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BNDES
A última do doutor Lessa
Sem consulta a ninguém, e na contramão
do governo, o BNDES abre espaço para a
reestatização da Vale do Rio Doce

Ronaldo
França
O presidente
do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Carlos
Lessa, e seu vice, Darc Costa, são incansáveis. Quando
se pensava que em sua gestão já se havia visto de
tudo em matéria de confusão, eles se superaram. Num
movimento que pegou de surpresa o mercado e, pior, todo o
governo , o BNDES recomprou 8,5% das ações da
Valepar, que detém o controle acionário da Companhia
Vale do Rio Doce, uma das maiores mineradoras do mundo, privatizada
em 1997. Mais surpreendente do que a operação, que
custou 1,5 bilhão de reais, foi a justificativa. A compra
teria sido uma forma de impedir que a companhia venha a ser controlada
por estrangeiros, no futuro. A estratégia imaginada pelo
comando do maior banco de fomento da América Latina para
blindar a Vale contra o que considera os interesses nefastos do
capital internacional foi garantir mais um assento no conselho de
administração da Valepar. Assim, o BNDES passou a
ter duas cadeiras no conselho. Pela lógica da dupla, seis
dos onze assentos estariam direta ou indiretamente nas mãos
do governo, já que a Previ, fundo de pensão dos funcionários
do Banco do Brasil, detém quatro.
Tasso Marcelo/AE
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| Darc
Costa: contra o capital externo |
A empreitada não podia ter sido mais infeliz. A operação
foi interpretada pelo mercado, atento a tudo o que acontece com
a Vale, como um movimento de retomada do controle de empresas privatizadas
pelo governo. Ou seja, o início de um deslocado processo
de reestatização de empresas no Brasil. Só
isso já seria ruim para a credibilidade do país, uma
vez que tal intenção vai na contramão de toda
a política econômica do governo Lula. Mas é
na análise em detalhe que a operação se mostra
como realmente é: um amontoado de equívocos ideológicos
e operacionais que a tornam incompreensível sob qualquer
ponto de vista.
Em
primeiro lugar, não é função do BNDES,
que teve neste ano 34 bilhões de reais para investir no país,
resgatar empresas nacionais das mãos do "malvado" capital
estrangeiro. Seu papel é de fomento e sua meta deve ser aumentar
a capacidade produtiva nacional. E, só para citar um compromisso
de campanha do presidente Lula, gerar empregos. Nada disso está
contemplado nesse negócio representado pelo reavanço
estatal sobre a Vale do Rio Doce. Também é de assustar
a idéia de que a Previ possa servir às estratégias
de Lessa e Darc, os barões do Brasil estatal. A razão
da existência da Previ é garantir a seus associados
uma pensão mensal e um pacote de serviços, tais como
assistência médica. Foi para isso que os funcionários
do Banco do Brasil fizeram contribuições durante toda
a sua carreira. Para que o retorno esteja assegurado, são
necessários investimentos bem-sucedidos. "Depreende-se que,
para atender a objetivos estratégicos do setor público,
a Previ seguirá a orientação do BNDES e eventualmente
votará no conselho da Vale contra seus próprios interesses",
diz Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central e sócio
da consultoria Tendências. Se era esse o objetivo, a Previ
poderia pelo menos ter sido avisada. Não foi.
A
operação também se mostrou financeiramente
desvantajosa. As ações foram compradas um ano após
ter sido vendidas pelo próprio BNDES pela metade do preço
pago agora. Além disso, o banco pagou pouco mais de 10% de
prêmio pelo controle acionário, o que no caso da Vale
do Rio Doce pode ser inócuo. Pelo acordo de acionistas da
Valepar, decisões como fusão, aquisições,
incorporações e vendas de participação
só podem ser tomadas se representarem a vontade de 75% do
controle acionário. BNDES e Previ juntos têm apenas
59,4% das ações com direito a voto. Portanto, insuficientes
para esse tipo de deliberação ainda que fosse
concretizada a suposição de que o fundo de pensão
e o banco votassem em bloco. Além disso, mesmo nas questões
do dia-a-dia, a nova posição acionária do BNDES
pouco vai adiantar. Já é tradição na
empresa que todas as decisões importantes sejam tomadas na
reunião dos sócios, que antecede as reuniões
do conselho da Valepar. Além disso, não se sabe bem
de onde saiu a idéia de que há grupos estrangeiros
interessados em tomar o poder na companhia. É verdade que
uma empresa japonesa, a gigante Mitsui, adquiriu recentemente ações
da Vale do Rio Doce. Mas trata-se de uma multinacional com investimentos
em outras 600 empresas ao redor do mundo e nada indica, neste momento,
que tenha planos de investir no controle da Vale. Por fim, o governo
federal dispõe de um mecanismo mais eficiente para interferir
nos rumos da companhia. Tem em seu poder uma golden share, ação
com poderes especiais de veto em caso de não concordar com
decisões estratégicas.
Marcio Vasconcelos
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José Paulo Lacerda/AE
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Ed Ferreira/AE
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| Mantega
e Furlan: atropelados em medida que pode permitir a volta do
governo a Carajás (no alto) |
A trapalhada
acabou gerando mais um desgaste para o governo. O presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, em reunião ministerial programada
para discutir política industrial, cobrou explicações
de Lessa. O que se seguiu no encontro foi um pito presidencial.
Lula fez ver que um movimento como esse pode dar ao mercado (como
realmente deu) a sensação de que o governo pretende
reestatizar companhias já privatizadas. Advertiu que se devem
levar em conta os resultados da empresa e do fundo de pensão.
E, principalmente, mostrou-se contrariado pelo fato de seus ministros
não terem sido consultados. No mínimo, deveriam ter
sido ouvidos os ministros Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento,
que é o superior hierárquico de Lessa, e Guido Mantega,
que assim como Furlan integra o conselho de administração
do banco. Ambos souberam da decisão dos doutores Lessa e
Darc pelos jornais. Na semana seguinte à reunião,
o BNDES fez circular a versão segundo a qual a operação
teria sido comunicada ao ministro-chefe da Casa Civil, José
Dirceu. O resultado foi novo constrangimento. Afinal, por que avisar
o ministro da Casa Civil, e não Furlan? Essa foi mais uma
demonstração do notável desapreço de
Lessa pela hierarquia. Desde o início do governo, foram escancaradas
suas divergências com Furlan, mas nada justifica que, quase
um ano após assumir o cargo, o presidente do BNDES continue
ignorando a quem deve se reportar.
O
economista Carlos Lessa, 67 anos, é um acadêmico que
defende com oratória inflamada o ideário nacional-desenvolvimentista
que dominou o pensamento econômico nas décadas de 50
e 60. Já em sua chegada, Lessa sinalizou que a atuação
do banco sofreria mudanças bruscas quando afirmou que o BNDES
é um banco de desenvolvimento e, como tal, não tem
de se prender a análises de risco. Funcionário de
carreira do BNDES desde 1975, o engenheiro Darc da Luz Costa afastou-se
do banco na década de 90. Antes de retornar, trabalhava na
Escola Superior de Guerra, experiência que ajuda a explicar
sua visão avessa à presença de estrangeiros
em setores como a siderurgia e a mineração, considerados
pelos militares como o âmago de qualquer estratégia
de segurança nacional.
Antes
de partirem para a retomada da Vale do Rio Doce, Lessa e Darc já
haviam protagonizado outras bravatas nacionalistas. Logo de saída,
Lessa frisou que o BNDES poderia perfeitamente voltar a exercer
o papel de hospital de empresas. O banco assumiria o controle de
companhias em situação falimentar, as recuperaria
para depois encontrar um novo dono no mercado. Uma política
que, no passado, se provou equivocada e fez do BNDES proprietário,
entre outras coisas, de motéis e fábricas de lingerie.
Algum tempo depois, a dupla deixou no ar a idéia de que não
descartaria uma eventual estatização da Varig. O mercado
arrepiou-se.
Enquanto
davam caneladas em campo, os craques do BNDES também bagunçavam
o vestiário. Logo nos primeiros meses de sua gestão,
Lessa instituiu um curso de pós-graduação para
os novos funcionários que em tudo se choca com a política
econômica defendida pela área econômica do governo.
Entre outras coisas, o curso é ministrado pelos professores
do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
uma igreja que inclui entre os inúmeros pecados do capitalismo
o livre mercado, a concorrência e o Estado mínimo.
Lessa também promoveu uma reforma que virou o banco de cabeça
para baixo. Reduziu de 27 para onze as superintendências,
mudando todos os profissionais que as ocupavam, ao mesmo tempo que
trocou os gerentes. Acabou paralisando a máquina. Neste último
trimestre, a direção corre para desembolsar 12 bilhões
de reais e cumprir seu orçamento bem, pelo menos nisso
a operação Vale teve alguma utilidade. Neste momento,
o banco enfrenta outra situação esdrúxula.
Em uma negociação com os funcionários, a diretoria
queria o direito de nomear pessoas de fora do quadro da instituição
para as representações nos Estados. Em troca, aceitou
pagar 13% de aumento e um salário bruto de bonificação
a cada funcionário. Depois de assinado, o acordo foi registrado
no Ministério do Trabalho. O problema é que o BNDES
é uma estatal e, como tal, tem sua política de pessoal
conduzida pelo Departamento de Coordenação e Controle
das Empresas Estatais (Dest), do Ministério do Planejamento.
Criou-se o impasse. O Dest não aceita o salário de
bônus. Os empregados querem cobrar na Justiça o acordo,
o que deverá ocorrer nesta semana. É mais um pepino
plantado em meio a uma lavoura de abacaxis.
Mas
Lessa não se dá por vencido. Na semana passada, o
BNDES informou oficialmente que pretende impedir a Vale do Rio Doce
de vender suas ações na Companhia Siderúrgica
de Tubarão ao grupo europeu Arcelor, que já é
sócio da CST, tem a opção de compra e pode
exercê-la em 2007. Lessa defende que a Vale continue na CST
e verticalize cada vez mais sua produção. A metralhadora
verbal também anda em forma. Num seminário recente
sobre parcerias público-privadas, o presidente do BNDES criticou
duramente o resultado das privatizações e se referiu
ao investimento estrangeiro como Godot, o personagem da peça
Esperando Godot, de Samuel Beckett, que nunca chega. Na mesma
ocasião, disse que a China "não é um projeto
de mercado", negando que o espantoso desempenho do país que
mais cresce no mundo tenha relação com o apoio à
livre iniciativa que passou a nortear o governo de Pequim.
O
preocupante em idéias como essas não é tanto
o barulho que elas podem produzir. O que realmente pode afugentar
os investidores internacionais é o assombroso silêncio
do Planalto diante dos desvarios de Lessa. Quem acompanha de perto
os movimentos do governo Lula acredita que não haja planos
de afastá-lo do comando do BNDES na seqüência
da reforma ministerial. Seu arco de apoio junto a Lula tem a base
fincada no prestígio dos economistas Maria da Conceição
Tavares e Celso Furtado. E o próprio Lessa tem relacionamento
pessoal com o presidente. Se levou uma reprimenda, isso não
anulou a operação nem anulou seu efeito negativo.
Falta, portanto, ao governo pronunciar-se oficialmente sobre suas
verdadeiras intenções quanto aos rumos do BNDES. Justiça
seja feita, Lessa não esconde as dele.
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