Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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Alca
34 cabeças e
nenhuma sentença

A reunião de Miami só serviu para
não deixar a Alca morrer, mas a
faxina tarifária ainda não foi feita


Eduardo Salgado


AP
Amorim (de branco) com os outros 33 negociadores da Alca em Miami

Em Profundidade: Alca e comércio exterior

Os 34 países que discutem a criação da Alca, a Área de Livre Comércio das Américas, uma região com cerca de 800 milhões de habitantes e um PIB total de mais de 12 trilhões de dólares, chegaram a um acordo sobre como continuar negociando. É um avanço tendo em conta o impasse em que se encontravam os debates. Mas é muito pouco quando se sabe que a remoção do lixo tarifário é um dos mais poderosos mecanismos de criação de riqueza das economias modernas. Na quinta-feira à noite, um dia antes da previsão de encerramento da reunião em Miami, os ministros de 34 países do continente anunciaram o consenso sobre a necessidade de continuar negociando. Quando a Alca foi lançada, em 1994, também em Miami, o plano era criar uma área de livre-comércio que faria do continente uma área de eficiência econômica em que governos promoveriam um ambiente econômico interno que ajudaria as empresas de cada país a competir, oferecendo o melhor produto pelo menor preço. Está-se a anos-luz dessa solução. Na semana passada, em Miami, os representantes dos países acertaram apenas que vão trabalhar numa base mínima de entendimento continental, abrindo a porta para acordos bilaterais que, historicamente, atendem apenas aos lobbies internos que não apontam para a desejada liberalização universal do comércio. "Melhor uma Alca assim do que nada. Mas, do jeito que está, ela atrasa e distorce o processo de abertura econômica no Brasil", diz Edward Amadeo, ex-ministro do Trabalho do governo FHC e economista da consultoria Tendências.


Reuters
Polícia reprime manifestantes anti-Alca: sem conseqüências

Em Miami, surpreendentemente, tanto Robert Zoellick, o representante americano, quanto Celso Amorim, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, tinham interesse comum no sucesso da reunião. Para Zoellick, um fracasso em casa seria demais depois do colapso da reunião da OMC em Cancún, em setembro. O interesse do Brasil era demonstrar que não é contra o livre-comércio e está disposto a negociar. Do ponto de vista diplomático, Zoellick e Amorim saíram de Miami com a sensação de vitória, já que, pelo menos, se conseguiu chegar a um consenso sobre o modelo das rodadas futuras de debates. "Foram as divergências sobre esse modelo que emperraram as negociações no passado", diz Marcos Sawaya Jank, presidente do Icone e um dos mais respeitados especialistas brasileiros em comércio exterior.

Mesmo não sendo obviamente uma solução mágica, o livre-comércio tem forte relação com o crescimento econômico global. Como a natureza, que tem compromisso com a manutenção da vida na Terra, mas não com o destino de um ser vivo em particular, a liberalização do comércio exige ajustes internos dos países para que se beneficiem do processo. Há algumas semanas, o empresário Antônio Ermírio de Moraes, do Grupo Votorantim, disse com acerto que a maior ameaça ao Brasil na Alca "não vem de Washington, mas de Brasília". Antônio Ermírio se referia ao emperramento da economia brasileira pelos impostos, pelas taxas e pela burocracia estatal, que tornam a concorrência externa um risco para as empresas nacionais. Entre aderir a acordos internacionais de liberalização do comércio e atender aos interesses locais, todos os governos, mesmo o americano, que se apresenta como campeão mundial do liberalismo, tendem a levar em conta seus lobbies. "Em um ano eleitoral como será 2004, vai ser difícil o Congresso americano ter boa vontade com acordos de livre-comércio. Os democratas já vestiram a camisa do anticomércio, e os republicanos, mesmo contra suas convicções teóricas, devem ficar com o eleitorado que teme a concorrência externa", disse a VEJA o indiano Jagdish Bhagwati, professor da Universidade Columbia, em Nova York.

 

 
 
 
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