De executivos a copeiras,
150 000 brasileiros já participam
dos 2 000 clubes de investimento na Bolsa de Valores
Cíntia Borsato
SEM PEDÁGIO
Roberto
Setton
Bernardo Camargo
(no colo do pai): 1 ano e 3 meses de idade,
CPF próprio e 8 000 reais em ações
Quando abriu seu capital, em 2002, a CCR Concessionária,
empresa que administra rodovias no país, fez
mais do que capitalizar-se no mercado. Indiretamente,
despertou o interesse de seus funcionários pelo
mercado de ações. A tal ponto que o departamento
de relações com investidores da companhia
ajudou os empregados a criar, em novembro de 2006, um
clube de investimento. O clube nasceu com apenas três
funcionários. Hoje conta com 48 cotistas
entre eles Bernardo Camargo, de apenas 1 ano e 3 meses,
filho do engenheiro Eduardo Camargo. Participam dele
desde o presidente da empresa até cobradores
de pedágio. Os investimentos vão de 100
a 100 000 reais. O patrimônio inicial do clube
era de 10 000 reais. Hoje está em 1,9 milhão.
Poucos
investidores enfrentam com tanta serenidade as turbulências
do mercado acionário quanto Bernardo Camargo. Ele aplica
em ações há mais de um ano e possui um
patrimônio de 8.000 reais. Mas não liga para
o vaivém do mercado. Bernardo ainda não fala.
Tem apenas 1 ano e 3 meses de idade. Ele aparece na foto ao
lado no colo de seu pai, o engenheiro Eduardo Camargo, de
33 anos. Por meio do clube de investimento da empresa onde
trabalha (a CCR Concessionária), Eduardo destina 450
reais todo mês à carteira de ações
do filho. Se depender do pai, Bernardo terá no mínimo
200.000 reais em mãos quando chegar aos 18 anos. "Ele
poderá pagar a faculdade, comprar um apartamento ou
abrir o próprio negócio." A incursão
involuntária do pequeno Bernardo na bolsa evidencia
não só a esperança que os brasileiros
passaram a depositar no mercado acionário com o fim
da inflação, mas também o fenômeno
da multiplicação de clubes de investimento.
Eduardo não
adquiriu ações para o filho diretamente da internet.
Também não se tornou cliente de uma corretora.
Preferiu unir-se ao Clube Progresso, fundado em 2006, que
reúne 48 funcionários da empresa e seus parentes.
A empresa administra o sistema Anhangüera-Bandeirantes,
no interior do estado de São Paulo, e a ponte RioNiterói,
entre outras vias. Esses funcionários reuniram suas
poupanças e decidiram aplicá-las conjuntamente.
Dá-se a grupos como esse o nome de clube de investimento.
Regulamentados nos Estados Unidos na década de 40,
esses clubes nasceram de turmas informais de investidores
que trocavam idéias sobre o mercado. Hoje são
formalizados e obedecem a regras impostas pelas bolsas para
proteger os aplicadores. Há 18.000 deles nos Estados
Unidos e 2.000 no Brasil.
Mas qual é
a vantagem dos clubes em relação a outros modos
de comprar ações? Eles são uma forma
popular e relativamente amigável de pôr os pés
no mercado financeiro. Em vez de entregar o dinheiro a um
fundo administrado por um gestor desconhecido, pode-se investir
com amigos e conhecidos. No caso de alguns clubes, é
possível até participar diretamente das decisões
de investimento. Os cotistas elegem um representante, que
fica encarregado de comunicar as principais movimentações
e ajudar os iniciantes no mundo das ações. Como
começar? Para formar um clube é necessário
reunir um grupo de pessoas com alguma afinidade, ter um CNPJ
próprio registrado na Bovespa e ser atrelado a corretoras
ou bancos de investimento, que, a pedido, podem indicar um
profissional para guiar os leigos em suas decisões
de aplicação. O número mínimo
é de três participantes, pois nenhum sócio
pode ter mais do que 40% do patrimônio. Há dois
tipos de clube. Nos abertos, em que qualquer investidor pode
entrar, há um limite máximo de 150 participantes.
Se o clube for fechado por exemplo, restrito a funcionários
de uma empresa ou a membros de uma mesma família ,
esse limite pode ser ultrapassado, desde que a Comissão
de Valores Mobiliários (CVM, órgão do
governo federal que fiscaliza o mercado de ações)
entenda que existe um vínculo muito forte entre os
participantes. Os clubes são muito parecidos com os
populares fundos de investimento em ações. Mas
levam vantagens. Eles não precisam convocar formalmente
os seus sócios para assembléias nem contratar
auditorias (veja quadro abaixo). Assim como os fundos,
os clubes cobram tarifas anuais de seus associados
elas se situam ao redor de 4% do patrimônio.
Apenas no Brasil,
esses clubes já compõem um patrimônio
de mais de 13 bilhões de reais, segundo Milton Milioni,
sócio da corretora Geração Futuro, uma
das pioneiras em lançamentos desse tipo. O desempenho
dos clubes geridos por essa corretora é uma boa medida
do sucesso desse investimento. Em 2001, apenas 789 pessoas
participavam dos primeiros clubes lançados pela Futuro.
Hoje, são quase 40.000, um crescimento de 5.000% em
seis anos. A gama de participantes varia. São crianças
como Bernardo Camargo. Ou militares como Cristiano Ghisio,
que organizou o clube Duque de Caxias para gerir o patrimônio
dos oficiais do Exército. Também pode ser um
negócio familiar, como o dos estudantes Rodrigo e Ricardo
Chen. Estimulados pelo avô, o imigrante chinês
Chen Shao Nan, os dois fundaram o Clube do Cofrinho em janeiro
de 2004. "Nosso avô investiu um valor bem baixo, só
para nos estimular", diz Rodrigo. Há clubes de profissionais
liberais e aqueles só para mulheres, além de
associações vinculadas a sindicatos e empresas
(veja quadros abaixo).
Nos tempos da inflação
alta, os brasileiros só conseguiam planejar o futuro
financeiro dos filhos colocando dólares sob o colchão
ou tornando-se credores de um estado gastador, por meio da
compra de títulos públicos. A bolsa era território
de espertalhões, geralmente detentores de informações
privilegiadas. Além deles, não havia investidores,
mas vítimas. Figuras como essas não desapareceram
de vez no Brasil ou em qualquer outro país.
Mas o ambiente da Bolsa de Valores de São Paulo tornou-se
mais salubre, muito mais regrado e certamente mais acessível
na última década ainda que os ciclos
financeiros tornem investimentos em ações voláteis
a curto prazo.
Corretores sempre
serão necessários, mas não devem monopolizar
o conhecimento de ações nem ser o acesso único
para quem queira investir. Daí a importância
do sistema de home brokers e dos clubes de investimento. Ambos
têm o condão de reduzir a presença de
intermediários no salutar e necessário relacionamento
entre a sociedade brasileira e o mercado de ações.
Bolsas de valores serão tão mais eficientes
quanto menor for o número de intermediários
e melhor for o conhecimento dos cidadãos a respeito
de suas regras de funcionamento.
O QUE SÃO
CLUBES DE INVESTIMENTO E COMO MONTÁ-LOS
1
Um clube é uma associação de pelo
menos três investidores que se reúnem para
aplicar dinheiro em ações. É uma
pessoa jurídica que tem de ser registrada na
bolsa de valores para poder funcionar.
2
Para montar um clube, selecione pessoas com interesses
em comum. Podem ser familiares, amigos ou colegas de
trabalho. Procure então uma das 68 corretoras
de valores que administram clubes. Verifique quanto
a corretora cobra, e que serviços oferece, antes
de registrar seu clube.
3
Após o registro, programe os depósitos
de dinheiro e os investimentos. Há dois tipos
de gestão: a feita pela corretora e a feita pelos
sócios do clube. Prefira a gestão feita
pela corretora, exceto se algum dos sócios conhecer
bem o mercado acionário.
4
Acompanhe de perto o desempenho do fundo, comparando
o rendimento com os principais índices do mercado
acionário, como o Bovespa.
Fonte: gestores
PATENTE EM ALTA
Mirian
Ftchtner
Capitão
Cristiano Ghisio (no centro): clube de capitães
começou com 100 000 reais e hoje tem 4 milhões
O clube de investimento
Duque de Caxias não leva o nome do patrono do
Exército brasileiro por acaso. Ele foi criado
para cuidar do patrimônio dos oficiais da corporação.
A idéia surgiu durante um curso de aperfeiçoamento
de capitães realizado no Rio de Janeiro. Na ocasião,
a Bovespa fez uma apresentação sobre o
mercado de ações. O capitão Cristiano
Ghisio organizou o clube logo após a palestra.
"Eram 430 alunos na sala, e eu perguntei quem se interessava
em investir. Duzentos concordaram. Decidimos que cada
um investiria 500 reais", conta. O clube começou
em novembro de 2006, com 100 000 reais em caixa. Já
há 362 cotistas, e o fundo tem um patrimônio
de 4 milhões de reais.
SABER FINANCEIRO
Lailson Santos
Família Chen: aos
90 anos, o avô Nan ensina os netos a investir
Chen Shao Nan trocou
a China pelo Brasil nos anos 50. Fugia do comunismo.
Investe em ações desde os anos 70, quando
poucos se aventuravam no mercado acionário. Hoje,
aos 90 anos, transmite aos netos gêmeos Rodrigo
e Ricardo Chen, ambos engenheiros de 26 anos, a importância
do mercado de capitais. "É a melhor forma de
ensinar a noção de dinheiro", afirma.
Em janeiro de 2004, quando os gêmeos estavam no
último ano do curso de engenharia mecatrônica
na Universidade de São Paulo, netos e avô
fundaram o Clube do Cofrinho. Amigos e parentes foram
convidados. No início eram vinte cotistas e um
patrimônio de 20 000 reais. Hoje, são 35
integrantes e 231 000 reais. É claro que o avô
Chen também participa. "Ele colocou um valor
bem pequeno, só para nos estimular", diz Rodrigo.
O CLUBE DOS
30
Lailson Santos
Maria de Lourdes Cruz
(de touca): dinheiro reservado para a faculdade
do filho caçula
Em março
de 2004, os técnicos em enfermagem, faxineiros
e motoristas dos hospitais de Campinas começaram
a investir em ações por meio do Clube
Invest Saúde, organizado pelo sindicato da categoria.
Os cotistas combinaram algo pouco usual: o investimento
inicial mínimo seria de apenas 30 reais, valor
muito inferior ao da média de mercado, mas compatível
com os ganhos de seus integrantes. Quem quiser pode
investir mais do que isso. A copeira Maria de Lourdes
Cruz, 45 anos, deposita 100 reais todo mês. Com
quatro filhos e quatro netos, ela já acumula
6 000 reais para a faculdade do filho mais novo.
NADA DE ESTATAIS
Mirian FIchtner
Rafael Sá (no
centro) e os fundadores do clube Eagle: "Evite
as estatais"
Rafael Sá,
31 anos, Leonardo Fração, 25, e Eduardo
Sampaio, 26. Esses três jovens empresários
se conheceram em um curso no Instituto de Estudos Empresariais
de Porto Alegre. Descobriram o gosto comum por ações
e pelo capital privado. Resolveram unir forças.
Em setembro de 2006, cada um desembolsou 35 000 reais.
Assim nascia o clube de investimento Eagle, que hoje
tem um patrimônio de 2 milhões de reais
são 25 cotistas, com aplicações
de até 300 000 reais. Tanta confiança
vem de uma política de baixo risco. "Optamos
por empresas livres do governo e em setores com pouca
turbulência." O que isso significa? "Não
investimos em energia ou concessões de rodovias",
explica Sá.
EXCLUSIVO PARA
INVESTIDORAS
Roberto Setton
Denise Damiani (em
primeiro plano) e as sócias do clube
Saphira: investidor não entra
A executiva Denise Damiani coordena um grupo de desenvolvimento
de carreiras de mulheres de uma grande companhia. Em
uma conversa sobre independência financeira com
colegas, surgiu a idéia de montar um clube de
investimento exclusivamente feminino o Saphira
(assim mesmo, com ph, por indicação de
uma numeróloga). A carteira já tem 1,3
milhão de reais e 106 investidoras. O investimento
mínimo é de 100 reais. De maio de 2006
(quando foi fundado) até hoje, a rentabilidade
do Saphira foi de 93,27% contra cerca de 50%
do Ibovespa.