Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Sobras da história
A trajetória
espinhosa de uma família brasileira,
da Inconfidência Mineira ao Funrural
Num lugar chamado
Areião, na vertente sul da Serra do Itacolomi, município
de Mariana, outrora terra do garimpo que fez a glória
das Minas Gerais, vive a viúva Alberta Maia Gomes,
a "Albertina", de 79 anos, nove filhos, 36 netos, nove bisnetos,
uma brasileira pobre, de pouca instrução, igual
a muitas outras, não fosse por um detalhe: Albertina
é uma espécie de sobra da história. O
casebre que as galinhas invadem sem cerimônia, o velho
moinho d'água de fazer fubá, o entorno de penúria
rural, nada indica uma ascendência ilustre, mas este
é, exatamente, o caso: Albertina descende do advogado
(formado em Coimbra), secretário do governo da capitania
de Minas Gerais, poeta de reconhecidos méritos e infeliz
inconfidente Cláudio Manuel da Costa. A história
de Albertina era conhecida desde a infância, por ouvi-la
em família, do jornalista mineiro Inácio Muzzi.
Na edição de julho da Revista de História
da Biblioteca Nacional ele a contou num artigo.
Cláudio
Manuel da Costa morreu no dia 4 de julho de 1789, quarenta
dias depois de ter sido preso, acusado de integrar a conspirata
contra o domínio português. Quem visita a Casa
dos Contos, o mais imponente casarão de Ouro Preto,
não escapa de ser apresentado ao cubículo em
que o poeta foi encontrado morto suicídio, segundo
a versão oficial; assassinato pelos algozes, segundo
suspeita que atravessa os séculos. Cláudio tinha
60 anos e era solteiro. Na poesia, como era moda entre os
chamados "árcades", ele cantava as belas pastoras Daliana,
Violante, Nise, Eulina esta última tão
branca que "parece escura a neve em paralelo". Na vida real,
escassas que eram tais musas, amou a negra Francisca Cardosa,
escrava cuja alforria comprou de um vizinho. Teve duas filhas
com ela Francisca e Maria.
O poeta, homem
rico, foi reduzido a zero. Teve todos os bens, das fazendas
às roupas e aos 406 livros, seqüestrados pela
coroa portuguesa. Havia já 25 anos que o marquês
de Beccaria publicara Dos Delitos e das Penas, o livro-base
do direito penal moderno, que, entre outras coisas, estatuía
o princípio da individualização das penas.
Pela lei portuguesa, no entanto, ainda valia castigar os parentes
do condenado, e assim seus filhos e netos foram declarados
infames. Uma das propriedades de Cláudio era a fazenda
da Vargem, lá junto ao Itacolomi, no caminho entre
Ouro Preto e Mariana. Ela mudou de mãos várias
vezes, desde que foi do poeta. Mas os descendentes continuaram
por ali. Por liberalidade dos novos donos, segundo supõe
Inácio Muzzi, foi-lhes permitido continuar na franja
da fazenda denominada Areião.
Hoje restam no
local Albertina, uma filha e o genro, mas já foram
bem mais numerosos. Até três ou quatro décadas
atrás, distribuídos em nove casas, formavam
uma comunidade fechada, que, para não dividir a terra,
só casava entre si, primo com prima. Parentes de Muzzi
possuíam uma fazenda vizinha e sabiam, desde que um
tio-bisavô do jornalista, o historiador Diogo de Vasconcelos,
pesquisara o assunto, que o pessoal do Areião descendia
de Cláudio. Aos poucos, a comunidade foi se dispersando,
expulsa pela penúria. Não bastasse a pequena
produção de milho, feijão, abóbora
e outros itens não encontrar mais mercado, ainda caíram
sobre eles, nestas últimas décadas, os rigores
da política ambientalista, que proíbe plantações
extensivas, corte de madeira, caça e garimpo com máquina
na região. Albertina tem na Polícia Florestal
uma inimiga. "Eles só vêm aqui para atormentar
gente pobre", disse a Inácio Muzzi. Ela vive dos 700
reais mensais que recebe do Funrural, soma de sua aposentadoria
com a pensão do marido. Uma vez, quando o marido ainda
vivia, um advogado tentou tomar-lhes as terras. Ao cabo de
uma demanda de catorze anos, eles obtiveram o título
de propriedade, por usucapião. Albertina tem tanto
medo de perder esse papel que, quando viaja, o carrega na
bolsa.
Thomas Jefferson,
um contemporâneo catorze anos mais novo que Cláudio
Manuel da Costa, também teve filho com uma escrava.
Entre os descendentes do autor da Declaração
de Independência e terceiro presidente dos EUA há
hoje uma situação de tensão opondo a
ala dos brancos, da linhagem da legítima senhora Jefferson,
à originada na senzala. Os brancos não querem
saber dos outros nas anuais festas familiares nem lhes permitem
os enterros no cemitério familiar da histórica
propriedade de Monticello. No Brasil os descendentes de Cláudio
não têm uma ala "legítima" com que concorrer,
mas o Monticello que lhes coube é um rude e cada dia
mais inútil Areião. Isso diz um pouco das diferentes
maneiras de excluir, em um e outro país. No Brasil
pagam-se discutíveis indenizações a vítimas
da ditadura e reconhecem-se direitos de quilombolas de duvidosa
procedência. Nunca ao estado brasileiro, sucessor da
coroa portuguesa nesta banda do Atlântico (quem mandou
proclamar a independência?), ocorreu indenizar herdeiros
(e herdeiros de alguém hoje tido como herói
da pátria) que tiveram seus bens esbulhados e foram
tachados de infames.