Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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Diogo Mainardi
A tunga do Estado

"Palocci declarou que o Estado gasta mais com os ricos do que com os pobres. Pelos cálculos
paloccianos, eu sou rico. Estranho. Nunca recebi nada do Estado. Nunca recebi segurança.
Nunca recebi transporte. Nunca recebi saúde.
Nunca
recebi educação"

Querem tomar meu dinheiro. Não tenho nada contra. Querendo tomar, tomem. O que me incomoda é que mintam para mim. Que tentem me enrolar. Outro dia o ministro Palocci declarou que o Estado gasta mais com os ricos do que com os pobres. Os jornais acreditaram nele. Publicaram a notícia na primeira página, acompanhada por entrevistas com especialistas que corroboraram a teoria do governo. Ninguém contestou as estatísticas fornecidas pelo ministro. Ninguém me alertou de que elas eram uma armadilha para tomar meu dinheiro.

Pelos cálculos paloccianos, eu sou rico. Qualquer um que ganhe mais de 8.000 reais por ano é considerado rico. Trata-se de um truque estatístico. Para o governo, é conveniente ignorar a diferença entre classe alta e classe média. Porque, se a classe média é incluída na categoria dos ricos, fica mais fácil aumentar-lhe os impostos. De acordo com o governo, eu, sendo rico, recebo mais do Estado do que os pobres. Estranho. Eu nunca recebi nada do Estado. Nunca recebi segurança. Nunca recebi transporte. Nunca recebi saúde. Nunca recebi educação. Paguei tudo do meu próprio bolso.

O sofismático ministro Palocci afirmou, por exemplo, que os ricos recebem do Estado o ensino superior. E que um universitário brasileiro custa muito mais do que um universitário europeu. Ele só esqueceu alguns detalhes. Primeiro: os europeus recebem do Estado não apenas o ensino superior, mas também o ensino fundamental e o médio. Segundo: as universidades públicas européias oferecem vagas a todos os alunos, não só a uma minoria. Terceiro: os brasileiros ricos conquistam a maior parte das vagas nas universidades públicas porque estudam em escolas particulares, muito melhores do que as escolas que o Estado oferece aos mais pobres.

Outra ilusão estatística do documento ministerial foi misturar, no cálculo do gasto social, as aposentadorias públicas com as privadas. Já há progressividade na aposentadoria do setor privado. Já há mecanismos de distribuição de renda. Já há um confisco brutal por parte do Estado. Os aposentados ricos do setor privado ganham muito menos do que sua contribuição. Se os aposentados ricos fossem considerados isoladamente, sem os aposentados do setor público e sem os aposentados rurais, seria fácil perceber que eles dão mais do que recebem. E que as distorções na previdência não são causadas por eles.

O ministro Palocci quer aumentar a arrecadação e diminuir as despesas. Os números divulgados por ele justificam a cobrança de mensalidades nas universidades federais. Tudo bem. Concordo. Só que os professores não podem continuar a ganhar aposentadorias públicas. Se eu pago mensalidade, é porque a universidade é privada. Deve ser tratada como tal. O ministro Palocci também quer diminuir as deduções com gastos em saúde, nas declarações de imposto de renda. Nenhum problema. O Estado não precisa me conceder favores. Eu nunca vou recorrer a um hospital público. Estou disposto a pagar dobrado para ser atendido num hospital particular. Só acho um pouco injusto ter de pagar, além disso, a CPMF, um imposto supostamente destinado à saúde. Se o Estado abdica do dever de tratar de minha saúde, deve abdicar também de parte do meu dinheiro.

O Estado não dá nada aos pobres. E não dá nada aos ricos. Quem afirma o contrário está mentindo. A luta de classes no Brasil não é entre ricos e pobres. É entre o Estado e a sociedade.

 
 
 
 
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