Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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Ministério
Ministras virtuais

O Brasil descobre que tem uma
ministra chamada Matilde Ribeiro,
oito meses depois de sua posse


Alexandre Oltramari


Paulo Libert/AE
Lula e Matilde: política de igualdade racial e ameaça de perder cargo

O governo planeja, há meses, promover uma reengenharia na Esplanada dos Ministérios. Vai extinguir uma parte dos 35 ministérios, um recorde na história republicana, pretende fundir algumas pastas e deve se livrar de alguns colaboradores. O primeiro escalão do governo petista é tão grande que o presidente tem optado por realizar as reuniões ministeriais na Granja do Torto, um lugar mais amplo que o tradicional salão oval do Palácio do Planalto, que tem apenas 39 lugares. É ministro demais. Todos, é óbvio, têm alguma função que pode ser considerada importante, mas acabam, por falta de estrutura, relegados a uma condição apenas simbólica. Na semana passada, o presidente Lula foi ao interior de Alagoas participar do lançamento da Política Nacional de Promoção à Igualdade Racial – um documento de catorze páginas que resume uma série de boas intenções para tratar a questão da discriminação no Brasil. Na festa, a maioria dos brasileiros descobriu que o projeto foi elaborado pela equipe de Matilde Ribeiro, uma senhora de 43 anos que estava ao lado do presidente no palanque e que vem a ser ministra da Secretaria de Igualdade Racial.


Jose Paulo Lacerda/AE
Emília Fernandes: sem estrutura, esforça-se para aparecer nas solenidades


Filha de uma empregada doméstica e de um vigia, a ministra, a exemplo da colega Benedita da Silva, é um caso notável de mobilidade social. Nascida no interior de São Paulo, Matilde começou a trabalhar aos 12 anos como empregada doméstica, foi metalúrgica aos 14 e recepcionista aos 17. Teve chance de tentar uma carreira artística. Um dia, Matilde caminhava por uma rua de São Paulo e foi abordada por um senhor grisalho. "Você é uma negra muito bonita. Poderia ganhar a vida dançando", disse. O galanteador era o empresário carioca Oswaldo Sargentelli, já falecido, famoso promotor de shows de mulatas nas noites cariocas. Matilde recusou o convite, ingressou num curso de serviço social e militou no movimento negro. Hoje, em Brasília, ela comanda um ministério virtual, com uma equipe de 35 pessoas, sem um tostão de orçamento próprio. Para viajar, precisa de autorização e recursos da Presidência da República.

Desde a posse, Matilde teve apenas duas audiências com o presidente. Com a proximidade da reforma ministerial, ela deve ser uma das assessoras do governo a perder o status de ministro. "Seria um retrocesso", diz ela. "Esse ministério é diferente. Nossa ação é política, simbólica. É ficar lembrando o governo de que é preciso fazer algo pelos negros", diz a ministra, que obteve a primeira vitória no terreno das ações concretas. O presidente Lula assinou um decreto regularizando as terras de 740 comunidades remanescentes de quilombos no país. Outra ministra virtual com o cargo ameaçado é Emília Fernandes, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. Em onze meses de mandato, ela tem marcado sua gestão por insistentes pedidos para acompanhar Lula em viagens presidenciais. Como se sabe, Emília não é negra nem tem relação alguma com as comunidades quilombolas, mas estava lá, firme e forte, junto com Lula e Matilde, na solenidade em Alagoas.

 
 
 
 
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