O Fantástico
nunca esteve tão interessante.
Só faltou combinar com a audiência
Marcelo Marthe
Com 34 anos recém-completados,
o Fantástico vive um momento paradoxal. Nos
últimos tempos, a atração das noites
de domingo da Globo provou que é possível falar
de assuntos complexos na TV de forma interessante e acessível
ao grande público. Se um dia já foi o paraíso
dos videoclipes, dos mágicos e da parapsicologia (para
não falar em algo como o "menino da bolha", nos anos
70), seu carro-chefe hoje é um quadro como O Valor
do Amanhã, em que o economista e filósofo Eduardo
Giannetti discorre sobre os juros. A atriz Regina Casé
acaba de estrear uma série que enfoca a periferia de
metrópoles estrangeiras. E também entrou no
ar o quadro É Muita História, no qual o jornalista
Eduardo Bueno desconstrói mitos históricos.
Ao mesmo tempo em que foge ao óbvio, porém,
o Fantástico enfrenta problemas no ibope. Desde
abril, quando iniciou um processo de renovação
do visual e do conteúdo, sua curva de audiência
é descendente. No último domingo, obteve apenas
23 pontos de média na Grande São Paulo
uma das menores que já registrou. Por catorze minutos,
foi superado pelo SBT, que exibia o Domingo Legal, de
Gugu Liberato. A turma do Pânico, da RedeTV!,
também lhe roubou pontos. Não é nada
que se compare à crise de 2002, quando Silvio Santos
infligiu derrotas sucessivas à Globo com seu Casa
dos Artistas. Ainda assim, acendeu-se a luz vermelha.
"Dizer que estamos tranqüilos seria inverdade. Mas o
Fantástico permanece líder", afirma Ali
Kamel, diretor executivo do jornalismo da Globo.
A emissora acredita
que a queda na audiência se deve em boa medida a fatores
conjunturais. Leva algum tempo, raciocina-se, para os espectadores
se habituarem às reciclagens sofridas pelo programa.
E aí se abrem flancos para a concorrência. Na
semana passada, o SBT se aproveitou da fragilidade para estender
a duração do programa de Gugu, que exibiu um
quadro assistencialista e outro em que se premia quem descobre
uma nota de 2 reais perdida. Mas apenas isso não explica
os números. Tanto que, em breve, a Globo deverá
fazer uma pesquisa qualitativa para avaliar o programa. É
fato que o Fantástico perdeu força junto
aos jovens das classes A e B. Uma parcela deles está
preferindo sintonizar o Pânico que rouba
pontos do programa com tiradas em cima das estrelas da Globo.
O Fantástico
enfrenta ainda uma guerra em outro front. O Domingo
Espetacular, da Record, é um clone que vai ao ar
mais cedo e tem buscado minar as reportagens do concorrente.
Na época do acidente da TAM, a Globo preparou uma matéria
sobre um sobrevivente do impacto do avião no prédio
da companhia. A Record se antecipou e também exibiu
uma entrevista com o pai da vítima. A partir deste
domingo, a Record espera fustigar o Fantástico com
mais uma arma: a série americana Heroes, que
irá ao ar em seu horário.
Para tentar reverter
o momento ruim, o Fantástico tem testado uma
ordem diferente para suas atrações a cada domingo.
A boa notícia é que a aposta em temas mais elevados
não está diretamente relacionada à queda
no ibope. "O público vê nesses quadros uma forma
divertida de ganhar cultura", diz Ali Kamel. Mesmo discutindo
conceitos abstratos, O Valor do Amanhã tem garantido
os picos de audiência do Fantástico. A
abordagem da história também não decepcionou.
Investiu-se nas séries "cabeça" depois do sucesso
alcançado pelo quadro sobre filosofia apresentado por
Viviane Mosé. Uma nova fornada dele deve chegar ao
programa em breve. Assim como um quadro sobre mitologia.
O show em três tempos
A ERA DAS PÍLULAS CULTURAIS
Fotos divulgação/TV
Globo
Bueno no quadro É
Muita História: conhecimento com humor
Ao colocar em pauta a filosofia,
em 2005, o programa inaugurou o filão dos
quadros que abordam temas do conhecimento de maneira
simples. Hoje, há uma série sobre
juros e outra sobre a história do Brasil
A ERA DAS GRANDES REPORTAGENS
Guilherme Vizame
Glória Maria na
África: papo viajante
O jornalismo ganhou espaço
com o crescimento das equipes da Globo no exterior,
nos anos 80. Na década de 90 e na atual,
relatos de viagens e matérias investigativas
deram o tom
A ERA DOS CLIPES MUSICAIS
Nos anos 70: lembra da
Sandra Bréa?
Nos anos 70 e em boa parte
dos 80, esse tipo de entretenimento era o forte.
Havia shows em estúdio e produções
da pré-história do videoclipe