Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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Realeza
Um repórter na alcova real

Às vésperas da visita de Bush, jornalista
de tablóide sensacionalista se faz passar
por criado da rainha durante dois meses

 
AP
AFP
Bush e a rainha Elizabeth II durante banquete e o repórter Ryan Parry fotografado no palácio: escândalo

As inconfidências da criadagem fazem a festa dos tablóides sensacionalistas da Inglaterra. Eles se deliciam com os escândalos da realeza e estão sempre dispostos a desembolsar quantias milionárias para ter exclusividade sobre as fofocas que funcionários desleais têm para contar sobre os patrões. A novidade da vez é que o Daily Mirror, um dos tablóides mais aguerridos, conseguiu inovar na guerra pelos segredos de alcova. Dispensou a ajuda dos serviçais infiéis e foi direto à fonte – mandou um de seus repórteres arranjar emprego como servente do Palácio de Buckingham, a residência oficial da rainha em Londres. O delicioso na história é que o golpe funcionou. Onde estava o eficientíssimo serviço secreto inglês que não procurou saber do passado do candidato a emprego no palácio? Nem uma palavra. Conclusão possível: qualquer um arruma emprego em Buckingham, um palácio invadido anos atrás por um curioso que foi entrando, entrando e, como ninguém lhe barrasse a invasão, acabou sentado na beira da cama da rainha. Ela levou um grande susto ao ser acordada pelo estranho, mas nada de mais aconteceu. Agora vem essa do repórter zanzando pelos aposentos do palácio.

Na quarta-feira passada, o Daily Mirror publicou em quinze páginas a experiência do jornalista Ryan Parry, que passou dois meses como criado de sua majestade. Parry conta que circulou livremente pelos corredores de Buckingham, entrou nos aposentos íntimos e serviu o café-da-manhã à rainha Elizabeth II. "Eu poderia ter envenenado a rainha", diz o jornalista em seu artigo. É pura verdade. Impressiona como ele chegou com tanta facilidade à alcova real exatamente no momento em que, para receber a visita do presidente americano George W. Bush, o governo inglês tinha adotado o que deveriam ser as mais rigorosas medidas de segurança da história. Parry afirma que, se tivesse continuado no palácio, teria servido o café-da-manhã à assessora de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, e ao secretário de Estado, Colin Powell. O jornalista também estava escalado para servir um banquete em que estariam a rainha e o convidado George W. Bush. Dias antes, Parry esteve no quarto em que o presidente americano e sua mulher, Laura, ficariam hospedados. "Se eu fosse um terrorista com a intenção de assassinar Bush, teria conseguido, sem problemas", afirmou na reportagem.

Parry pediu demissão de Buckingham na terça-feira, horas antes da chegada de Bush, exatamente para evitar um confronto direto com o esquema de segurança. A família real inglesa tem todos os motivos para desconfiar de seus serviçais e sabe que está na alça de mira dos terroristas da Al Qaeda e de seus velhos inimigos do IRA, o Exército Republicano Irlandês. Mesmo assim, o repórter não teve dificuldade em entrar para o serviço de sua majestade com informações falsas. Parry obteve o emprego após responder a um anúncio para a vaga de criado. No currículo, não incluiu a atividade de jornalista: em vez disso, colocou uma referência falsa. Em teoria, sua vida teria de ser investigada pelo serviço secreto antes da contratação. Mas parece que foi suficiente comprovar que ele não tinha antecedentes criminais. Bastaria uma simples busca na internet para revelar uma lista de matérias assinadas por ele no Daily Mirror. O jornalista obteve da segurança real um crachá que dava acesso a todos os aposentos. "Ninguém revistava as sacolas que eu carregava na entrada e na saída do palácio", diz ele.

O vexame provocou mal-estar nos altos escalões. O primeiro-ministro Tony Blair ordenou uma profunda revisão na segurança do palácio. O ministro do Interior, David Blunkett, anunciou que uma comissão vai investigar o caso e deverá apresentar as conclusões sobre o episódio até o mês que vem. O Palácio de Buckingham estuda a possibilidade de processar o jornal e o repórter sob o argumento de que o sigilo exigido de seus funcionários foi violado. Irônico, o editor do Mirror, Piers Morgan, afirma que a reportagem prestou um serviço à Inglaterra. "Não foi nada sofisticado entrar no palácio. Pelo contrário, foi fácil", disse ele.

A fragilidade da segurança no Buckingham não foi suficiente para estragar a festa de Bush. Do lado de fora do palácio, manifestantes organizaram um megaprotesto contra a visita do presidente, que ignorou todos eles. Apesar das manifestações, pesquisa feita pelo jornal inglês The Guardian mostrou que a maioria dos ingleses está satisfeita com a política dos Estados Unidos. Segundo o levantamento, 43% dos ingleses entrevistados afirmaram estar satisfeitos com a visita de Bush e 62% consideravam os Estados Unidos uma força do bem. Esses ingleses...

 
Criados que contam tudo por dinheiro

Ninguém conhece a realeza como a criadagem, que tudo vê e tudo ouve nos palácios. O problema é quando esses criados resolvem transformar esse conhecimento em dinheiro. Dois casos recentíssimos: Paul Burrell, mordomo de Diana por dez anos, lançou um livro com revelações picantes sobre a intimidade da princesa. O tablóide Daily Mirror pagou-lhe 2,4 milhões de reais pelo direito de antecipar trechos. George Smith, camareiro de Charles, vendeu uma entrevista ao Mail on Sunday contando ter visto o príncipe na cama com o mordomo (o dele, não aquele outro que traiu a memória de Diana).

 
 
 
 
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