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Consumo
Nacional, mas importado
Antes
de elogiar ou criticar o vinho
nacional que você escolheu, dê uma
boa olhada no rótulo. Ele pode ser
argentino ou uruguaio

Fernanda Medeiros
J. Miranda
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Nas contas da União Brasileira de Vitivinicultura, a venda
de vinhos brasileiros aumentou 20% nos últimos cinco anos.
Como nem todos os produtores estavam preparados para atender a esse
crescimento do consumo, que passou dos 250 milhões de litros
no ano passado, a saída encontrada por alguns foi comprar
vinho da Argentina e do Uruguai para matar a sede dos brasileiros
mas com rótulos nacionais. A indicação
da verdadeira origem é mais visível em algumas garrafas,
menos em outras. Trata-se de uma troca em que nem sempre o consumidor
sai ganhando. Apesar da fama internacional recentemente celebrada,
com a produção de algumas safras excepcionais, o vinho
argentino não tem qualidade superior à do que se produz
no Brasil em todas as suas variedades. No caso da importação
do Uruguai, a desconfiança é ainda maior. "Esse tipo
de compra equivale a importar jogadores de futebol da Venezuela",
compara o presidente da regional paulista da Associação
Brasileira de Sommeliers, José Luiz Alvim Borges.
Pelo
menos em um aspecto, trazer vinho do exterior e rotulá-lo
com uma marca nacional tem uma vantagem para quem vai bebê-lo:
evita-se a baixa nos estoques e o conseqüente aumento de preço.
O grupo Pernod-Ricard, produtor dos vinhos Forestier e Almadén,
trouxe vinhos da Argentina em 1999, mas, diante de novo aumento
da demanda, optou por praticamente dobrar o preço de suas
garrafas. "Com isso estamos vendendo menos, mas ganhando mais dinheiro,
sem precisar fazer compras no mercado externo", diz Gustavo Zerbini,
gerente do grupo. Outro grande produtor, a Vinícola Aurora,
decidiu manter as importações e evidenciar no rótulo
a origem uruguaia indício de que se orgulha da qualidade.
"Nossos técnicos acharam vinícolas no Uruguai capazes
de fazer um cabernet sauvignon parecido com o nosso", afirma Carlos
Zanotto, diretor comercial da companhia. Neste ano, 700.000
garrafas da Aurora vieram do país vizinho. Para essa empreitada,
a vinícola montou uma estrutura própria além
da fronteira, em parceria com 25 produtores uruguaios. As garrafas
e os rótulos saem do Brasil. Uma empresa local faz os lacres
e as caixas de papelão. As rolhas vêm de Portugal.
Tudo para evitar desastres como o de 1996, quando, segundo Zanotto,
a companhia perdeu um contrato de exportação de 1
milhão de caixas para os Estados Unidos por falta de capacidade
de produção.
Um
detalhe que estimula essas importações é o
baixo custo da matéria-prima em países vizinhos. O
quilo da uva cabernet sauvignon custa 1,40 real no Brasil e 90 centavos
no Uruguai. Segundo Pedro Abar, diretor da empresa Product Audit,
que estuda o mercado de bebidas, a inexistência do imposto
de importação no Mercosul é outro ponto a favor
desse comércio. Existem operações semelhantes
com vários outros tipos de bebida em todo o mundo
como a importação de malte escocês para fazer
uísque em outros países, mas nem todos os fabricantes
de vinho gostam de alardear essa situação. Em 1998,
a Casa Vinícola De Lantier importou da Argentina 30 000 caixas
e avisou seus consumidores por meio de letrinhas miúdas.
"Claro que não era o mesmo vinho produzido no Brasil, mas
procuramos alternativas que se assemelhassem", afirma Cleber Andrade,
enólogo da companhia. "Numa safra desastrosa, o que devemos
fazer? Ter prejuízo?"
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