"Tolerância
zero com tudo o que nos desmoraliza e humilha, perseguição
implacável ao cinismo, mudança total nas futuras
eleições, faxina no Congresso"
Escritores devem
escrever, palestrantes devem falar. Qualquer pessoa tem a
obrigação de pensar e o direito de se expressar.
Claro que isso não acontece num país de analfabetos,
onde não se tem interesse em que o povo pense: um povo
informado escolheria outros líderes, não ficaria
calado quando pisoteiam sua honra, expulsaria de seus cargos
os pseudolíderes e tentaria recompor as instituições
aviltadas. Mas nós não fazemos nada disso: parecemos
analfabetos e afásicos, uma manada de bobos assistindo
às loucuras que se cometem contra nós, contra
cada um de nós.
Ilustração
Atômica Studio
E eu, que tenho as duas atividades, escrever e eventualmente
falar, que desde criança fui ensinada que cabeça
não foi feita só para separar orelhas, mas para
pensar, questionar e também para ser feliz ,
neste momento, não sei o que pensar. Muito menos o
que responder quando me perguntam interminavelmente o que
estou achando, como estou me sentindo. Estou virando pessimista.
Não em minha vida pessoal, mas em relação
a este país. Ou melhor: a seus governantes, autoridades,
homens públicos, políticos. Mal consigo acreditar
no que se está passando. A cada dia um espanto, a cada
dia uma decepção, a cada dia um desânimo
e uma indignação.
Este já
foi o país dos trouxas, que pagam impostos altíssimos
e quase nada recebem em troca; o país dos bobos, que
não distinguem um homem honrado dum patife, uma ação
pelo bem geral de uma manobra para encher o bolso ou galgar
mais um degrauzinho no poder a qualquer custo; o país
dos mistérios, onde quem é responsável
absoluto não sabe de nada, ou finge enxergar outra
realidade, não a nossa. Hoje, estamos ameaçados
de ser o país dos sem-vergonha. A falta de pudor e
o cinismo imperam e não há, exceto talvez o
Supremo Tribunal, lugar totalmente confiável.
Entre os políticos,
com cargos ou não, impera um corporativismo repulsivo
ou estaremos todos de rabinho preso? Nós, povo
que se deixa enganar tão facilmente, que pouco se informa
e questiona, vamos nos tornando da mesma laia? Seremos também,
concreta ou moralmente, vendidos? Quando eu era menina de
colégio, às vezes os rapazes se insultavam gritando
"vendido!", não me lembro bem por quê. Deviam
ser questões esportivas. Um ponto não marcado,
um gol roubado. Era grave insulto. Hoje, parece que ninguém
mais liga para insultos, leves ou pesados nada pega,
tudo é água em pena de pato, escorre e acabou-se.
Um povo teflon. Vemos líderes vendendo-se em troca
de comodidade, cargo, poder, dinheiro, impunidade, preservação
de algum sórdido segredo, ou simplesmente a covardia
protegida. Quem nos deve representar sumiu no ralo. Quem nos
deve orientar se transformou em mamulengo. Quem nos deve servir
de modelo chafurda na lama. E nós, povo brasileiro,
nos arrastamos na tristeza. Reagimos? Como reagimos? Pintamos
a cara e saímos às ruas aos milhares, aos milhões,
jogamos ovos podres, paramos o país, pacificamente
que seja, tentamos mudar o giro da máquina apodrecida?
Aqui e ali um tímido protesto, nada mais.
De algum lugar
surgiram os senadores que votam às escondidas porque
não têm honra suficiente para enfrentar quem
os elegeu; os deputados pouco confiáveis, alguns duvidosos
ministros, de onde surgiram? De nós. Nós os
colocamos lá, nós votamos, nós permitimos
que lá estejam e continuem nós, através
das mãos dos ditos representantes, instituímos
a vergonha nacional que em muitas décadas será
lembrada como um tempo de opróbrio.
E não argumentem
que a economia está ótima: ainda que esteja,
digo que me interessa muito menos a economia do que a honra
e a confiança, poder ser brasileiro de cabeça
erguida. Existe o Bolsa Família, a miséria está
um pouco menos miserável? Pode ser. Mas os hospitais
continuam pobres e podres, as escolas e universidades carentes,
as estradas intransitáveis, a autoridade confusa e
as instituições esfaceladas, os horizontes reduzidos.
O Senado terminou de ruir? Querem até acabar com ele?
Pode parecer neste momento que ele não faz muita falta,
mas sua ausência seria um passo para o Executivo ditatorial,
a falência total da ordem e a perda de um precário
equilíbrio.
Com pressentimentos
nada bons, faço embora sem grande esperança
uma conclamação: tolerância zero
com tudo o que nos desmoraliza e humilha, perseguição
implacável ao cinismo, mudança total nas futuras
eleições, faxina no Congresso, Senado e câmaras,
renovação positiva no país. Conscientização
urgente, pois, acreditem, do jeito que vai a coisa tende a
piorar.