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26 de setembro de 2007
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Especial
Plugados no mercado

Investidores que compram e vendem ações via internet
já respondem por 8% do volume financeiro da bolsa


Laura Ming

 
Fabiano Accorsi

TUDO EM FAMÍLIA
O empresário paulista Luiz Guilherme Bueno (sentado, ao centro), 26 anos, aplica todo o dinheiro que tem – e o de boa parte da família – em ações. Isso também vale para o caixa de sua empresa de exportação. Bueno avalia ter perdido 30% do que investiu na recente turbulência que começou nos Estados Unidos e trouxe instabilidade à Bovespa. "Na pior semana eu tive vontade de vender tudo para evitar perdas maiores." Mesmo assim, ele se controlou. Desfez-se apenas das ações que tiveram as maiores valorizações. "Não achei a crise assim tão grave, mas mudei minha estratégia. Antes eu preferia adquirir ações na abertura de capital das empresas. Agora vou investir em empresas de grande porte, que se recuperaram mais rápido."




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Nesta reportagem
Quadro: O que as corretoras oferecem

Os recordes batidos por brasileiros na internet não são propriamente edificantes. O país tornou-se a maior base mundial de usuários de sistemas de mensagens, encontros e fofocas, como o Orkut e o MSN/Windows Live Messenger. Além disso, devido à sufocante carga tributária, foi o primeiro país do mundo a receber, de seus contribuintes, declarações de renda on-line – uma tecnologia a serviço do Fisco. Recentemente, no entanto, uma legião de jovens brasileiros passou a utilizar a rede mundial para alavancar sua auto-suficiência financeira. São pessoas que compram e vendem ações pela internet, por meio de um sistema virtual chamado home broker, lançado pela Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) em 1999. O sistema começou modestamente, com 3 300 participantes, e hoje tem mais de 130 000, que respondem por 8% do volume financeiro da Bovespa. Segundo a bolsa, 43% deles têm até 30 anos. "Eles são mais receptivos ao sistema porque estão mais familiarizados com a internet e confiam mais nela", diz Amerson Magalhães, da corretora paulista Título, uma das que oferecem o home broker.

Não é tão complicado participar desse negócio. O investidor precisa de um computador e de uma conexão de banda larga. Deve então abrir uma conta em uma das 57 corretoras ligadas à Bovespa que oferecem o home broker (veja a tabela com os serviços oferecidos). É necessário preencher um detalhado cadastro, informando renda e patrimônio. Também é preciso enviar à corretora cópias do documento de identidade e do CPF e um comprovante de residência. Depois de todos os trâmites, o investidor recebe uma senha para acessar o sistema e já pode começar a operar.

 
Fabiano Accorsi
AFICIONADO DA ADRENALINA
O fato de já operar desde 2003 o torna um veterano no universo juvenil dos home brokers. Vitor Belíssimo, 27 anos, não se apavorou com a crise de julho. "Alguns amigos entraram em pânico e venderam na baixa, mas eu sabia que tinha de ficar tranqüilo", diz ele, que já foi um operador de tempo integral. "Nas últimas semanas, quis saber se algum grande banco havia quebrado. Tentei descobrir os limites da crise." Apesar da turbulência recente e do desgaste com a tensão de operar todos os dias, Belíssimo continua sendo um aficionado do mercado e dos elevados níveis de adrenalina. "Não tem graça investir menos de 10 000 reais. Gosto de emoção."

Aos 27 anos, Vitor Belíssimo pode ser considerado um veterano no home broker, onde começou a operar em 2003. Nesse ano ele vendeu um imóvel construído em um terreno que recebera de herança e se tornou um operador doméstico em período integral por algum tempo. Ligava o computador às 9 da manhã, antes de o pregão abrir, e não se desconectava antes de 1 da madrugada. O dia transcorria entre análises e planejamento de novas estratégias, com umas poucas pausas para comer. A rotina fez com que acumulasse não apenas ganho financeiro, mas também dores nas costas, péssimas noites de sono, muita nicotina e 10 quilos a mais. Agora, ele procura aliviar o stress: "Apago a luz do quarto e ouço um CD de jazz".

A experiência no mercado fez com que Belíssimo não entrasse em pânico com a recente turbulência internacional, ao contrário de muitos outros usuários do home broker. Os novatos se apavoraram em agosto, quando o índice Bovespa chegou a cair 8,8% em um só dia. "Tenho amigos que se assustaram e venderam na baixa, mas eu sabia que tinha de ficar tranqüilo." Ele tem um saudável ceticismo ao acompanhar o mercado. "Não basta simplesmente comprar ações e esquecer delas para ganhar dinheiro a longo prazo. É preciso escolher boas empresas para ter lucro."

 
Fabiano Accorsi

FOCO NO APARTAMENTO
A estudante de direito carioca Rosana Ferreira, 27 anos, aproveitou as férias do meio do ano para plugar-se no sistema de compra e venda de ações pela internet da Bovespa. Seu objetivo: multiplicar o dinheiro herdado do pai para viabilizar a compra de um apartamento novo para a família. A crise que começou em julho pegou-a de surpresa e a fez perder parte do ânimo. "A partir de agora vou tomar mais cuidado", diz. Mesmo assim, Rosana não desistiu de operar com ações. "As pessoas me chamam de maluca, mas a bolsa já está se recuperando."

O empresário Luiz Guilherme Bueno, de 26 anos, aplica em ações tudo o que ganha em sua empresa de comércio exterior. Convicto da causa, ele tornou-se o consultor (e operador) da família. Investe o dinheiro do pai, da namorada, do pai dela, dos cunhados, da irmã e de um amigo. Organiza tudo em planilhas. "Pretendo ser milionário em vinte anos", imagina Bueno. Na crise de agosto passado, os planos de Bueno ficaram um pouco mais distantes. Seu patrimônio encolheu 30% em poucos dias. "Tive vontade de vender tudo, só para não perder mais dinheiro", diz. Não vendeu e evitou um dos erros mais comuns dos investidores iniciantes, que é perder a calma e desfazer-se das ações no pior momento da baixa. Mesmo assim, a turbulência mudou sua estratégia. Bueno notou que as ações de grandes empresas se recuperaram mais rapidamente do que as das recém-chegadas à bolsa e perdeu um pouco do entusiasmo pelas aberturas de capital. "Comecei a preferir ações mais estáveis."

 
Mirian Fichtner

MAIS CAUTELA APÓS A CRISE
O estudante de engenharia gaúcho Júlio César Lamb, 19 anos, pediu – e recebeu – 8 000 reais aos pais para aprender a investir na bolsa de valores. Teve um início promissor. Lucrou 15% em apenas um mês. Em seguida, amargou duas perdas consecutivas. Ficou decepcionado, pois achou que ganharia sempre. Escaldado, Lamb agora acompanha por ao menos vinte dias o desempenho de uma empresa antes de comprar suas ações. Além disso, segue o noticiário político e econômico e pede informações à sua corretora. Mais seguro, voltou com carga total à bolsa. Aplica no mercado de ações tudo o que sobra da mesada e do salário de estagiário. Sua meta: acumular 500 000 reais em dez anos.

 

O PASSO-A-PASSO PARA OPERAR
NO HOME BROKER

As etapas para tornar-se capaz de investir em ações pela internet

1 ESCOLHA UMA CORRETORA
Há 57 corretoras que oferecem o serviço de comprar e vender ações via internet. As características de cada uma estão na tabela

2 ABRA UMA CONTA EM SEU NOME
É tão fácil quanto abrir uma conta bancária. Requer cópias do RG, do CPF e comprovante de residência. O investidor terá menos trabalho se optar pela corretora do banco em que tem conta  

3 DEPOSITE DINHEIRO PARA FAZER NEGÓCIOS
É preciso ter um saldo positivo em conta para comprar ações, além do dinheiro para pagar as despesas de corretagem, de custódia e as tarifas da bolsa, chamadas emolumentos  

4 ANALISE O MERCADO E INVISTA
É possível operar durante as horas de funcionamento do mercado ou mais tarde, no chamado after market. É bom ir devagar no começo, fazendo transações de pequeno valor até pegar o jeito

 

Com reportagem de Cíntia Borsato e Juliana Garçon

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