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Especial 7
soluções contra o crime Roberto
Setton
 | | Ronda
noturna para fiscalizar o fechamento dos bares às 23 horas, na Grande São
Paulo: queda de 68% no número de homicídios |
Dissipada a cortina de fumaça
em que o referendo envolveu a questão da segurança pública,
é hora de falar em soluções realistas de combate ao crime.
Nas próximas páginas, VEJA lista sete medidas cuja aplicação
em outros países e em municípios e estados brasileiros comprovou
serem eficazes para reduzir os níveis de criminalidade. As sete medidas
têm como característica o fato de ser viáveis e estar ao alcance
do poder de gastos, custeio e investimento de um país em desenvolvimento
como o Brasil. Elas levam em conta as limitações culturais e as
circunstâncias sociais que podem acelerar ou atrasar o processo de contenção
da ação dos bandidos. As medidas narradas a seguir assentam-se sobre
três pilares. O primeiro trata de reverter a atração que o
crime organizado exerce sobre os jovens, em especial os que têm poucas perspectivas
econômicas. O segundo incentiva a eficiência do sistema de punição
aos criminosos. O terceiro pilar mostra como é vital impedir que a geografia
do crime crie territórios livres onde o Estado só entra para dar
uns tiros, prender uns olheiros e achacar alguns traficantes.
1 DAR OPÇÕES DE LAZER E PROFISSÃO AOS JOVENS POBRES
Robson
Fernandes/AE
 | | Jovens
jogam basquete em escola da periferia paulistana: o lazer nos fins de semana reduziu
os furtos |
Uma crença costuma
influenciar as políticas de segurança pública no Brasil:
é a de que a criminalidade é causada pela pobreza e pelo desemprego.
Decorre daí a impressão de que nada se pode fazer contra o crime
até que se consiga distribuir melhor a renda, acabar com a miséria
e gerar empregos. É a desculpa ideal para não fazer nada. A adoção
de políticas sociais em áreas pobres funciona não porque
acaba com a pobreza, mas porque diminui as oportunidades de ocorrerem crimes.
A criminalidade é realmente maior nas áreas pobres das grandes cidades.
Em Belo Horizonte, por exemplo, 36% dos assassinatos acontecem em seis favelas,
que ocupam apenas 4% da área da capital mineira. Isso ocorre não
porque a pobreza induz ao crime, mas, sobretudo, porque nessas áreas a
presença do Estado é quase inexistente. "Em ambientes degradados,
onde não há nenhum tipo de assistência ou controle por parte
do Estado, a violência prolifera com facilidade", diz o cientista político
Cláudio Beato Filho, do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança
Pública da Universidade Federal de Minas Gerais.
Três experiências bem-sucedidas para a redução da criminalidade,
uma em Minas Gerais e duas em São Paulo, sinalizam um caminho para reduzir
a criminalidade. Em 2002, na favela Morro das Pedras, a mais violenta de Belo
Horizonte, o número de homicídios caiu pela metade em apenas cinco
meses depois que o governo do estado usou uma escola do bairro para oferecer oficinas
profissionalizantes aos jovens. Efeito semelhante foi obtido em São José
dos Campos, a 100 quilômetros de São Paulo, com uma fundação
municipal que, desde 1987, mantém cursos profissionalizantes para crianças
e adolescentes de 7 a 18 anos em bairros pobres. Ali se formam mecânicos,
padeiros, secretárias e eletricistas. O objetivo inicial era apenas educacional,
mas logo se tornaram evidentes os reflexos na queda geral de criminalidade na
cidade. Desde 1999, quando a prefeitura dobrou
o número de adolescentes atendidos pelos cursos e concentrou os esforços
da guarda municipal nas áreas pobres da cidade, o número de roubos
e furtos de veículos caiu 16% e o índice de homicídios diminuiu
de 48 para 24 por 100.000 habitantes. Na capital
paulista, desde 2003 as escolas de periferia permanecem abertas nos fins de semana
para oferecer aos moradores atividades esportivas e cursos. O número de
furtos nos arredores dessas escolas caiu 38% e as ocorrências envolvendo
armas de fogo diminuíram 81%. Isso mesmo: 81%. Que tal convocar um referendo
com a seguinte pergunta: "As escolas públicas de todos os níveis
e os quartéis das Forças Armadas deveriam abrir suas instalações
nos fins de semana e proporcionar atividades esportivas às crianças
e adolescentes carentes?". Abrir escolas nos fins de semana e oferecer cursos
profissionalizantes reduz a criminalidade porque os adolescentes ficam menos tempo
nas ruas e, com isso, se tornam menos vulneráveis à influência
de outros jovens já envolvidos com a criminalidade. "Como no Brasil os
alunos permanecem pouco tempo em sala de aula, as crianças e os adolescentes
das áreas mais pobres passam pelo menos metade do dia sem ter o que fazer",
diz João Trajano, coordenador do Laboratório de Análise da
Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotos
Fabiano Accorsi
 |  | | Alunos
em curso de mecânica da prefeitura de São José dos Campos,
à esquerda. O projeto ajudou a reduzir os índices de criminalidade
no município. À direita, Wanderson Richard da Silva, de 16 anos,
aluno do curso de eletrônica, que mora com a mãe no bairro mais pobre
da cidade: "Um dos meus cinco irmãos está preso há sete meses
por tentar roubar uma casa com um amigo. Não quero essa vida para mim.
Por isso me candidatei a uma vaga no curso da prefeitura. Esperei dois anos e
meio por isso. No futuro, quero fazer faculdade de engenharia mecânica"
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2 PRENDER O CRIMINOSO E DEIXÁ-LO
PRESO Existem dois fatores que levam o bandido a acreditar
que o crime compensa no Brasil. Um deles é achar que nunca será
pego. Em média, a polícia brasileira desvenda apenas 3% dos casos
de homicídio. O outro é a certeza de que, se for para a cadeia,
ele não ficará por lá muito tempo. A pena máxima para
assassinos é de trinta anos de reclusão, mas apenas um em cada dez
condenados cumpre até o fim a sentença determinada pelo juiz. A
Lei de Execução Penal, de 1984, prevê várias formas
de abreviar a sentença. Ao completar um sexto da pena, o preso pode ser
transferido para o sistema de prisão semi-aberto e, depois de mais um sexto,
para o regime aberto. A exceção são os crimes hediondos
estupro, seqüestro, tráfico de drogas e homicídio qualificado
, que exigem que o condenado cumpra pelo menos dois terços da pena
em regime fechado. "A lei brasileira é leniente com os homicidas", diz
o sociólogo Gláucio Soares, do Instituto Universitário de
Pesquisas do Rio de Janeiro. "Trinta anos, ou até menos, para quem tira
a vida de alguém é pouco", comenta Soares, especialista no estudo
de homicídios no Brasil. A filosofia que predominou na legislação
brasileira foi a de que os anos de cadeia não ajudam em nada a reintegração
do preso na sociedade. A experiência de outros países mostra que
penas severas são eficientes para dissuadir os potenciais criminosos de
agir. Em 1982, o estado da Califórnia, nos Estados Unidos, aprovou condenações
mais longas para homicídios, estupros, assaltos a mão armada e roubos
a residências e lojas. Em três anos, a criminalidade no Estado caiu
8%. Sete anos depois, a queda chegou a 20%. Diz o criminalista Antonio Scarance
Fernandes, professor de processo penal da Universidade de São Paulo: "O
sistema penal brasileiro não gera credibilidade. O bandido adquire a certeza
da própria impunidade e se sente estimulado a continuar praticando crimes".
3 FECHAR OS BARES MAIS CEDO E FORMAR POLÍCIAS
COMUNITÁRIAS Roberto
Setton
 | | Monitoramento
de câmeras de segurança em Diadema, SP: foco nas ruas mais perigosas
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Uma pesquisa feita pela prefeitura de
Diadema, na Grande São Paulo, em 2002, mostrou que 60% dos homicídios
da cidade aconteciam a 100 metros de um bar. Esses locais, depois de uma certa
hora, viravam focos de bebedeiras, brigas por motivos fúteis e tráfico
de drogas. No mesmo ano, foi instituída a lei seca na cidade, que limita
o horário de funcionamento dos 4.800 bares do município das 6 horas
da manhã às 11 da noite com exceção de 27 estabelecimentos
que ficam em áreas de baixa criminalidade. Resultado: a cidade, que em
1999 era a mais violenta do Brasil, conseguiu reduzir o número de homicídios
em 68% em cinco anos. O número de casos de ferimentos atendidos nos prontos-socorros
caiu na mesma proporção. "Depois das 11 horas da noite eu só
tinha cliente que não pagava o que bebia e usava o bar para planejar assalto",
diz Inácio Pessoa de Lima, de 44 anos, dono de bar. "Eu mesmo fui assaltado
cinco vezes, o que nunca mais aconteceu depois da lei seca." Para garantir que
os bares fechem no horário estabelecido, uma equipe de fiscais da prefeitura
e policiais, em quatro carros, percorre 70 quilômetros toda noite. Com o
objetivo de evitar que os fiscais sejam corrompidos, o roteiro e a equipe mudam
diariamente. Além do fechamento dos bares, a prefeitura investiu no policiamento
comunitário. Dos 220 guardas municipais da cidade, hoje 80% têm curso
superior. Parte deles circula pelos bairros de bicicleta ou a pé. Sua função
é inibir infrações menores, como vandalismo e violência
doméstica, permitindo que a Polícia Militar tenha mais tempo para
se dedicar aos crimes mais graves. "Muita gente do meu partido, o PT, acha que
os projetos sociais, sozinhos, reduzem a criminalidade, o que não é
verdade. É preciso também colocar nas ruas policiais preparados",
diz o prefeito de Diadema, José de Filippi Júnior, que implantou
a lei seca. As duas iniciativas, a lei seca e a formação de uma
guarda municipal mais atuante, foram imitadas em outros municípios da Grande
São Paulo. A Secretaria de Segurança do estado estima que, juntos,
quatro dos municípios que adotaram o mesmo pacote de segurança
Diadema, Osasco, Embu e Mauá conseguiram evitar 750 assassinatos
entre 2001 e 2003. Há sete meses, a guarda municipal de Diadema instalou
um sistema com 28 câmeras de segurança, que faz o monitoramento nas
ruas dos bairros mais violentos. "A situação melhorou muito de alguns
anos para cá", diz a estudante Carolina de Lima Silva, de 14 anos, de Diadema.
Ela mora na Favela Naval, a 50 metros da esquina onde, em 1997, o soldado da Polícia
Militar Otávio Lourenço Gambra, o Rambo, foi filmado matando um
morador. Diz Carolina: "Antes, às vezes eu não podia ir à
escola de manhã por causas dos tiroteios na porta da minha casa. Isso acabou".
4 ACABAR COM A CORRUPÇÃO
POLICIAL PARA EVITAR QUE AS ARMAS APREENDIDAS CHEGUEM AOS BANDIDOS Mais
de 10.000 policiais foram denunciados por algum tipo de crime ou má conduta
no estado de São Paulo nos últimos cinco anos, o que representa
quase 10% do efetivo. No Rio de Janeiro, no ano passado, um em cada quatro policiais
militares foi acusado de cometer delitos que vão desde abuso de autoridade
até homicídios e seqüestros. A desonestidade e o excesso de
violência de alguns agentes corroem a confiança da população
naqueles que deveriam garantir sua segurança e dificultam o combate ao
crime. "A corrupção destrói os alicerces da polícia",
diz o coronel José Vicente da Silva, especialista em segurança pública.
"Quando os agentes se vendem aos bandidos, fica quase impossível colocar
os chefes das organizações criminosas na cadeia." Em um sistema
corrupto, as armas apreendidas logo voltam para as mãos da bandidagem,
drogas e dinheiro somem dos depósitos da polícia e presos escapam
sem que ninguém possa, ou queira, dizer como. Entre as medidas necessárias
para resolver esse problema estão o fortalecimento das corregedorias e
ouvidorias responsáveis por receber e investigar as denúncias
contra os policiais e o aumento do rigor na punição dos infratores.
Um exemplo de método eficiente para combater a corrupção
é a estratégia adotada pela polícia de Nova York na década
de 90, como parte do pacote de tolerância zero que reduziu pela metade os
homicídios na cidade. Lá, a própria corporação
realiza testes de honestidade, com a ajuda de agentes disfarçados de criminosos
e cidadãos comuns. Ou seja, eles induzem os agentes a exigir propina. A
reação desses policiais, que obviamente não sabem que estão
sendo avaliados, é registrada com câmeras escondidas e serve como
prova irrefutável da desonestidade. No Brasil, a expulsão de um
policial corrupto é dificultada pela legislação que protege
o emprego do funcionário público. O espírito corporativo
também acaba por favorecer o mau policial. 5
APARELHAR E TREINAR A POLÍCIA Roberto
Setton
 | | "Anjos
do quarteirão": policiamento comunitário reduziu crimes em Diadema
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A polícia brasileira é
uma das mais ineficientes do mundo. Nada menos que 97% dos casos de homicídio
ficam sem solução no país, contra 30% nos Estados Unidos
e no Japão. A incompetência policial aumenta a sensação
de impunidade dos bandidos. Uma das razões do fraco desempenho da polícia
brasileira são falhas no recolhimento das provas deixadas na cena do crime.
Enquanto na Europa e nos Estados Unidos a polícia utiliza recursos como
análises de DNA e impressões digitais para reunir evidências
materiais irrefutáveis que indiquem a autoria do crime, a base do método
de investigação da nossa polícia são os interrogatórios
de suspeitos e testemunhas. Melhorar esse quadro exigiria um investimento maior
no treinamento de investigadores e peritos. Outra medida seria a instalação
de bancos de dados para mapear os crimes e reunir informações sobre
os bandidos. São Paulo é um exemplo de como isso dá bons
resultados. Desde que os boletins de ocorrência passaram a alimentar uma
base de dados unificada, em 2001, a polícia paulistana percebeu que 45%
dos crimes ocorrem em apenas 2% das ruas e passou a concentrar seus homens e recursos
nesses pontos críticos. Desde então, a taxa de homicídios
caiu 35% na cidade. Por fim, implantar um sistema de promoções não
para policiais que prendam mais gente, mas para policiais em cujas áreas
de atuação as taxas de crime caiam. O sistema de recompensa por
produtividade foi adotado em Nova York, na década passada, e desde então
o número de reclamações feitas pela população
sobre a conduta dos policiais caiu à metade. 6
AUMENTAR A EFICÊNCIA DA JUSTIÇA Um processo
judicial no Brasil demora em média doze anos para ser concluído.
Nos Estados Unidos, somente quatro meses. De cada 100 processos que entram em
todos os níveis do Judiciário, apenas quarenta são julgados
no mesmo ano. A demora não decorre da falta de magistrados. O país
tem uma média de 7,73 juízes para cada 100.000 habitantes, média
superior ao mínimo recomendado pela ONU. "Os processos demoram tanto tempo
para ser concluídos e julgados que no meio do caminho as provas são
perdidas, testemunhas acabam morrendo, e o criminoso sai ileso, porque os crimes
prescrevem", diz o advogado René Dotti, professor de direito penal da Universidade
Federal do Paraná. Parte da responsabilidade pela demora se deve a falhas
na investigação policial, que, no caso de homicídios, costuma
levar em média sete anos para terminar. Nos EUA, isso é feito em
um ano. "O inquérito, muitas vezes malfeito, vai para o promotor de forma
incompleta e este, por sua vez, fica sem informações suficientes
para fazer a denúncia", explica o advogado criminalista Beno Brandão,
de Curitiba. O código processual brasileiro é detalhista e permite
um número excessivo de recursos protelatórios. Cada passo do processo
precisa ser registrado em cartório, por exemplo.
Estima-se que os processos, no Brasil, passem 90% do tempo nos cartórios
e só 10% com os juízes. Por isso, a primeira medida a ser tomada
seria simplificar os procedimentos judiciais. Isso pode ser conseguido informatizando
o sistema da Justiça Criminal, integrando os bancos de dados da polícia,
do Ministério Público e dos fóruns. A segunda é oferecer
mais subsídios tecnológicos para que a polícia consiga fazer
melhor as investigações. A terceira medida pode ser inspirada no
exemplo do Chile, que aprovou recentemente uma lei que obriga os juízes
a pronunciar o veredicto em no máximo oito meses. 7
COMBATER O CONSUMO DE DROGAS A experiência mostra
que reprimir o consumo é mais barato e eficiente do que gastar todas as
energias no combate ao narcotráfico. Estudos internacionais indicam que,
para diminuir o consumo de cocaína em 1%, é preciso investir 246
milhões de dólares na repressão à venda. O mesmo resultado,
no entanto, pode ser alcançado gastando-se apenas 34 milhões de
dólares na cura do vício. Há três anos, o governo americano
passou a dar prioridade ao controle do usuário. A estratégia nacional
contra as drogas começou a ser feita em três frentes: aplicação
de programas educativos para os jovens que ainda não tiveram contato com
drogas, tratamento obrigatório para quem é pego se drogando e repressão
à produção e ao transporte dos entorpecentes. Em três
anos, o número de usuários de drogas entre os adolescentes caiu
17%. Diz Walter Maierovitch, ex-secretário nacional antidrogas: "No Brasil,
os delegados ainda comemoram quando apreendem 1 tonelada de maconha, enquanto
as melhores polícias do mundo preferem trabalhar para reduzir o consumo".
PRISÕES COM DIGNIDADE
Qualquer estratégia que pretenda diminuir o crime no Brasil precisa incluir
uma reforma completa das cadeias e penitenciárias. Os especialistas concordam
que não há como diminuir os índices de criminalidade sem
um sistema carcerário eficiente. No Brasil, há dois presos para
cada vaga nas cadeias. Falta espaço para 136 000 condenados. Essa situação
tende a se agravar, pois a previsão é que a população
carcerária passe dos atuais 336 000 para 476 000 presos em 2007. A superlotação
cria o ambiente propício para rebeliões, dificulta o controle das
quadrilhas que comandam o crime organizado de dentro dos presídios e torna
praticamente impossível a recuperação dos presos. "Um dos
grandes problemas é a má qualidade e a corrupção do
quadro de agentes carcerários", diz o advogado criminal Tales Castelo Branco,
de São Paulo. "Se existem drogas e celulares dentro dos presídios,
é porque alguém deixa entrar." Esse
tipo de problema foi enfrentado em muitos países e diferentes soluções
foram encontradas. Uma delas é a formação de parcerias com
a iniciativa privada. Enquanto o Estado mantém a direção
dos presídios e a tutela formal dos presos, uma empresa assume a responsabilidade
por serviços como alimentação, higiene, médicos, psicólogos,
atividades de lazer e segurança. Isso elimina muitas das condições
que podem levar os presos a corromper os agentes penitenciários. No Brasil,
já existem dois presídios que seguem esse modelo. Um deles é
a Penitenciária Industrial de Guarapuava, no interior do Paraná,
inaugurada há seis anos, e o outro é a Penitenciária Industrial
Regional de Cariri, em Juazeiro do Norte, no Ceará, inaugurada em 2001.
Nenhum dos dois sofre com o problema de superlotação cada
um tem menos de 300 detentos e nunca houve rebeliões. "As empresas
terceirizadas precisam cumprir com as normas previstas no contrato, oferecendo
um serviço de qualidade, e o preso retribui com o bom comportamento", diz
Dilza Merly Sbrissia, diretora da penitenciária de Guarapuava. Em geral,
presos bem tratados não têm motivo para se rebelar. Se não
seguirem as regras, podem ser devolvidos a um presídio comum, onde viverão
em celas superlotadas. Dos 240 detentos de Guarapuava, 96% estudam. Eles têm
atendimento médico, psicológico, atividades de lazer e até
aulas de ioga, tudo oferecido pela empresa prestadora de serviços. Diz
Luiz Flavio Borges D'Urso, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, em São
Paulo: "Dar ao preso uma situação digna abre o caminho para que
ele se recupere". | |
Com reportagem de
Rosana Zakabi, Ruth Costas e Tiago Cordeiro |