Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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Partidos
Presidente tucano

Depois de perder as eleições à Presidência da
República, José Serra volta como líder do PSDB


Alexandre Oltramari

Revoada tucana
Em 1998, o PSDB tinha 115 parlamentares no Congresso. Hoje são apenas 62
Depois de um exílio voluntário nos Estados Unidos, na semana passada o ex-senador José Serra voltou à política para disputar sua segunda eleição presidencial em pouco mais de um ano. Candidato a presidente da República em 2002, ele foi derrotado por Lula por uma diferença de 19 milhões de votos. Na sexta-feira, José Serra foi aclamado presidente do PSDB. Um político de biografia invejável como ele – nos últimos vinte anos foi secretário de Estado, deputado, senador e ministro – assumir a presidência de um partido que só fez encolher em tamanho e poder nos últimos tempos pode parecer uma volta por baixo. É quase isso. Antes de decidir concorrer à liderança dos tucanos, Serra estudou minuciosamente suas chances de concorrer à prefeitura de São Paulo no ano que vem. Concluiu que havia riscos reais de uma nova derrota, o que não seria nada bom para a imagem de quem sonha disputar outra vez a Presidência da República. Além disso, sem mandato algum, ficaria condenado ao limbo até as eleições de 2006. A liderança de um partido de oposição, além de visibilidade, vai dar ao ex-senador a chance de retomar sua obsessiva busca de poder.

José Serra mudou-se para os Estados Unidos em janeiro. Alguns amigos diziam que ele iria descansar, pensar no futuro e dar aulas na Universidade Princeton, em Nova Jersey. O ex-senador era pesquisador-visitante no Instituto de Estudos Avançados, uma entidade que tem vínculos com a prestigiada universidade americana, mas não chegou a lecionar em Princeton. Consumia boa parte de seu tempo preparando sua volta à política brasileira. Conhecido pelos hábitos noturnos e pela mania de se comunicar por meio de bilhetes manuscritos, Serra aprendeu a usar o correio eletrônico durante sua temporada americana. Diariamente, acompanhava o noticiário político brasileiro pela internet. À noite, disparava dezenas de mensagens e telefonemas aos amigos e aliados políticos no Brasil. Certa vez, o tucano telefonou para o deputado federal petista Sigmaringa Seixas, seu velho conhecido, sugerindo que o PT preservasse alguns programas do Ministério da Saúde que considerava importantes. Também fazia sugestões e críticas à política econômica – mau hábito que ele já tinha quando era ministro do governo Fernando Henrique. Sigmaringa Seixas ouvia tudo com atenção e dizia que encaminhava as observações ao governo.

Os estudos americanos ficaram definitivamente em segundo plano a partir de março, quando os tucanos começaram a discutir o comando do PSDB. Serra aproveitava os intervalos entre as pesquisas e as palestras na universidade para vir ao Brasil cuidar de política e mantinha conversas diárias com o líder dos tucanos na Câmara, Jutahy Junior. Sondado para ocupar o cargo, o ex-ministro fez duas exigências. A primeira era que o PSDB adiasse a data de sua convenção nacional, que deveria ter ocorrido em abril. A outra, bem mais difícil de ser atendida, era que não houvesse nenhum veto ao seu nome. Um dos maiores focos de resistência vinha de Minas Gerais, onde Aécio Neves, assim como Serra, postula a candidatura do partido à Presidência em 2006. Serra visitou o governador mineiro quatro vezes. Jurou que, ao decidir comandar o partido, seu projeto seria, no máximo, uma eventual candidatura ao governo de São Paulo. Aécio fez de conta que acreditou. Nos últimos dois meses, o ex-presidente Fernando Henrique, a pedido do governador Geraldo Alckmin, organizou três jantares na ala reservada do Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, para buscar consenso entre Aécio Neves, Alckmin, outro potencial candidato, e Serra. Conseguiu o compromisso de um armistício.

A trajetória de José Serra após a derrota no ano passado em muito se parece com a de Al Gore, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos que perdeu as eleições para George W. Bush em 2000. Assim como Serra foi apoiado por FHC, Gore recebeu o apoio do presidente Bill Clinton. Tal como Serra, Gore foi responsabilizado pela derrota até entre os próprios partidários. Muitos de seus correligionários disseram que ele havia cometido um erro ao tentar se distanciar de Bill Clinton por causa das divergências com o presidente – assim como Serra no caso da política econômica de Fernando Henrique Cardoso. Outra crítica freqüente a Gore era sua inabilidade para comandar equipes. O ex-vice tinha uma imensa trupe de estrategistas, mas não confiava em ninguém. Preferia, na maioria das vezes, seguir um caminho oposto ao combinado com seus conselheiros. Assessores de Serra tinham as mesmas reclamações e chegam a apontar essa característica de personalidade do ex-senador como letal na campanha.

Depois da derrota, Gore também submergiu e se dedicou a dar aulas em três universidades. Chegou a deixar a barba crescer. Serra, se fizesse isso, ficaria parecido com o popular Enéas. Gore aproveitou a ressaca da derrota para escrever um livro. Serra, antes de viajar, anunciou que um de seus projetos era também escrever um livro. Ninguém acreditava que Gore, depois de mais de vinte anos de carreira política, o mesmo tempo que Serra, tivesse a mínima intenção de desistir da política. Ele resolveu voltar no clímax da crise gerada pelos atentados de 11 de setembro. Criticou a política de Bush na hora errada e foi repreendido pelos democratas. Mergulhou de novo no ostracismo. Serra agora tem pela frente a missão de reorganizar um partido que não sabe ainda como se comportar na oposição. "O principal desafio dos tucanos é ressaltar as diferenças que existem em meio a tantas semelhanças", diz o cientista político Marcos Coimbra, do Vox Populi. O PSDB pretende deixar de ser um partido de elite e formar frentes com quadros de setores mais populares. Depois de o PT adotar uma cartilha parecida com a tucana, agora é o PSDB que vai tentar ser um pouco petista, criticando de maneira mais dura o governo de Lula. Sem barba, Serra e Al Gore têm muito em comum.

 
 
 
 
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