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Entrevista:
Douglass
North
Para
um país enriquecer
Prêmio Nobel de Economia afirma
que só vão progredir os países que
desenvolverem instituições sólidas

Monica
Weinberg
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AP

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"O
Brasil largou em desvantagem na corrida porque herdou
de Portugal um modelo ineficiente de país" |
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Várias
correntes de pensamento já explicaram por que alguns países
enriqueceram e outros permanecem no atraso. Para o professor americano
Douglass North, 83 anos, vencedor do Nobel de Economia em 1993,
as nações prosperam quando seus governantes se guiam
por duas preocupações fundamentais. Uma delas é
garantir a competição entre as empresas. A outra é
fortalecer as instituições. Para North, a competição
e as instituições são fatores de desenvolvimento
mais importantes que as riquezas naturais, o clima favorável
ou a agricultura. Nesta entrevista, North conta que nos tempos do
faroeste os Estados Unidos já tinham leis claras para assegurar
o direito de propriedade e o cumprimento dos contratos. Em países
como o Brasil até hoje há falhas nesse sistema. Para
ele, a única chance que os países têm de dar
um salto é transformando suas instituições.
Douglass North estará no Brasil no mês que vem.
Veja A renda per capita dos Estados Unidos e a
do Brasil eram idênticas em 1800. Um século mais tarde,
os americanos haviam deixado os brasileiros lá atrás.
Hoje, essa diferença de renda é da ordem de quinze
vezes. O que aconteceu?
North Há várias explicações
para o fenômeno do distanciamento de renda entre Estados Unidos
e Brasil, mas gosto de me concentrar numa delas: as chamadas instituições.
Nenhum país consegue crescer de forma consistente por um
longo período de tempo sem que antes desenvolva de forma
sólida suas instituições. Quando uso a palavra
instituição, refiro-me a uma legislação
clara que garanta os direitos de propriedade e impeça que
contratos virem pó da noite para o dia. Refiro-me ainda a
um sistema judiciário eficaz, a agências regulatórias
firmes e atuantes. Só assim, com instituições
firmes, um país pode estar preparado para dar o salto qualitativo,
mudar de patamar. Olhe para os Estados Unidos do século XIX.
Embora estivessem nos tempos do faroeste, os americanos já
possuíam leis sofisticadas que asseguravam a liberdade religiosa,
o direito ao habeas-corpus, o direito à propriedade privada
e a certeza coletiva de que, se assinassem um contrato, ele seria
cumprido. Com isso, os proprietários de terra e os donos
das firmas se sentiam estimulados a investir em novas tecnologias
e em mão-de-obra. Daí o aumento estratosférico
de produtividade americana. No Brasil e no resto da América
Latina, a história foi outra.
Veja
Por
que as instituições na América Latina registram
esse atraso histórico?
North
Nesses países, as instituições eram frágeis
demais para criar uma engrenagem positiva que empurrasse a economia.
México, Brasil e Argentina sempre tiveram recursos naturais
suficientes para se tornar nações ricas. O atraso
institucional deixou esses países para trás. Há
uma relação direta entre as instituições
existentes nas metrópoles e o tipo de desenvolvimento que
as colônias tiveram nesse campo. Quando chegaram ao Novo Mundo,
os europeus carregavam sua variada cultura institucional. Os países
da América Latina importaram seu modelo de Portugal e da
Espanha e por isso largaram em desvantagem. A Península Ibérica
colecionava instituições ineficientes, que não
tinham calibre nem maturidade para estimular o crescimento econômico.
Já os americanos foram fartamente influenciados pela Inglaterra
e, sob a carga genética das instituições inglesas,
tiveram como fonte um sistema bem mais moderno.
Veja O senhor poderia dar um exemplo?
North Tome-se o caso da gestão das contas públicas
hoje um assunto tão em voga para comparar os
países da Europa de quatro séculos atrás. Em
Portugal e na Espanha, os reis tinham poder absoluto e sustentavam
a nobreza perdulária mesmo quando a renda vinda das colônias
murchava. Depois disparavam nos impostos sobre o povo, que vivia
num clima de incertezas, sem saber o que esperar para o futuro próximo.
Parece familiar com o que vemos atualmente em muitos dos países
da América Latina, não é? Veja como o quadro
era diferente na Inglaterra do século XVII. O poder de autorizar
as despesas do rei e de lançar tributos era atribuição
do Parlamento, e, além disso, havia o banco inglês,
que fazia auditoria nas finanças públicas. Um modelo
sofisticado que resultou em avanços na Inglaterra e, mais
tarde, nos Estados Unidos.
Veja Como o senhor explica então o fato
de a Índia, outra ex-colônia da Inglaterra, até
hoje não ter conseguido chegar nem perto dos Estados Unidos?
North A
história mostra que o grau de assimilação das
instituições européias por parte das colônias
variou muito de um país para o outro. Os melhores estudos
na área enfatizam uma associação direta entre
o nível de absorção das instituições
vindas da Europa e a maneira como a população nativa
recebeu os colonizadores. Quanto mais refratária a população
local, menor era o raio de influência européia. Na
Índia, por exemplo, a gigantesca massa de indianos aceitou
apenas moderadamente a sólida herança institucional
britânica. Eles desenvolveram bem suas leis em relação
à propriedade privada, mas até hoje têm instituições
capengas, porque ficaram impermeáveis àqueles pilares
ingleses. Uma maior integração entre europeus e indianos
teria facilitado a implantação das novas regras. Mas
isso ainda não explica tudo. No caso dos Estados Unidos,
como se sabe, a relação de índios e ingleses
era belicosa, e mesmo assim os colonizadores conseguiram plantar
o modelo britânico de instituições.
Veja Como?
North A explicação é cruel e
ninguém se orgulha dela, mas o fato é que, no caso
americano, os ingleses foram bem-sucedidos na implantação
de suas regras porque conseguiram controlar a imensa população
indígena local. Fizeram isso colocando os índios em
reservas com o objetivo de mantê-los isolados e também
dizimaram uma parte deles. É feio? Claro. No entanto é
um capítulo da história dos Estados Unidos que ajuda
a entender por que o ponto de partida dos americanos foi tão
melhor que o de outros países.
Veja Há diversas teorias para explicar o
enriquecimento de um país: a religião, o tipo de clima
e os recursos naturais são a base de algumas delas. O que
o senhor acha dessas teses?
North Não dá para dizer que um
clima propício à agricultura ou a abundância
de petróleo não têm peso nenhum. O fato é
que a natureza por si só não leva um país para
a frente. Nesse ponto, os estudos que desenvolvo há mais
de cinco décadas não deixam dúvida: sem instituições
fortes uma nação não abandona o atraso nem
a pobreza. Veja o caso da Venezuela. Nos últimos dez anos,
passei longos períodos lá e cheguei à triste
conclusão de que a presença do petróleo não
apenas não foi suficiente para mudar a situação
socioeconômica dos venezuelanos como inclusive inibiu o desenvolvimento
de outros setores. Isso porque eles concentraram forças nessa
única atividade e, para piorar o quadro, não detinham
o respaldo de boas instituições para turbiná-la.
No outro extremo, gosto de colocar Israel, um país de terra
pobre, pouquíssimos recursos naturais, mas que conseguiu
dar um salto graças a um conjunto de instituições
eficientes, especialmente na área econômica. A questão
palestina atrapalha e evidencia certo atraso no campo da política,
mas, no todo, Israel ultrapassou e muito países
de natureza bastante mais promissora tendo partido do mesmo patamar.
Veja E qual é o peso que o senhor atribui
à religião na história da riqueza das nações?
North O tipo de crença de um povo é
fundamental para determinar o ritmo de crescimento de um país.
Sabe-se, por exemplo, que da ética protestante e suas idéias
positivas sobre o trabalho pesado se originou o espírito
do capitalismo na Europa. Então a religião vem antes
das instituições? Definitivamente, não. Elas
são a mesma coisa. As instituições de um país
são a síntese das crenças de seu povo. Repare
que aqui não estamos falando só de religião,
mas de crenças construídas no passado remoto das nações,
produto da experiência dos homens em diferentes climas e ambientes.
As instituições são a expressão concreta
da mentalidade das pessoas. Essa constatação ajuda
a compreender por que há instituições tão
distintas umas das outras nos variados cantos do planeta
as pessoas pensam diferente.
Veja Qual é a marca mais forte das instituições
políticas e econômicas da América Latina?
North Se um país quer ser produtivo e moderno,
ele precisa cada vez mais afastar-se das negociações
pessoais e criar mecanismos para que indivíduos que nunca
se viram estabeleçam uma relação comercial
objetiva. É aí que as instituições se
tornam necessárias. Quanto mais transparentes elas forem,
maior será a confiança das pessoas em investir e manter
relações comerciais de grande escala. E, como se sabe,
sem isso não existe crescimento econômico para valer.
Pois nos países da América Latina prevalece desde
os tempos coloniais forte tendência à personalização
das relações comerciais entre os indivíduos.
Persiste a informalidade nos negócios. Trata-se de uma questão
cultural que dificulta até hoje a construção
de um conjunto institucional baseado na objetividade capitalista.
No século XXI, os países da América Latina
ainda encorajam um modelo de trocas pessoais enterrado há
muito tempo nos Estados Unidos e na Europa.
Veja Na comparação com outros países
em desenvolvimento, em que patamar o senhor colocaria as instituições
brasileiras?
North Os países mais atrasados são
os africanos. Alguns deles não só não conseguiram
crescer como tiveram a renda encolhida nas últimas três
décadas. Essa situação é resultado de
um cenário de caos institucional em que contratos são
ficção e ninguém acredita na Justiça.
Só há esperança para os africanos num prazo
longo. O Brasil está bem à frente desses países,
claro, mas ainda fica em desvantagem quando a comparação
é com o vizinho Chile, a Turquia ou a Malásia. O calcanhar-de-aquiles
brasileiro é a colossal desigualdade de renda que existe
no país e o baixíssimo nível educacional de
sua população. Essa é a ponta de um iceberg.
Se um país quer estrelar entre as democracias modernas e
eficientes, precisa ter boa distribuição de renda
e ser mais bem-educado. O fato de o Brasil ser até hoje tão
desigual e deseducado é sinal de que suas instituições
ainda não estão levando o país adiante como
deveriam estar fazendo.
Veja Na sua opinião, qual é o papel
dos governos: induzir o crescimento do país ou garantir a
estabilidade e o cumprimento dos contratos?
North O governo deve criar as regras econômicas
do jogo para garantir estabilidade. Se um país não
possui regras eficazes é porque não tem um bom governo
para colocá-las no lugar. Cabe ao governo incentivar a competição
para tornar a iniciativa privada mais eficiente e é
só. A história mostra que governos não são
habilidosos quando inventam de intervir nos detalhes da economia
de um país. Eles não têm demonstrado, por exemplo,
que são bons gerentes de grandes indústrias. A explicação
para isso é simples. O poder público à frente
de uma fábrica não está submetido à
competição, que é o que força uma empresa
a ser mais produtiva e a buscar soluções criativas.
O governo deve apenas deixar as várias firmas concorrendo
com segurança para que a economia ganhe uma dinâmica
positiva. E isso já é muito. O resto é por
conta do setor privado. Digo que numa democracia todo mundo é
governo.
Veja
Como o governo facilita a concorrência?
North É essencial que o governo confira
segurança aos investidores da iniciativa privada. Não
dá para sair picotando contratos e arremessá-los na
lata de lixo, como acontece até hoje em países pobres.
O governo deve ser o regente de um sistema judiciário que
garanta o direito de propriedade, porque sem isso ninguém
é louco de investir no longo prazo, sob o risco de ficar
de mãos vazias. Cabe ao governo eliminar qualquer ruído
que possa atrapalhar uma negociação, e para isso é
preciso que mantenha boas instituições. Quando chego
a um novo país, sempre pergunto às pessoas qual o
preço de um aparelho de telefone ou de uma televisão.
Nas nações mais pobres custam em geral muito mais
caro do que nos países ricos. A explicação
para isso não é tão simples quanto parece à
primeira vista. Número 1: sim, ainda é mais oneroso
produzir num país em desenvolvimento porque ele não
atingiu o nível de produtividade dos desenvolvidos. Número
2: há custos adicionais embutidos num telefone ou numa televisão
que não têm relação direta com o telefone
ou a televisão. São os chamados custos de transação.
Eles se tornam astronômicos quando há incertezas numa
negociação do tipo: "O contrato que fiz vai valer
até o final?" ou "Se não respeitarem o acordo, o juiz
me dará ganho de causa?". Cada uma dessas dúvidas
tem um preço, e é necessário que o governo
as extermine.
Veja Por que os custos de transação
se tornaram uma questão tão central?
North Existem os custos de transação
dos quais não é possível escapar. Entre eles
estão os gastos com impostos, seguro e operações
no sistema financeiro. Fazem crescer o preço final do produto,
mas não dá para pensar em trocas comerciais numa nação
moderna sem esse grau de profissionalização. Então,
quanto mais desenvolvido é um país, maiores são
esses custos de transação. Veja o caso dos Estados
Unidos. Em 1870, os custos de transação representavam
25% do PIB americano. Um século mais tarde, a fatia era de
45%, quase o dobro. Hoje um país precisa ser bastante mais
produtivo para compensar esse tipo de gasto e poder competir, coisa
que os EUA conseguiram com sucesso. Agora olhe como é difícil
a situação dos países em desenvolvimento. Eles
perdem em produtividade e, além dos custos de transação
típicos do mundo moderno, ainda adicionam outros, resultantes
de riscos primários que têm como origem instituições
frágeis. Esses países estão desarmados para
a competição travada num mundo de economia globalizada
onde as margens de lucro são cada dia mais minguadas.
Veja Como países como a Rússia ou
a China conseguiram crescer tanto mesmo sem possuir as boas instituições
a que o senhor se refere?
North Em prazos curtos é possível
para um país colher bons resultados na economia sem o respaldo
de um conjunto de instituições de boa qualidade, como
exemplificam os casos russo e chinês mas nunca haverá
crescimento econômico sustentado sem isso. Vale um mergulho
no caso da China. Os chineses têm conseguido crescer com fartura
durante um regime não democrático. No entanto, é
fato líquido e certo que não terão condições
de manter esse ritmo acelerado indefinidamente sem construir instituições
políticas sólidas e fazer a transição
para a democracia. Ditadores, como se sabe, são imprevisíveis,
mudam de idéia, favorecem grupos pelos quais nutrem simpatia
sem nenhum tipo de punição e, quando morrem, causam
instabilidade. A China precisa implantar instituições
menos vulneráveis para começar a pensar em futuro.
A lição vale para o Brasil ou para qualquer outro
país que queira dar o grande salto.
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