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Internacional
No Iraque, algumas luzes no fim do túnel Nova
Constituição e ditador no banco dos réus ainda não
garantem a estabilidade 
Ruth Costas
Marwan Ibrahim/AFP  |
| Saddam se defende em seu julgamento. Abaixo, um oleoduto
sabotado no norte do Iraque: violência diária | Bob
Strong/Reuters  |
Trinta meses depois
de invadirem o Iraque, os Estados Unidos, e seus aliados iraquianos, estão
conseguindo dar alguns passos importantes no cronograma para a construção
de uma democracia formal no país. Na semana passada, os iraquianos não
só votaram em um referendo para ratificar a Constituição
elaborada por um Parlamento eleito em janeiro, como assistiram pela televisão
à primeira audiência do julgamento de Saddam Hussein, o ditador que
os americanos derrubaram. São fatos memoráveis. Mas não servem
para esconder que a situação no Iraque permanece instável
e violenta e a perspectiva mais realista é a de que continue a piorar,
mesmo com uma nova Constituição. Nas duas semanas que precederam
o referendo, 450 pessoas foram mortas em atentados terroristas ou em confrontos
entre insurgentes e tropas americanas. Dois dias depois da votação
considerada um sucesso por ter levado mais de 60% do eleitorado às
urnas um ataque americano na cidade de Ramadi, conhecido bastião
rebelde, deixou setenta mortos, entre os quais mulheres e crianças.
Apesar do esforço americano para treinar
a soldadesca iraquiana, os insurgentes estão cada dia mais fortes nas quatro
províncias de maioria sunita. Muita gente até acha que já
se deveria começar a falar em guerra civil. No momento, o que os americanos
mais querem saber é em que momento poderão cair fora do Iraque.
Estima-se que o Iraque disponha agora de 30.000 soldados razoavelmente treinados.
É muito pouco para controlar todo o país. E, de qualquer forma,
ninguém sabe com certeza se os militares são leais ao governo ou
se, na hora de combater, vão obedecer ao chamado da própria tribo
ou de algum chefe religioso. Em princípio, os sunitas, que mandavam no
Iraque até a queda de Saddam, rejeitam a Constituição porque
ela concede muita autonomia para as etnias rivais, os xiitas e os curdos. Os xiitas,
que representam 60% da população, e os curdos, por sua vez, estão
satisfeitos com a Carta afinal, ela foi basicamente escrita por eles.
Não é o tipo de democracia
que o presidente George W. Bush prometeu que serviria de exemplo ao mundo árabe.
Os ataques rebeldes e a falta de um consenso mínimo sobre o futuro do país
minam a recuperação dos empregos, a estabilização
dos serviços básicos como água e luz, a retomada da produção
de petróleo e a atração de investimentos. Até o primeiro
capítulo do julgamento de Saddam foi marcado pelo clima de insegurança.
Na quarta-feira passada, o ex-ditador e sete de seus principais assessores começaram
a responder no Tribunal Especial Iraquiano pelo massacre de 143 xiitas e pelo
seqüestro de 399 famílias no vilarejo de Dujail, em 1982 (motivo:
o comboio que transportava o ditador foi atacado nos arredores da aldeia). O julgamento
teve de ser adiado para novembro porque muitas testemunhas ficaram com medo de
comparecer. Para completar, um dia depois da audiência, o corpo do advogado
de um dos comparsas de Saddam foi encontrado com dois tiros na cabeça e
um no peito. O mais provável é que Saddam acabe enforcado, consiga
ou não a promotoria provas convincentes de que ele mandou chacinar aquelas
pessoas. Para frustração dos americanos, a punição
de Saddam e a aprovação da nova Constituição não
bastam para colocar o Iraque no rumo.
Criado por um Parlamento cujos membros foram eleitos por pertencer a determinadas
facções religiosas ou grupos étnicos e não
por sua qualificação , o conjunto de leis que deve regular
a vida no Iraque daqui para a frente esbarra em um problema conceitual. Em vez
de unificar o país, fortalecendo um poder central, dá total autonomia
às dezoito províncias iraquianas. Pela Carta, além de enviar
seus representantes em missões diplomáticas, cada uma delas poderá
vetar a entrada do Exército nacional em seu território e fazer leis
próprias, que prevalecerão sobre as federais quando ambas estiverem
em conflito. O fato de essas diretrizes permitirem que xiitas e curdos controlem
os poços de petróleo dos territórios onde são maioria,
no norte e no sul do Iraque, levou os sunitas, concentrados na região central
do país, onde não existe uma gota de petróleo, a se colocarem
contra a proposta. Se os grupos étnicos e religiosos do Iraque pudessem
chegar a um acordo, ao menos uma democracia relativamente estável poderia
se enraizar no país no médio prazo. Sem o aperto de mãos,
as perspectivas parecem cada vez mais turvas. |