Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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Em foco: Gustavo Franco
Inquietos e executivos

"O país continua a ter sérios problemas para
a reconstrução
do crescimento e o governo
ainda precisa demonstrar que possui uma
estratégia para as
reformas conducentes ao
crescimento. Por isso, precisa de mais
executivos e de
menos 'inquietos' "

A política econômica deste governo é muito parecida com a do governo anterior, especialmente em algumas áreas, como no Banco Central e na política fiscal. Nunca é demais repetir, pois a memória para os temas da economia é muito seletiva e o passado freqüentemente se transforma quando visto sob novas luzes.

Ilustração Ale Setti


O governo efetivamente se orgulha das políticas macroeconômicas que vem praticando, e com toda a razão, pois foram inequívocos os seus sucessos. O fato de essas mesmas políticas terem sido desancadas impiedosamente no passado, quando o atual governo era oposição, tem sido minimizado, mas não ignorado. É paradoxal mas muito positivo que, na hora de governar, o PT tenha recorrido ao saber convencional em economia e tenha isolado os seus "heterodoxos" em alguns "redutos" onde, aparentemente, as coisas não vão tão bem. São as estatais e programas que estão meio parados, ou as lideranças que dão margem às preocupações, hoje generalizadas, com o "risco regulatório".

A "transformação" experimentada pelo PT é fascinante para os atingidos por suas críticas no passado, pois, em princípio, as desqualifica. Sem dúvida, temos aqui uma bela discussão no campo da retórica, que parece relevante para a vida real apenas quando os "inquietos" se põem a demonstrar a quadratura do círculo, ou seja, que este governo se constrói a partir do suposto "fracasso" das políticas neoliberais do governo passado (!?). Passada a reforma ministerial, e a provável devolução de muitos "inquietos" à universidade, caberá aos marqueteiros do governo lidar com o problema retórico com relativa facilidade.

Mais sério é o problema básico, dificílimo e ainda sem solução, de acordar o crescimento. A "carência" oferecida pelo primeiro ano está terminando e a situação econômica não está "resolvida", longe disso. Foi ótimo superar a crise provocada pelo pavor de que Lula e o PT fossem os mesmos de 1989, mas, ao final, estamos com níveis de risco Brasil semelhantes aos da crise da Ásia, juros reais de dois dígitos, mesmo depois dos 17,5%, e taxas de investimento vergonhosamente baixas. O país continua a ter sérios problemas para a reconstrução do crescimento e o governo, que é ótimo em atividades próprias de ONGs, ainda precisa demonstrar que possui uma estratégia para as reformas conducentes ao crescimento.

De certa maneira, as perguntas são as mesmas do governo passado, no interior do qual havia uma "escola de pensamento" (talvez, melhor dizendo, alguns pensamentos à procura de uma escola, ou em fase pré-escolar), cuja tese era que não havia nada de muito errado com o Brasil, que o problema fiscal era contábil e menos sério do que se dizia e que a hiperinflação tinha sido uma fatalidade, uma vez que a inflação era "apenas inercial" e fácil de lidar, e que com duas ou três reformas aparando excessos de 1988 tudo se encaixava, bastando reduzir os juros e acertar o câmbio que o milagre econômico estaria de volta.

Esse fenômeno, que podemos denominar de a "falácia desenvolvimentista", não era privativo do PSDB, pois estamos assistindo ao mesmo filme com os "inquietos" do PT. Novamente prevalece uma ilusão de que existe um "depois das reformas" em que, livre das "imposições do mercado" e com dinheiro no bolso, o governo se entregará a "megaprojetos estruturantes" e programas sociais redentores. Pura ilusão, governar é fazer reformas, e não mais construir estradas, inclusive porque acabou o dinheiro.

O crescimento sustentado não virá por gravidade, mesmo com a valiosa contribuição da política monetária, pois tudo depende do setor privado. Com a macroeconomia no lugar, o governo tem diante de si uma infinidade de agendas setoriais de grande complexidade, em que terá de fazer curvas tão fechadas e perigosas como as que o levaram à racionalidade no terreno da macroeconomia. Por isso, precisa de mais executivos e de menos "inquietos".

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com ­ www.gfranco.com.br)

 
 
 
 
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