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26 de setembro de 2007
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Televisão
Paraíso gestual

Sob análise, os trejeitos do personagem
de Fábio Assunção na novela das 8


Marcelo Marthe

Daniel (Fábio Assunção): o bico não mente. Ele está fixado na fase oral

A uma semana do final da novela Paraíso Tropical, já se pode afirmar: no duelo entre mocinho e vilão, o deletério Olavo (Wagner Moura) foi quem roubou a cena. Mas Daniel, o executivo mauricinho vivido por Fábio Assunção, deixará sua marca: ele é um dos personagens mais cheios de tiques que já se viram nos folhetins da Globo. Daniel vive em alerta contra as armações do rival. Só não precisava exagerar. É o jeito destrambelhado como mexe os braços e os ombros quando desafia Olavo. Ou ainda as mãos agitadas que exibe nas discussões com o chefe, Antenor (Tony Ramos) – numa cena, ele chegou a dar pancadas numa mesa que ecoaram pelo estúdio. O rapaz não relaxa nem quando está no aconchego de casa, como demonstra o jeito tenso de enfiar as mãos no bolso. Isso para não falar naquele bico travado – fato que não escapou aos humoristas do Casseta & Planeta em sua versão satírica, o "Fábio Assungão". Gestos expansivos são usados pelos atores para realçar a dramaticidade de uma cena. Na tela pequena da TV, contudo, as atuações em geral são mais contidas. Profissionais experientes dão conta do recado não raro apenas com os olhos ou a modulação da voz. Outros – como Assunção em Paraíso Tropical – baseiam suas interpretações num repertório de expressões condizentes com seus personagens. O ritmo industrial das gravações e a insegurança podem levar à exacerbação dessa fórmula. "Quando está sob pressão, a defesa do ator muitas vezes é se agarrar a maneirismos", diz a preparadora de elenco Sonaira D'Ávila.

A psicologia também tem algo a dizer sobre o gestual de Daniel. Se fosse um executivo de verdade, seus piripaques pegariam mal. "Aqueles trejeitos passam uma impressão de descontrole emocional e despreparo. Seria difícil um sujeito assim conseguir emprego", diz o especialista em retórica Reinaldo Polito. À luz da terapia reichiana, podem-se tirar conclusões ainda mais espantosas sobre Daniel. "É possível compreender certos traços da personalidade de uma pessoa por meio de seu gestual", diz o psicoterapeuta Claudio Mello Wagner. Tome-se o bico de Daniel. Essa "expressão de mania", como se diz no jargão da área, pode ser sinal de que na infância a pessoa sofreu um trauma por ter sua amamentação cortada bruscamente. O que costuma resultar em adultos eternamente insatisfeitos e ansiosos. Tecnicamente (com perdão do pedantismo), Daniel é o que se classifica como um sujeito fixado na fase oral. Coisa que se encontra nas melhores novelas.

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