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Em
foco: Gustavo
Franco
Inquietos
e executivos
"O
país continua a ter sérios problemas
para
a reconstrução do crescimento e o governo
ainda precisa demonstrar que possui uma
estratégia para as reformas conducentes ao
crescimento. Por isso, precisa de mais
executivos e de menos 'inquietos' "
A
política econômica deste governo é muito parecida
com a do governo anterior, especialmente em algumas áreas,
como no Banco Central e na política fiscal. Nunca é
demais repetir, pois a memória para os temas da economia
é muito seletiva e o passado freqüentemente se transforma
quando visto sob novas luzes.
Ilustração Ale Setti
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O governo efetivamente se orgulha das políticas macroeconômicas
que vem praticando, e com toda a razão, pois foram inequívocos
os seus sucessos. O fato de essas mesmas políticas terem
sido desancadas impiedosamente no passado, quando o atual governo
era oposição, tem sido minimizado, mas não
ignorado. É paradoxal mas muito positivo que, na hora de
governar, o PT tenha recorrido ao saber convencional em economia
e tenha isolado os seus "heterodoxos" em alguns "redutos" onde,
aparentemente, as coisas não vão tão bem. São
as estatais e programas que estão meio parados, ou as lideranças
que dão margem às preocupações, hoje
generalizadas, com o "risco regulatório".
A
"transformação" experimentada pelo PT é fascinante
para os atingidos por suas críticas no passado, pois, em
princípio, as desqualifica. Sem dúvida, temos aqui
uma bela discussão no campo da retórica, que parece
relevante para a vida real apenas quando os "inquietos" se põem
a demonstrar a quadratura do círculo, ou seja, que este governo
se constrói a partir do suposto "fracasso" das políticas
neoliberais do governo passado (!?). Passada a reforma ministerial,
e a provável devolução de muitos "inquietos"
à universidade, caberá aos marqueteiros do governo
lidar com o problema retórico com relativa facilidade.
Mais
sério é o problema básico, dificílimo
e ainda sem solução, de acordar o crescimento. A "carência"
oferecida pelo primeiro ano está terminando e a situação
econômica não está "resolvida", longe disso.
Foi ótimo superar a crise provocada pelo pavor de que Lula
e o PT fossem os mesmos de 1989, mas, ao final, estamos com níveis
de risco Brasil semelhantes aos da crise da Ásia, juros reais
de dois dígitos, mesmo depois dos 17,5%, e taxas de investimento
vergonhosamente baixas. O país continua a ter sérios
problemas para a reconstrução do crescimento e o governo,
que é ótimo em atividades próprias de ONGs,
ainda precisa demonstrar que possui uma estratégia para as
reformas conducentes ao crescimento.
De
certa maneira, as perguntas são as mesmas do governo passado,
no interior do qual havia uma "escola de pensamento" (talvez, melhor
dizendo, alguns pensamentos à procura de uma escola, ou em
fase pré-escolar), cuja tese era que não havia nada
de muito errado com o Brasil, que o problema fiscal era contábil
e menos sério do que se dizia e que a hiperinflação
tinha sido uma fatalidade, uma vez que a inflação
era "apenas inercial" e fácil de lidar, e que com duas ou
três reformas aparando excessos de 1988 tudo se encaixava,
bastando reduzir os juros e acertar o câmbio que o milagre
econômico estaria de volta.
Esse
fenômeno, que podemos denominar de a "falácia desenvolvimentista",
não era privativo do PSDB, pois estamos assistindo ao mesmo
filme com os "inquietos" do PT. Novamente prevalece uma ilusão
de que existe um "depois das reformas" em que, livre das "imposições
do mercado" e com dinheiro no bolso, o governo se entregará
a "megaprojetos estruturantes" e programas sociais redentores. Pura
ilusão, governar é fazer reformas, e não mais
construir estradas, inclusive porque acabou o dinheiro.
O
crescimento sustentado não virá por gravidade, mesmo
com a valiosa contribuição da política monetária,
pois tudo depende do setor privado. Com a macroeconomia no lugar,
o governo tem diante de si uma infinidade de agendas setoriais de
grande complexidade, em que terá de fazer curvas tão
fechadas e perigosas como as que o levaram à racionalidade
no terreno da macroeconomia. Por isso, precisa de mais executivos
e de menos "inquietos".
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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