Bem
antes de sua estréia, na última sexta-feira,
o musical Hairspray Em Busca da Fama
(Estados Unidos, 2007) já despertava interesse por
um detalhe engraçado: a presença de John Travolta,
que nos anos 70 ganhou fama em produções desse
tipo, como Grease, no papel de uma mulher. E que mulherão:
graças à maquiagem, Travolta se transmuta numa
mãe dos anos 60 para lá de rechonchuda. Só
por revelar a porção "tiazinha" do ex-galã,
Hairspray já valeria o ingresso. Mas o filme
não se esgota aí. É engraçado
o suficiente para agradar até a quem vê os musicais
com ressalvas. O humor, no seu caso, está a serviço
de uma causa: a denúncia do preconceito. Trata-se de
uma refilmagem da fita independente de 1988 que leva a assinatura
de John Waters, cineasta conhecido pelo estilo camp (a
vertente gay do brega) e pelas críticas anárquicas
à sociedade americana. Assim como o sucesso Os Produtores,
a história inspirou um musical da Broadway, que
por sua vez impulsionou a segunda versão no cinema.
O novo Hairspray é menos amalucado que o original
(que trazia o travesti Divine, morto em 1988, no mesmo papel
de Travolta). Mantém-se fiel, contudo, ao teor político
da obra de Waters, que escancara de forma tão ácida
quanto caricatural a discriminação contra os
negros nos Estados Unidos. Também conserva intacta
uma certa mensagem social subversiva. Num país traumatizado
pelos altos índices de obesidade, o filme é
uma ode aos gordinhos.
Embora Travolta
seja seu maior chamariz e o elenco ostente ainda Michelle
Pfeiffer como uma malvada preconceituosa, quem brilha mesmo
em Hairspray é a novata (e cheinha de fato)
Nikki Blonsky. Ela interpreta a protagonista Tracy, colegial
que adora cantar e dançar, mas cuja participação
num concurso musical é vetada por uma emissora de TV.
Com suas formas generosas, Tracy passa ao largo do padrão
de beleza exigido só loiras, altas e magras
são bem-vindas. Alia-se então aos cantores negros
do programa em questão para promover uma revolta. A
alusão à discriminação não
tem nada de sutil. Os negros surgem dançando num chiqueirinho,
separados dos brancos. E o tal programa reserva uma data no
mês para o Dia dos Negros, a única oportunidade
em que estes podem aparecer na TV. Hairspray é
um filme com causa, mas que não resvala na pregação
chata. Com suas tiradas, ele expõe o que há
de abominável por baixo das aparências sociais
de maneira tão livre, leve e solta quanto o jeito de
ser de sua protagonista.