BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado
REVISTAS
VEJA
Edição 2027

26 de setembro de 2007
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
Lya Luft
Millôr
André Petry
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Holofote
Contexto
Radar
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
Publicidade
 

Livros
Miudezas geniais

A história de objetos comuns mostra que a inovação
nasce da permanente insatisfação com as coisas existentes


Jerônimo Teixeira

Fotos Fabiana Bertone, divulgação
Saca-rolha moderno (foto maior) e modelos antigos: o luxo é a mãe da invenção


VEJA TAMBÉM
Nesta reportagem
Quadro: A invenção das miudezas
Exclusivo on-line
Trecho do livro

O BlackBerry equipado com Bluetooth, a câmera digital, o laptop com conexão banda larga wireless, o tocador de MP3: traquitanas eletrônicas parecem representar o ápice da tecnologia – pelo menos até ser condenadas à obsolescência por modelos mais sofisticados e compactos. Mas é saudável lembrar que a criatividade humana não nasceu com o microchip. Apetrechos bem mais simples, que nem sequer precisam de bateria para funcionar, concentram décadas, às vezes séculos, de pesquisa. A Evolução das Coisas Úteis (tradução de Carlos Irineu W. da Costa; Jorge Zahar; 308 páginas; 59 reais), do americano Henry Petroski, professor de engenharia civil da Universidade Duke, volta um olhar minucioso sobre objetos comezinhos que raramente despertam curiosidade: talheres, fitas adesivas, saca-rolhas, abridores de latas, clipes, botões. Tanto quanto a tela sem botões do iPhone ou as telas diáfanas do Windows Vista, cada uma dessas miudezas é uma pérola do design. Ao reconstituir a evolução histórica desses apetrechos simples, o autor ilumina os complicados caminhos da inovação.

Petroski não aceita o clichê segundo o qual a necessidade é a mãe da invenção. O homem, pondera, tem necessidade de água, mas não de cubos de gelo ou ar condicionado. "O luxo é a mãe da invenção", diz o autor. O garfo ilustra bem esse princípio. Hoje ele é um instrumento indispensável nas mesas ocidentais, mas por séculos as pessoas se contentaram em comer com as mãos, ou com duas facas, uma para cortar, outra para segurar (mal) a carne. O garfo tem vantagens evidentes sobre esse esquema laborioso. Fixa a carne com mais firmeza e a leva à boca com mais segurança. Mas ele não é exatamente uma necessidade – tanto que seu uso demorou a se propagar. A data e o local de invenção do garfo de mesa são incertos. Lá por 1100, ele começou a se popularizar na Itália. Catarina de Médici o levou para a corte francesa no século XVI. A Inglaterra foi mais tardia na sua adoção – no século XVII, muitos ingleses ainda consideravam o garfo coisa de gente esnobe.

Seguiu-se a evolução gradual do garfo de dois dentes retos para o atual modelo de quatro dentes curvos. Essas mudanças corrigiram defeitos do modelo antigo: os dois dentes retos não permitiam que o garfo transportasse pedaços pequenos de comida (como ervilhas) do prato para a boca. Petroski ensina que o inventor é, antes de tudo, um crítico. É a partir da percepção de defeitos nas coisas existentes que ele chega a um design inovador. Maços de papel presos com alfinetes ficavam frouxos e tendiam a rasgar-se, e por isso se inventou o clipe (embora os primeiros modelos também rasgassem o papel). Fechar uma bota de cano alto com botões é um processo trabalhoso e demorado? Elias Howe, o inventor da máquina de costura, pensou ter encontrado a solução em 1851, quando patenteou um fecho deslizante – mas foi só em 1913, depois de várias tentativas de outros inventores-críticos, que surgiu o zíper. Esse é um processo inesgotável, pela razão simples de que não existe invenção humana que não comporte algum defeito. E foi essa insatisfação permanente que produziu todos os modernos luxos eletrônicos.

 

  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |