Investidores que
compram e vendem ações via internet
já respondem por 8% do volume financeiro da bolsa
Laura Ming
Fabiano Accorsi
TUDO
EM FAMÍLIA O empresário paulista
Luiz Guilherme Bueno (sentado, ao centro), 26 anos,
aplica todo o dinheiro que tem e o de boa parte
da família em ações. Isso
também vale para o caixa de sua empresa de exportação.
Bueno avalia ter perdido 30% do que investiu na recente
turbulência que começou nos Estados Unidos
e trouxe instabilidade à Bovespa. "Na pior semana
eu tive vontade de vender tudo para evitar perdas maiores."
Mesmo assim, ele se controlou. Desfez-se apenas das
ações que tiveram as maiores valorizações.
"Não achei a crise assim tão grave, mas
mudei minha estratégia. Antes eu preferia adquirir
ações na abertura de capital das empresas.
Agora vou investir em empresas de grande porte, que
se recuperaram mais rápido."
Os recordes batidos
por brasileiros na internet não são propriamente
edificantes. O país tornou-se a maior base mundial
de usuários de sistemas de mensagens, encontros e fofocas,
como o Orkut e o MSN/Windows Live Messenger. Além disso,
devido à sufocante carga tributária, foi o primeiro
país do mundo a receber, de seus contribuintes, declarações
de renda on-line uma tecnologia a serviço do
Fisco. Recentemente, no entanto, uma legião de jovens
brasileiros passou a utilizar a rede mundial para alavancar
sua auto-suficiência financeira. São pessoas
que compram e vendem ações pela internet, por
meio de um sistema virtual chamado home broker, lançado
pela Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) em 1999.
O sistema começou modestamente, com 3 300 participantes,
e hoje tem mais de 130 000, que respondem por 8% do volume
financeiro da Bovespa. Segundo a bolsa, 43% deles têm
até 30 anos. "Eles são mais receptivos ao sistema
porque estão mais familiarizados com a internet e confiam
mais nela", diz Amerson Magalhães, da corretora paulista
Título, uma das que oferecem o home broker.
Não é
tão complicado participar desse negócio. O investidor
precisa de um computador e de uma conexão de banda
larga. Deve então abrir uma conta em uma das 57 corretoras
ligadas à Bovespa que oferecem o home broker (veja
a tabela com os serviços oferecidos).
É necessário preencher um detalhado cadastro,
informando renda e patrimônio. Também
é preciso enviar à corretora cópias do
documento de identidade e do CPF e um comprovante de residência.
Depois de todos os trâmites, o investidor recebe uma
senha para acessar o sistema e já pode começar
a operar.
Fabiano Accorsi
AFICIONADO
DA ADRENALINA O fato de já operar
desde 2003 o torna um veterano no universo juvenil dos
home brokers. Vitor Belíssimo, 27 anos, não
se apavorou com a crise de julho. "Alguns amigos entraram
em pânico e venderam na baixa, mas eu sabia que
tinha de ficar tranqüilo", diz ele, que já
foi um operador de tempo integral. "Nas últimas
semanas, quis saber se algum grande banco havia quebrado.
Tentei descobrir os limites da crise." Apesar da turbulência
recente e do desgaste com a tensão de operar todos
os dias, Belíssimo continua sendo um aficionado
do mercado e dos elevados níveis de adrenalina.
"Não tem graça investir menos de 10 000
reais. Gosto de emoção."
Aos 27 anos, Vitor
Belíssimo pode ser considerado um veterano no home
broker, onde começou a operar em 2003. Nesse ano ele
vendeu um imóvel construído em um terreno que
recebera de herança e se tornou um operador doméstico
em período integral por algum tempo. Ligava o computador
às 9 da manhã, antes de o pregão abrir,
e não se desconectava antes de 1 da madrugada. O dia
transcorria entre análises e planejamento de novas
estratégias, com umas poucas pausas para comer. A rotina
fez com que acumulasse não apenas ganho financeiro,
mas também dores nas costas, péssimas noites
de sono, muita nicotina e 10 quilos a mais. Agora, ele procura
aliviar o stress: "Apago a luz do quarto e ouço um
CD de jazz".
A experiência
no mercado fez com que Belíssimo não entrasse
em pânico com a recente turbulência internacional,
ao contrário de muitos outros usuários do home
broker. Os novatos se apavoraram em agosto, quando o índice
Bovespa chegou a cair 8,8% em um só dia. "Tenho amigos
que se assustaram e venderam na baixa, mas eu sabia que tinha
de ficar tranqüilo." Ele tem um saudável ceticismo
ao acompanhar o mercado. "Não basta simplesmente comprar
ações e esquecer delas para ganhar dinheiro
a longo prazo. É
preciso escolher boas empresas para ter lucro."
Fabiano Accorsi
FOCO
NO APARTAMENTO A estudante de direito
carioca Rosana Ferreira, 27 anos, aproveitou as férias
do meio do ano para plugar-se no sistema de compra e
venda de ações pela internet da Bovespa.
Seu objetivo: multiplicar o dinheiro herdado do pai
para viabilizar a compra de um apartamento novo para
a família. A crise que começou em julho
pegou-a de surpresa e a fez perder parte do ânimo.
"A partir de agora vou tomar mais cuidado", diz. Mesmo
assim, Rosana não desistiu de operar com ações.
"As pessoas me chamam de maluca, mas a bolsa já
está se recuperando."
O empresário
Luiz Guilherme Bueno, de 26 anos, aplica em ações
tudo o que ganha em sua empresa de comércio exterior.
Convicto da causa, ele tornou-se o consultor (e operador)
da família. Investe o dinheiro do pai, da namorada,
do pai dela, dos cunhados, da irmã e de um amigo. Organiza
tudo em planilhas. "Pretendo ser milionário em vinte
anos", imagina Bueno. Na crise de agosto passado, os planos
de Bueno ficaram um pouco mais distantes. Seu patrimônio
encolheu 30% em poucos dias. "Tive vontade de vender tudo,
só para não perder mais dinheiro", diz. Não
vendeu e evitou um dos erros mais comuns dos investidores
iniciantes, que é perder a calma e desfazer-se das
ações no pior momento da baixa. Mesmo assim,
a turbulência mudou sua estratégia. Bueno notou
que as ações de grandes empresas se recuperaram
mais rapidamente do que as das recém-chegadas à
bolsa e perdeu um pouco do entusiasmo pelas aberturas de capital.
"Comecei a preferir ações mais estáveis."
Mirian Fichtner
MAIS
CAUTELA APÓS A CRISE O estudante de engenharia
gaúcho Júlio César Lamb, 19 anos,
pediu e recebeu 8 000 reais aos pais para
aprender a investir na bolsa de valores. Teve um início
promissor. Lucrou 15% em apenas um mês. Em seguida,
amargou duas perdas consecutivas. Ficou decepcionado,
pois achou que ganharia sempre. Escaldado, Lamb agora
acompanha por ao menos vinte dias o desempenho de uma
empresa antes de comprar suas ações. Além
disso, segue o noticiário político e econômico
e pede informações à sua corretora.
Mais seguro, voltou com carga total à bolsa.
Aplica no mercado de ações tudo o que
sobra da mesada e do salário de estagiário.
Sua meta: acumular 500 000 reais em dez anos.
O PASSO-A-PASSO
PARA OPERAR
NO HOME BROKER
As etapas
para tornar-se capaz de investir em ações
pela internet
1
ESCOLHA UMA CORRETORA Há 57 corretoras
que oferecem o serviço de comprar e vender ações
via internet. As características de cada uma
estão na tabela
2
ABRA UMA CONTAEM SEU NOME É tão
fácil quanto abrir uma conta bancária.
Requer cópias do RG, do CPF e comprovante de
residência. O investidor terá menos trabalho
se optar pela corretora do banco em que tem conta
3
DEPOSITE DINHEIRO PARA FAZER NEGÓCIOS É preciso
ter um saldo positivo em conta para comprar ações,
além do dinheiro para pagar as despesas de corretagem,
de custódia e as tarifas da bolsa, chamadas emolumentos
4ANALISE O MERCADO E INVISTA É possível
operar durante as horas de funcionamento do mercado
ou mais tarde, no chamado after market. É bom
ir devagar no começo, fazendo transações
de pequeno valor até pegar o jeito