Sob análise,
os trejeitos do personagem
de Fábio Assunção na novela das 8
Marcelo Marthe
Daniel (Fábio Assunção): o bico
não mente. Ele está fixado na fase oral
A uma semana do
final da novela Paraíso Tropical, já
se pode afirmar: no duelo entre mocinho e vilão, o
deletério Olavo (Wagner Moura) foi quem roubou a cena.
Mas Daniel, o executivo mauricinho vivido por Fábio
Assunção, deixará sua marca: ele é
um dos personagens mais cheios de tiques que já se
viram nos folhetins da Globo. Daniel vive em alerta contra
as armações do rival. Só não precisava
exagerar. É o jeito destrambelhado como mexe os braços
e os ombros quando desafia Olavo. Ou ainda as mãos
agitadas que exibe nas discussões com o chefe, Antenor
(Tony Ramos) numa cena, ele chegou a dar pancadas numa
mesa que ecoaram pelo estúdio. O rapaz não relaxa
nem quando está no aconchego de casa, como demonstra
o jeito tenso de enfiar as mãos no bolso. Isso para
não falar naquele bico travado fato que não
escapou aos humoristas do Casseta & Planeta em
sua versão satírica, o "Fábio Assungão".
Gestos expansivos são usados pelos atores para realçar
a dramaticidade de uma cena. Na tela pequena da TV, contudo,
as atuações em geral são mais contidas.
Profissionais experientes dão conta do recado não
raro apenas com os olhos ou a modulação da voz.
Outros como Assunção em Paraíso
Tropical baseiam suas interpretações
num repertório de expressões condizentes com
seus personagens. O ritmo industrial das gravações
e a insegurança podem levar à exacerbação
dessa fórmula. "Quando está sob pressão,
a defesa do ator muitas vezes é se agarrar a maneirismos",
diz a preparadora de elenco Sonaira D'Ávila.
A psicologia também
tem algo a dizer sobre o gestual de Daniel. Se fosse um executivo
de verdade, seus piripaques pegariam mal. "Aqueles trejeitos
passam uma impressão de descontrole emocional e despreparo.
Seria difícil um sujeito assim conseguir emprego",
diz o especialista em retórica Reinaldo Polito. À
luz da terapia reichiana, podem-se tirar conclusões
ainda mais espantosas sobre Daniel. "É possível
compreender certos traços da personalidade de uma pessoa
por meio de seu gestual", diz o psicoterapeuta Claudio Mello
Wagner. Tome-se o bico de Daniel. Essa "expressão de
mania", como se diz no jargão da área, pode
ser sinal de que na infância a pessoa sofreu um trauma
por ter sua amamentação cortada bruscamente.
O que costuma resultar em adultos eternamente insatisfeitos
e ansiosos. Tecnicamente (com perdão do pedantismo),
Daniel é o que se classifica como um sujeito fixado
na fase oral. Coisa que se encontra nas melhores novelas.