguei a achar que não havia mais motivo para ficar vivo", diz. Por insistência da família, Calil procurou ajuda médica e hoje está recuperado. "Eu não acreditava em terapia, achava que era perda de tempo e que ninguém poderia me ajudar", conta ele.

Mais informações sobre depressão no VEJA Saúde

O paulista Waldemar Calil Filho sentiu que algo não ia bem com seu humor há oito anos, após se submeter a uma cirurgia cardíaca. Aos 48 anos, tarefas que antes lhe davam prazer, como administrar seu salão de bingo em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, pareciam cada vez mais árduas. Aos poucos, ele começou a se distanciar dos amigos e deixou de conversar com a família. Sua vida foi tomada por tristeza e angústia permanentes. No fim de 2001, isolado numa casa de praia, pensou pela primeira vez que não havia motivo para continuar vivo. Foi nessa época que, por pressão da família, Calil procurou a ajuda de um psiquiatra, que diagnosticou uma crise depressiva. "Eu sabia que havia algo errado, mas nunca imaginei que fosse depressão", diz Calil. Nesse sentido, seu comportamento foi tipicamente masculino. Os médicos estimam que quase 10 milhões de brasileiros sofram desse mal. A maioria deles é capaz de admitir que a vida perdeu a graça, mas só uma minoria ousa reconhecer que há algo errado com suas emoções. Isso seria visto como sinal de fraqueza, "coisa de mulher".

De fato, as estatísticas mostram que para cada homem há duas mulheres com depressão. A explicação estaria no fato de elas serem mais sujeitas a variações hormonais – menarca, parto, tensão pré-menstrual e menopausa. Os cientistas estão cada vez mais convencidos de que esses números não são confiáveis. Nesse caso, o que separa homens e mulheres não é a vulnerabilidade à depressão, mas a capacidade de admiti-la. Enquanto as mulheres vão ao médico nos primeiros sintomas da doença, os homens só procuram tratamento quando a depressão já está em estágio avançado. "Geralmente o homem chega ao consultório após a segunda ou a terceira crise", diz o neuropsiquiatra Rubens Pitliuk, de São Paulo. É quase natural que seja assim. Masculinidade, seja lá onde se viva, é entendida como uma manifestação de força, independência, eficiência e autocontrole. Essa é uma atitude de alto risco. De acordo com estimativas internacionais, os homens tentam o suicídio quatro vezes mais que as mulheres – e com maior possibilidade de sucesso. Enquanto as mulheres tomam de preferência uma dose alta de comprimidos e, em teoria, têm maiores chances de sobreviver, os homens adotam recursos radicais, como um tiro na cabeça.


O ator Perry Salles, de 64 anos, experimentou uma crise de depressão em 1988, após se separar da atriz Vera Fischer. Passou a beber até cair na sarjeta. "Percebi que a coisa era grave quando comecei a medir a distância da minha janela, no 10º andar do prédio, até a rua", conta. Ainda assim, não julgou necessário procurar ajuda médica. Perry passou mais de dez anos entre altos e baixos e hoje se considera recuperado. "Tive de largar tudo e mudar de vida para encontrar o equilíbrio de que precisava", diz ele. Fernando Martinho

"Eu sentia vontade de acabar com minha vida, mas pensava no futuro de minha família", conta Antônio, 68 anos, empresário mineiro que prefere não ser identificado. "Ficava imaginando uma forma de morrer de acidente de carro para minha mulher e meus filhos ficarem com o seguro de vida." Antônio teve a primeira crise de depressão há sete anos, depois que sua empresa de importação e exportação faliu e ele perdeu tudo que tinha. "No início, achava que estava apenas triste", diz ele. Passou a tomar calmantes sem prescrição médica, e o quadro piorou. Só procurou o psiquiatra um ano depois, por insistência de amigos. Antônio conseguiu manter a rotina do dia-a-dia enquanto sofria em silêncio. Nem sempre isso acontece. Muitos deprimidos buscam alívio no álcool ou nas drogas, o que só agrava o problema. Não é fora do comum que a infelicidade se traduza em irritação e violência. As diferenças de comportamento decorrem do fato de que, a exemplo da maioria dos distúrbios psicológicos, os quadros de depressão se manifestam de forma leve, moderada ou severa. Por isso, nem sempre a falta de reconhecimento da doença é uma decisão consciente.

Muitos homens vivem em estado de desânimo crônico – e se acostumam de tal forma com esse sentimento que acreditam que se trata apenas de uma característica de personalidade. O sentimento de culpa e a melancolia são constantes, mas os sintomas de depressão podem ser mascarados por curtos períodos de animação motivados por um namoro novo ou pela vitória do time favorito. Em pouco tempo, o entusiasmo é substituído pelo sentimento de decepção e frustração consigo e com os outros. No trabalho, não importa que seja considerado pelos colegas competente e diligente, o deprimido tende a se ver como alguém à beira de ser desmascarado como uma fraude.

A depressão tem forte componente hereditário, mas ninguém está livre de ser atingido. A crise pode ser detonada por um acontecimento objetivo, como a perda de um ente querido ou dificuldades profissionais. Nessas circunstâncias, só se torna preocupante quando se prolonga em demasia. O advogado paulista Carlos Alberto Brolio, de 55 anos, teve a primeira crise de depressão em 1980, acompanhada de síndrome do pânico, um surto de medo descontrolado. "Estava acabando de chegar do interior para trabalhar na capital, era muito perfeccionista e não admitia falhar", diz ele. Naquela época, a depressão masculina era tabu. "Ninguém tocava no assunto, nem os próprios médicos faziam um diagnóstico preciso", conta. Na ocasião, Brolio conseguiu superar o problema sozinho, sem tratamento. Dez anos depois, teve nova crise. Foi provocada por problemas profissionais. Dessa vez, procurou um psiquiatra e, depois de duas semanas de medicação, já estava bem melhor.

Acredita-se que a depressão seja causada por um desequilíbrio na química cerebral. Decorre de uma queda nos níveis de serotonina e noradrenalina, os neurotransmissores responsáveis pelas sensações de prazer e bem-estar. O desarranjo prejudica a memória e a concentração e provoca fortes alterações de humor. Os remédios são a primeira opção de tratamento em casos de depressão, pois têm a função de reequilibrar a química cerebral. Os mais antigos, como o Tofranil e o Anafranil, agem diretamente na serotonina e na noradrenalina. São aqueles com os maiores efeitos colaterais: boca seca, tremores, tontura, perda de libido, taquicardia e aumento de apetite, principalmente para doces. Os medicamentos mais modernos, lançados no fim da década de 80, agem apenas na serotonina, com menos efeitos colaterais. Os mais conhecidos são Prozac e Zoloft. A experiência de consultório mostra outra diferença entre os sexos. "Os homens reagem melhor com os medicamentos mais antigos, que são mais potentes nas depressões graves; as mulheres se dão melhor com os mais recentes", diz o psiquiatra Ricardo Moreno, coordenador do Grupo de Doenças Afetivas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. Em geral, os remédios demoram entre três e seis semanas para fazer efeito.

Sessões com psicólogos ou psicanalistas funcionam bem como tratamento coadjuvante. Em casos leves, apenas a terapia é suficiente. Os homens sempre foram mais reticentes a ela, apesar de estudos comprovarem que o apoio psicológico pode ajudá-los a se recuperar mais rapidamente da doença. Quando procuram ajuda, muitos deles relutam em expor seus sentimentos, a ponto de o médico ser incapaz de diagnosticar a depressão. Nos últimos cinco anos surgiram vários grupos de auto-ajuda para depressivos formados só por homens. São organizados nos moldes dos alcoólatras anônimos e dão bons resultados. Hoje, recuperado, o empresário Waldemar Calil Filho vê o tratamento com outros olhos. "Se eu soubesse que os resultados eram tão bons, teria procurado ajuda antes", diz ele.

 

O QUE PODE DETONAR A CRISE

Os fatores que mais levam à depressão são predisposição genética, personalidade perfeccionista e experiências traumáticas, como assalto, seqüestro, acidente ou perda de um ente querido. Mas há diferenças entre homens e mulheres

Eles
Perda do emprego ou da posição social, aposentadoria, derrame ou infarto

Elas
Gravidez, pós-parto, menopausa, dificuldade de conciliar trabalho, casamento e filhos

TRATAMENTO
Medicamentos são a primeira opção. Os homens reagem melhor aos remédios mais antigos, como Tofranil e Anafranil, com maiores efeitos colaterais. As mulheres se dão melhor com medicamentos modernos, como Prozac e Zoloft. Sessões de psicoterapia funcionam bem como tratamento coadjuvante para ambos os sexos. Há grupos de auto-ajuda só para homens em todo o Brasil

 

 


 
 
 
topo voltar