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BlackBerry equipado com Bluetooth, a câmera digital, o laptop com conexão
banda larga wireless, o tocador de MP3: traquitanas eletrônicas parecem
representar o ápice da tecnologia pelo menos até ser condenadas
à obsolescência por modelos mais sofisticados e compactos. Mas é
saudável lembrar que a criatividade humana não nasceu com o microchip.
Apetrechos bem mais simples, que nem sequer precisam de bateria para funcionar,
concentram décadas, às vezes séculos, de pesquisa. A
Evolução das Coisas Úteis (tradução
de Carlos Irineu W. da Costa; Jorge Zahar; 308 páginas; 59 reais), do americano
Henry Petroski, professor de engenharia civil da Universidade Duke, volta um olhar
minucioso sobre objetos comezinhos que raramente despertam curiosidade: talheres,
fitas adesivas, saca-rolhas, abridores de latas, clipes, botões. Tanto
quanto a tela sem botões do iPhone ou as telas diáfanas do Windows
Vista, cada uma dessas miudezas é uma pérola do design. Ao reconstituir
a evolução histórica desses apetrechos simples, o autor ilumina
os complicados caminhos da inovação.
Petroski não aceita o clichê segundo o qual a necessidade é
a mãe da invenção. O homem, pondera, tem necessidade de água,
mas não de cubos de gelo ou ar condicionado. "O luxo é a mãe
da invenção", diz o autor. O garfo ilustra bem esse princípio.
Hoje ele é um instrumento indispensável nas mesas ocidentais, mas
por séculos as pessoas se contentaram em comer com as mãos, ou com
duas facas, uma para cortar, outra para segurar (mal) a carne. O garfo tem vantagens
evidentes sobre esse esquema laborioso. Fixa a carne com mais firmeza e a leva
à boca com mais segurança. Mas ele não é exatamente
uma necessidade tanto que seu uso demorou a se propagar. A data e o local
de invenção do garfo de mesa são incertos. Lá por
1100, ele começou a se popularizar na Itália. Catarina de Médici
o levou para a corte francesa no século XVI. A Inglaterra foi mais tardia
na sua adoção no século XVII, muitos ingleses ainda
consideravam o garfo coisa de gente esnobe.
Seguiu-se a evolução gradual do garfo de dois dentes retos para
o atual modelo de quatro dentes curvos. Essas mudanças corrigiram defeitos
do modelo antigo: os dois dentes retos não permitiam que o garfo transportasse
pedaços pequenos de comida (como ervilhas) do prato para a boca. Petroski
ensina que o inventor é, antes de tudo, um crítico. É a partir
da percepção de defeitos nas coisas existentes que ele chega a um
design inovador. Maços de papel presos com alfinetes ficavam frouxos e
tendiam a rasgar-se, e por isso se inventou o clipe (embora os primeiros modelos
também rasgassem o papel). Fechar uma bota de cano alto com botões
é um processo trabalhoso e demorado? Elias Howe, o inventor da máquina
de costura, pensou ter encontrado a solução em 1851, quando patenteou
um fecho deslizante mas foi só em 1913, depois de várias
tentativas de outros inventores-críticos, que surgiu o zíper. Esse
é um processo inesgotável, pela razão simples de que não
existe invenção humana que não comporte algum defeito. E
foi essa insatisfação permanente que produziu todos os modernos
luxos eletrônicos.