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26 de setembro de 2007
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Especial
Ações em boa companhia

De executivos a copeiras, 150 000 brasileiros já participam
dos 2 000 clubes de investimento na Bolsa de Valores


Cíntia Borsato

 

SEM PEDÁGIO

Roberto Setton
Bernardo Camargo (no colo do pai): 1 ano e 3 meses de idade, CPF próprio e 8 000 reais em ações


Quando abriu seu capital, em 2002, a CCR Concessionária, empresa que administra rodovias no país, fez mais do que capitalizar-se no mercado. Indiretamente, despertou o interesse de seus funcionários pelo mercado de ações. A tal ponto que o departamento de relações com investidores da companhia ajudou os empregados a criar, em novembro de 2006, um clube de investimento. O clube nasceu com apenas três funcionários. Hoje conta com 48 cotistas – entre eles Bernardo Camargo, de apenas 1 ano e 3 meses, filho do engenheiro Eduardo Camargo. Participam dele desde o presidente da empresa até cobradores de pedágio. Os investimentos vão de 100 a 100 000 reais. O patrimônio inicial do clube era de 10 000 reais. Hoje está em 1,9 milhão.


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Poucos investidores enfrentam com tanta serenidade as turbulências do mercado acionário quanto Bernardo Camargo. Ele aplica em ações há mais de um ano e possui um patrimônio de 8.000 reais. Mas não liga para o vaivém do mercado. Bernardo ainda não fala. Tem apenas 1 ano e 3 meses de idade. Ele aparece na foto ao lado no colo de seu pai, o engenheiro Eduardo Camargo, de 33 anos. Por meio do clube de investimento da empresa onde trabalha (a CCR Concessionária), Eduardo destina 450 reais todo mês à carteira de ações do filho. Se depender do pai, Bernardo terá no mínimo 200.000 reais em mãos quando chegar aos 18 anos. "Ele poderá pagar a faculdade, comprar um apartamento ou abrir o próprio negócio." A incursão involuntária do pequeno Bernardo na bolsa evidencia não só a esperança que os brasileiros passaram a depositar no mercado acionário com o fim da inflação, mas também o fenômeno da multiplicação de clubes de investimento.

Eduardo não adquiriu ações para o filho diretamente da internet. Também não se tornou cliente de uma corretora. Preferiu unir-se ao Clube Progresso, fundado em 2006, que reúne 48 funcionários da empresa e seus parentes. A empresa administra o sistema Anhangüera-Bandeirantes, no interior do estado de São Paulo, e a ponte Rio–Niterói, entre outras vias. Esses funcionários reuniram suas poupanças e decidiram aplicá-las conjuntamente. Dá-se a grupos como esse o nome de clube de investimento. Regulamentados nos Estados Unidos na década de 40, esses clubes nasceram de turmas informais de investidores que trocavam idéias sobre o mercado. Hoje são formalizados e obedecem a regras impostas pelas bolsas para proteger os aplicadores. Há 18.000 deles nos Estados Unidos e 2.000 no Brasil.

Mas qual é a vantagem dos clubes em relação a outros modos de comprar ações? Eles são uma forma popular e relativamente amigável de pôr os pés no mercado financeiro. Em vez de entregar o dinheiro a um fundo administrado por um gestor desconhecido, pode-se investir com amigos e conhecidos. No caso de alguns clubes, é possível até participar diretamente das decisões de investimento. Os cotistas elegem um representante, que fica encarregado de comunicar as principais movimentações e ajudar os iniciantes no mundo das ações. Como começar? Para formar um clube é necessário reunir um grupo de pessoas com alguma afinidade, ter um CNPJ próprio registrado na Bovespa e ser atrelado a corretoras ou bancos de investimento, que, a pedido, podem indicar um profissional para guiar os leigos em suas decisões de aplicação. O número mínimo é de três participantes, pois nenhum sócio pode ter mais do que 40% do patrimônio. Há dois tipos de clube. Nos abertos, em que qualquer investidor pode entrar, há um limite máximo de 150 participantes. Se o clube for fechado – por exemplo, restrito a funcionários de uma empresa ou a membros de uma mesma família –, esse limite pode ser ultrapassado, desde que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM, órgão do governo federal que fiscaliza o mercado de ações) entenda que existe um vínculo muito forte entre os participantes. Os clubes são muito parecidos com os populares fundos de investimento em ações. Mas levam vantagens. Eles não precisam convocar formalmente os seus sócios para assembléias nem contratar auditorias (veja quadro abaixo). Assim como os fundos, os clubes cobram tarifas anuais de seus associados – elas se situam ao redor de 4% do patrimônio.

Apenas no Brasil, esses clubes já compõem um patrimônio de mais de 13 bilhões de reais, segundo Milton Milioni, sócio da corretora Geração Futuro, uma das pioneiras em lançamentos desse tipo. O desempenho dos clubes geridos por essa corretora é uma boa medida do sucesso desse investimento. Em 2001, apenas 789 pessoas participavam dos primeiros clubes lançados pela Futuro. Hoje, são quase 40.000, um crescimento de 5.000% em seis anos. A gama de participantes varia. São crianças como Bernardo Camargo. Ou militares como Cristiano Ghisio, que organizou o clube Duque de Caxias para gerir o patrimônio dos oficiais do Exército. Também pode ser um negócio familiar, como o dos estudantes Rodrigo e Ricardo Chen. Estimulados pelo avô, o imigrante chinês Chen Shao Nan, os dois fundaram o Clube do Cofrinho em janeiro de 2004. "Nosso avô investiu um valor bem baixo, só para nos estimular", diz Rodrigo. Há clubes de profissionais liberais e aqueles só para mulheres, além de associações vinculadas a sindicatos e empresas (veja quadros abaixo).

Nos tempos da inflação alta, os brasileiros só conseguiam planejar o futuro financeiro dos filhos colocando dólares sob o colchão ou tornando-se credores de um estado gastador, por meio da compra de títulos públicos. A bolsa era território de espertalhões, geralmente detentores de informações privilegiadas. Além deles, não havia investidores, mas vítimas. Figuras como essas não desapareceram de vez – no Brasil ou em qualquer outro país. Mas o ambiente da Bolsa de Valores de São Paulo tornou-se mais salubre, muito mais regrado e certamente mais acessível na última década – ainda que os ciclos financeiros tornem investimentos em ações voláteis a curto prazo.

Corretores sempre serão necessários, mas não devem monopolizar o conhecimento de ações nem ser o acesso único para quem queira investir. Daí a importância do sistema de home brokers e dos clubes de investimento. Ambos têm o condão de reduzir a presença de intermediários no salutar e necessário relacionamento entre a sociedade brasileira e o mercado de ações. Bolsas de valores serão tão mais eficientes quanto menor for o número de intermediários e melhor for o conhecimento dos cidadãos a respeito de suas regras de funcionamento.

 

O QUE SÃO CLUBES DE INVESTIMENTO E COMO MONTÁ-LOS

1 Um clube é uma associação de pelo menos três investidores que se reúnem para aplicar dinheiro em ações. É uma pessoa jurídica que tem de ser registrada na bolsa de valores para poder funcionar.  

2 Para montar um clube, selecione pessoas com interesses em comum. Podem ser familiares, amigos ou colegas de trabalho. Procure então uma das 68 corretoras de valores que administram clubes. Verifique quanto a corretora cobra, e que serviços oferece, antes de registrar seu clube.  

3 Após o registro, programe os depósitos de dinheiro e os investimentos. Há dois tipos de gestão: a feita pela corretora e a feita pelos sócios do clube. Prefira a gestão feita pela corretora, exceto se algum dos sócios conhecer bem o mercado acionário.  

4 Acompanhe de perto o desempenho do fundo, comparando o rendimento com os principais índices do mercado acionário, como o Bovespa.

Fonte: gestores

 

PATENTE EM ALTA

 
Mirian Ftchtner
Capitão Cristiano Ghisio (no centro): clube de capitães começou com 100 000 reais e hoje tem 4 milhões

O clube de investimento Duque de Caxias não leva o nome do patrono do Exército brasileiro por acaso. Ele foi criado para cuidar do patrimônio dos oficiais da corporação. A idéia surgiu durante um curso de aperfeiçoamento de capitães realizado no Rio de Janeiro. Na ocasião, a Bovespa fez uma apresentação sobre o mercado de ações. O capitão Cristiano Ghisio organizou o clube logo após a palestra. "Eram 430 alunos na sala, e eu perguntei quem se interessava em investir. Duzentos concordaram. Decidimos que cada um investiria 500 reais", conta. O clube começou em novembro de 2006, com 100 000 reais em caixa. Já há 362 cotistas, e o fundo tem um patrimônio de 4 milhões de reais.

 

SABER FINANCEIRO

 
Lailson Santos
Família Chen: aos 90 anos, o avô Nan ensina os netos a investir

Chen Shao Nan trocou a China pelo Brasil nos anos 50. Fugia do comunismo. Investe em ações desde os anos 70, quando poucos se aventuravam no mercado acionário. Hoje, aos 90 anos, transmite aos netos gêmeos Rodrigo e Ricardo Chen, ambos engenheiros de 26 anos, a importância do mercado de capitais. "É a melhor forma de ensinar a noção de dinheiro", afirma. Em janeiro de 2004, quando os gêmeos estavam no último ano do curso de engenharia mecatrônica na Universidade de São Paulo, netos e avô fundaram o Clube do Cofrinho. Amigos e parentes foram convidados. No início eram vinte cotistas e um patrimônio de 20 000 reais. Hoje, são 35 integrantes e 231 000 reais. É claro que o avô Chen também participa. "Ele colocou um valor bem pequeno, só para nos estimular", diz Rodrigo.

 

O CLUBE DOS 30

 
Lailson Santos
Maria de Lourdes Cruz (de touca): dinheiro reservado para a faculdade do filho caçula

Em março de 2004, os técnicos em enfermagem, faxineiros e motoristas dos hospitais de Campinas começaram a investir em ações por meio do Clube Invest Saúde, organizado pelo sindicato da categoria. Os cotistas combinaram algo pouco usual: o investimento inicial mínimo seria de apenas 30 reais, valor muito inferior ao da média de mercado, mas compatível com os ganhos de seus integrantes. Quem quiser pode investir mais do que isso. A copeira Maria de Lourdes Cruz, 45 anos, deposita 100 reais todo mês. Com quatro filhos e quatro netos, ela já acumula 6 000 reais para a faculdade do filho mais novo.

 

NADA DE ESTATAIS

 
Mirian FIchtner
Rafael Sá (no centro) e os fundadores do clube Eagle: "Evite as estatais"

Rafael Sá, 31 anos, Leonardo Fração, 25, e Eduardo Sampaio, 26. Esses três jovens empresários se conheceram em um curso no Instituto de Estudos Empresariais de Porto Alegre. Descobriram o gosto comum por ações e pelo capital privado. Resolveram unir forças. Em setembro de 2006, cada um desembolsou 35 000 reais. Assim nascia o clube de investimento Eagle, que hoje tem um patrimônio de 2 milhões de reais – são 25 cotistas, com aplicações de até 300 000 reais. Tanta confiança vem de uma política de baixo risco. "Optamos por empresas livres do governo e em setores com pouca turbulência." O que isso significa? "Não investimos em energia ou concessões de rodovias", explica Sá.

 

EXCLUSIVO PARA INVESTIDORAS

Roberto Setton
Denise Damiani (em primeiro plano) e as sócias do clube Saphira: investidor não entra


A executiva Denise Damiani coordena um grupo de desenvolvimento de carreiras de mulheres de uma grande companhia. Em uma conversa sobre independência financeira com colegas, surgiu a idéia de montar um clube de investimento exclusivamente feminino – o Saphira (assim mesmo, com ph, por indicação de uma numeróloga). A carteira já tem 1,3 milhão de reais e 106 investidoras. O investimento mínimo é de 100 reais. De maio de 2006 (quando foi fundado) até hoje, a rentabilidade do Saphira foi de 93,27% – contra cerca de 50% do Ibovespa.

 


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