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Realeza
Um repórter na alcova real
Às
vésperas da visita de Bush, jornalista
de tablóide sensacionalista se faz passar
por criado da rainha durante dois meses
AP
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AFP
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| Bush
e a rainha Elizabeth II durante banquete e o repórter Ryan Parry
fotografado no palácio: escândalo |
As
inconfidências da criadagem fazem a festa dos tablóides
sensacionalistas da Inglaterra. Eles se deliciam com os escândalos
da realeza e estão sempre dispostos a desembolsar quantias
milionárias para ter exclusividade sobre as fofocas que funcionários
desleais têm para contar sobre os patrões. A novidade
da vez é que o Daily Mirror, um dos tablóides
mais aguerridos, conseguiu inovar na guerra pelos segredos de alcova.
Dispensou a ajuda dos serviçais infiéis e foi direto
à fonte mandou um de seus repórteres arranjar
emprego como servente do Palácio de Buckingham, a residência
oficial da rainha em Londres. O delicioso na história é
que o golpe funcionou. Onde estava o eficientíssimo serviço
secreto inglês que não procurou saber do passado do
candidato a emprego no palácio? Nem uma palavra. Conclusão
possível: qualquer um arruma emprego em Buckingham, um palácio
invadido anos atrás por um curioso que foi entrando, entrando
e, como ninguém lhe barrasse a invasão, acabou sentado
na beira da cama da rainha. Ela levou um grande susto ao ser acordada
pelo estranho, mas nada de mais aconteceu. Agora vem essa do repórter
zanzando pelos aposentos do palácio.
Na quarta-feira passada, o Daily Mirror publicou em quinze
páginas a experiência do jornalista Ryan Parry, que
passou dois meses como criado de sua majestade. Parry conta que
circulou livremente pelos corredores de Buckingham, entrou nos aposentos
íntimos e serviu o café-da-manhã à rainha
Elizabeth II. "Eu poderia ter envenenado a rainha", diz o jornalista
em seu artigo. É pura verdade. Impressiona como ele chegou
com tanta facilidade à alcova real exatamente no momento
em que, para receber a visita do presidente americano George W.
Bush, o governo inglês tinha adotado o que deveriam ser as
mais rigorosas medidas de segurança da história. Parry
afirma que, se tivesse continuado no palácio, teria servido
o café-da-manhã à assessora de Segurança
Nacional dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, e ao secretário
de Estado, Colin Powell. O jornalista também estava escalado
para servir um banquete em que estariam a rainha e o convidado George
W. Bush. Dias antes, Parry esteve no quarto em que o presidente
americano e sua mulher, Laura, ficariam hospedados. "Se eu fosse
um terrorista com a intenção de assassinar Bush, teria
conseguido, sem problemas", afirmou na reportagem.
Parry pediu demissão de Buckingham na terça-feira,
horas antes da chegada de Bush, exatamente para evitar um confronto
direto com o esquema de segurança. A família real
inglesa tem todos os motivos para desconfiar de seus serviçais
e sabe que está na alça de mira dos terroristas da
Al Qaeda e de seus velhos inimigos do IRA, o Exército Republicano
Irlandês. Mesmo assim, o repórter não teve dificuldade
em entrar para o serviço de sua majestade com informações
falsas. Parry obteve o emprego após responder a um anúncio
para a vaga de criado. No currículo, não incluiu a
atividade de jornalista: em vez disso, colocou uma referência
falsa. Em teoria, sua vida teria de ser investigada pelo serviço
secreto antes da contratação. Mas parece que foi suficiente
comprovar que ele não tinha antecedentes criminais. Bastaria
uma simples busca na internet para revelar uma lista de matérias
assinadas por ele no Daily Mirror. O jornalista obteve da
segurança real um crachá que dava acesso a todos os
aposentos. "Ninguém revistava as sacolas que eu carregava
na entrada e na saída do palácio", diz ele.
O vexame provocou mal-estar nos altos escalões. O primeiro-ministro
Tony Blair ordenou uma profunda revisão na segurança
do palácio. O ministro do Interior, David Blunkett, anunciou
que uma comissão vai investigar o caso e deverá apresentar
as conclusões sobre o episódio até o mês
que vem. O Palácio de Buckingham estuda a possibilidade de
processar o jornal e o repórter sob o argumento de que o
sigilo exigido de seus funcionários foi violado. Irônico,
o editor do Mirror, Piers Morgan, afirma que a reportagem
prestou um serviço à Inglaterra. "Não foi nada
sofisticado entrar no palácio. Pelo contrário, foi
fácil", disse ele.
A fragilidade da segurança no Buckingham não foi suficiente
para estragar a festa de Bush. Do lado de fora do palácio,
manifestantes organizaram um megaprotesto contra a visita do presidente,
que ignorou todos eles. Apesar das manifestações,
pesquisa feita pelo jornal inglês The Guardian mostrou
que a maioria dos ingleses está satisfeita com a política
dos Estados Unidos. Segundo o levantamento, 43% dos ingleses entrevistados
afirmaram estar satisfeitos com a visita de Bush e 62% consideravam
os Estados Unidos uma força do bem. Esses ingleses...
| Criados
que contam tudo por dinheiro
Ninguém
conhece a realeza como a criadagem, que tudo vê
e tudo ouve nos palácios. O problema é
quando esses criados resolvem transformar esse conhecimento
em dinheiro. Dois casos recentíssimos: Paul Burrell,
mordomo de Diana por dez anos, lançou um livro
com revelações picantes sobre a intimidade
da princesa. O tablóide Daily Mirror pagou-lhe
2,4 milhões de reais pelo direito de antecipar
trechos. George Smith, camareiro de Charles, vendeu
uma entrevista ao Mail on Sunday contando ter
visto o príncipe na cama com o mordomo (o dele,
não aquele outro que traiu a memória de
Diana).
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