Gênero intermediário
entre o conto e o romance, a novela não tem a potência
concentrada do primeiro, tampouco o vigor paciente do segundo.
Na luta pela conquista do leitor, ela não consegue
ganhar nem por nocaute nem por pontos para usar uma
imagem cara ao escritor argentino Julio Cortázar, quando
comparava as artes do contista e do romancista. Resta-lhe
a alternativa da vitória "por mérito", que o
novelista pode alcançar reconhecendo e explorando os
próprios limites da novela. É isso que faz com
brilho Jerônimo Teixeira, repórter de VEJA, em
As Horas Podres (Bertrand Brasil; 120 páginas;
25 reais), sua primeira experiência como ficcionista,
lançada em 1997, que ganha agora uma nova edição.
Teixeira constrói
o livro sobre duas histórias paralelas: a de um jovem
que confessa ter matado o pai e a do retorno de um funcionário
público e escritor inexpressivo para sua cidade natal,
por ocasião do enterro da mãe. As Horas Podres
segue à risca um dos preceitos clássicos
da novela: é o enredo que comanda a narrativa, e não
as criaturas que agem dentro dele. Isso significa que ambas
as tramas avançam por meio da apresentação
sucessiva e nervosa de fatos e versões e não
do mergulho no perfil psicológico dos personagens.
No caso do parricídio, o assunto vem à tona
por meio do diálogo entre o assassino e seu tio paterno,
um advogado que o criminoso tenta convencer a defendê-lo.
Não há distinção substancial entre
as duas vozes e, após algum tempo, os papéis
passam a se inverter, de modo a permitir a entrada em cena
de novas camadas de episódios, que ajudam a elucidar
os acontecimentos. Na outra vertente do livro, Teixeira transforma
a sombra da influência dos grandes autores em motivo
de escancarada ironia acerca do fazer literário.
De Machado de Assis
a Franz Kafka, de Augusto dos Anjos a Sigmund Freud
Édipo e a fixação pela figura materna
têm mais importância na novela do que aparentam
à primeira vista , as referências são,
propositalmente, "muitas e variadas", o que não quer
dizer que As Horas Podres constitua "um livro de crítico
literário", no mau sentido do termo (vale dizer, feito
para iniciados). O leitor de VEJA, familiarizado com o rigor
das análises de Teixeira, mestre em letras pela PUC-RS,
tem, aqui, a oportunidade de vê-lo do outro lado do
balcão e constatar que o escritor sustenta o
crítico.